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VITA MIA
A Organização da Produção Doméstica

Os imigrantes que foram para o Núcleo Colonial Barão de Jundiaí, a partir de 1887, vieram principalmente do Norte da Itália e troxeram , como herança cultural do camponês europeu, a tradição da propriedade e do trabalho familiar.

O imigrante italiano, ao chegar em seu destino no Núcleo de Jundiaí, concentrou os seus esforços, em função das necessidades mais urgentes, ao nível da mais estrita sobrevivência. Por isso mesmo, teve por meta assegurar a unidade o trabalho familiar e a luta pela conquista da propriedade da terra.

Procurou manter a "autonomia camponesa" e, como lembra Zuleika Alvim, em "Brava Gente"! Os Italianos em São Paulo", isso significou para o imigrante "lutar contra a proletarização, já iniciada no país de origem muito antes do próprio ato de emigrar, que marcaria profundamente a ação do grupo italiano", em terras paulistas.

Desde o primeiro contato de aproximção com a nova terra, o imigrante italiano, optando pelo Núcleo Colonial de Jundiaí , apoiou-se em valores do mundo camponês de onde saíra.

Assim foi que a família constitui a unidade fundamental de organização do trabalho, assentada na propriedade da terra e no trabalho de todos, garantindo as suas necessidades básicas e marcando profundamente a vida da colônia italiana de Jundiaí, na primeira metade de século atual.

Em todas as atividades dos colonos , estava presente o trabalho familiar. Tanto a gricultura, como o trato de animais e mesmo o comércio ambulante, eram o resultado de uma ação conjunta de toda a familía, em que participavam ativamene velhos e crianças, jovens e adultos.

O trabalho na lavoura era puxado. Durante o dia todo,de sol a sol, a familía trabalhava na terra. O serviço agrícola, coordenado pelo pai, ficava mais por conta dos adultos e jovens, tanto homens como mulheres, em igualdade de condições . Mas as crianças, a partir dos 10 ou 11 nos de idade, já começavam a participar efetivamente do trabalho na roça, junto do pai e dos irmãos mais velhos, e aprendiam a plantar e a colher. A mãe, além dos serviços gerais da casa, cuidava das hortaliças e, muitas vezes, vendia verdura na cidade. As mulheres jovens, além de trabalharem na lavoura, cuidavam também das hortas e dos serviços da casa, sempre ajudando a avó e a mãe. Como lembra o Sr. Ricardo Zanatta: (falecido em fevereiro de 1996, com 92 anos)

"Minhas irmãs ajudavam na lavoura, cuidavam também da horta e dos serviços da casa. Nas horas de folga , aprendiam a bordar. Agora, ensina a dançar, cantar e pular, não ensina mais bordar". . .

Era frequente a figura dos avós aparecer ao lado das crianças, ainda pequenas. Os serviços mais leves ficavam por conta dos mais idosos e, em geral, dedicavam-se principalmente ao trato dos animais. Nesta tarefa, os netos menores acompanhavam o avô, adquirindo noções básicas , essencias para a vida toda.

A respeito do trabalho da família, efetuado no sítio, é muito significativo o que nos diz D. Narcisa Zanatta Ceccato:

"Fiquei na escola até 10 anos. Depois, passei a trabalhar na roça, carpir milho, café. . . Eu e meus irmãos, Virgilio e Marieta; os três iam ajudar o meu pai a carpir. Marieta era a mais velha, o Virgilio era o segundo e eu a terceira. Ficava os três carpindo café.

Carpia café, milho, catava verdura para a minha mãe (Celeste) vender. Meu pai (Giacomo) plantava, eu sempre ajudava. O que ele mandava fazer, a gente fazia. Ele ensinava tinto a plantar como a colher. Depois vieram os outros irmãos , Cirilo, Ricardo e depois, a Mariana. Tudo mundo fizemos aquela vida, tudo, tudo igual.! . . .

"Lembra-se D. Narcisa de que trabalhava até as cinco horas da tarde antes de casar-se, Quando "pitava" a Várzea e nós jogava a enxada no chão'. ( D. Narcisa refere-se a indústria Elekeiroz).

Começavam o trabalho na lavoura às seis e meia da mnhã. Almoçavam ao meio dia. Depois da uma da tarde , retomavam o serviço e carpiam até a tarde.

"O meu pai dava a tarefa (ao plantio do milho) para os filhos. Media uma quadra para cada um . . ." Quem terminasse primeiro a tarefa, sentava-se à sombra para esperar o outro.

D. Narcisa e suas irmãs trabalhavam sempre de chapéu, manga arregaçada e saia comprida, mas descalças, inclusive o pai e irmãos, "não tinha chinelo não!. . . "

A família vendia café (até a geada de 1918), verdura e leite. "O milho não vendia. Era mais para o gasto da casa . Era moído no moinho do Fava no Caxambu".

Ajudava a avó em casa, porque "sozinha não dava conta do serviço, lavar roupa e tudo! Nós éramos onze, doze".

D. Paschoa , avó de D. Narcisa, veio da Itália com mais de 40 anos e não trabalhava na roça.

"Meu avô cuidava das vacas, cortava capim essas coisas. . . , mas ele não carpia. Quem cuidava das plantações era meu pai"...

Homens e mulheres trabalhavam na lavoura , em igualdade de condições. Neste sentido, é importante o depoimento de D. Filomena Chiaramonte, que vivia com suas quatro irmãs, criadas pelo pai, viúvo e a avó:

No sítio, mais de tudo, plantava tomate e uva, sempre aquilo! É! A gente trabalhava com picareta, que nem homem, pra abrir as valetas!'. . .

E complementa o depoimento, sua irmã, D. Maria Chiaramonte Bianchini:

"O trabalho começava logo cedo e terminava só à tarde. A minha avó é que fazia o almoço. Dos animais, ela ainda dava um trato. Tem muito serviço na lavoura! Tem aquele que cuida da parte do milho, tem aquele que cuida da parte da uva, outro serra capim pra dar pras vacas. Serrei tanto capim pra dar pras vacas!. . . Até hoje sofro da coluna!

Todos faziam sacrificio! Plantavam um pouco de tudo... Aqueles que não plantavam, tinham pouco (dinheiro) pra (poder) comprar. Tudo se virava! Tudo o que se comia, era produto da terra, da produção daqui". . .

Como lembra o Sr.Antonio Bianchini:

"Quando tem milho , tem porcos, tem galinhas, ovos tem tudo! Se tem vaca, tem leite , tem queijo!. . .

Os colonos gostavam muito de frango com polenta, de sopa, com carne e legumes, e de carne de porco. Faziam a panceta, o toucinho, a linguiça e aproveitavam a gordura de porco. Tinham disponíveis os ovos, o leite, as verduras e frutas. Em geral não gostavam de feijão.

Para os moradores nos sítios, a alimentação era farta, mas o dinheiro, não. Viviam em regime de estrita economia e, por isso mesmo, ao longo do tempo conseguiram poupar.

As necessidades de consumo eram, pois, restritas com relação aos habitantes do Núcleo Barão de Jundiaí.

Vinham de fora principalmente a farinha de trigo para fazer o pão, o sal, o açúcar e querosene. Até mesmo a sardinha, o bacalhau e o arenque seco, como nos disse D. Alice Spiandorin Galantin, podiam ser comprados no armazém do Copelli, na cidade. As roupas de algodão grosseiro, eram confeccionadas em casa mesmo, muitas vezes em máquinas movidas a mão.

Na realidade, foi a organização da produção doméstica, com base no trabalho da família, que tornou possível aos imigrantes italianos e seus descendentes garantir as suas necessidades básicas. Como afirmou a Profa. Maria Thereza Schorer Petrone, em palestra proferida na Universidade de São Paulo, em março de 1987, "O imigrante, arraigado nas tradições do camponês europeu, reproduziu na nova terra o trabalho familiar como garantia de suas obrevivência. A tradição do trabalho no campo, marcado pelo trabalho familiar, preservou à familia o seu modo de vida". Daí, a necessidade que se impôs aos filhos e netos dos primeiros moradores do Núcleo Barão de Jundiaí, de continuar a reprodução do trabalho conjuntos de toda a familia.



Família João Ceccato, 1936.
Batizado de dois netos de João Ceccato.
Coleção: João Ceccato.



Família Zanatta, dec. 40
Giacomo e Celeste Zanatta e netos.
Coleção: Estela Zanatta.



 
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