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O COMÉRCIO AMBULANTE SE DESENVOLVE Foi tomando força e, na primeira metade do presente século, adquiriu expressiva importância para a sua economia. Era um comércio constituído, sobretudo, de alimentos fundamentais à rotina diária. Os vendedores ambulamtes ofereciam gêneros alimentícios ligados às necessidades bàsicas dos consumidores urbanos, vendendo na cidade de Jundiaí, principalmente, verduras de sua própria terra e o leite. Esses pequenos comerciantes vendiam ainda frutas, carne de porco, linguiça, toucinho, gordura, frangos e ovos. Como diz Maria Inez Machado Borges Filho (em O Cotidiano e Sobrevivência: A vida do Trabalhador Pobre na Cidade de São Paulo, 1890-1914), "os problemas enfrentados para estocar produtos perecíveis influíam no hábito (das donas de casa) de comprar carnes, leite, frutas e verduras em pequenas quantidades renovadas dia a dia". Homens, mulheres, jovens e crianças participavam deste comércio. Foi a extensão do trabalho familiar que se fez presente também nesta atividade. Tanto os chacareiros da área urbana do Núcleo, praticando a horticultura, como os sitiantes da área rural, desempenharam um importante papel no que diz respeito ao comércio ambulante, levando os seus produtos à cidade, diariamente, para abastecer a população. Neste clima de estreita ligação entre a Colônia e a cidade, convivendo ao mesmo tempo o rural e o urbano, o vendedor ambulante conseguiu afirmar-se por um bom período. Primeiro, deu início às suas atividades com as cestas no braço e o carrinho de mão, depois com o cabriolé e a carroça e, por fim, até mesmo a caminhonete em alguns casos, como o de Antonio Zanatta que, ainda hoje, vende verdura. A figura do carroceiro também faaz parte do comércio ambulante. Trabalhando, muitas vezes, por conta própria, teve um papel muito significativo nas transações comerciais até a generalização do uso do caminhão. OS VENDEDORES AMBULANTES NO DIA-A-DIA
AS VERDUREIRAS Para as verdureiras o dia começava muito cedo. Madrugavam por volta das quatro da manhã. Já às seis, prontas, dirigiam-se para a estrada principal (hoje , Av. Dr, Antenor Soares Gandra e Av. São João), rumo à cidade. E lá iam, de cabriolé, D. Narcisa Zanatta Ceccato, D. Santina Cecchini, D. Emma e Amélia Nascimbene, Virginia Balestrin, D. Santina Vitor, D. "Balogana", D. Marieta Zonaro e tantas outras mais, vender verdura na cidade e bairros próximos à Colônia, como Ponte São João. Tinham freguesia certa. Levantavam tão cedo em função dos trabalhadores da Companhia Paulista e do apito das dez e meia das oficina , numa época em que os jundiaienses ainda acertavam o relógio pelo horário do trem. Tempos passados!. . . As donas de casa queriam as verduras cedo. Tinham pressa,sim , para fazer o almoço aos maridos que chegavam depois do apito. As verdureiras costumavam vender almeirão, couve, salsinha, espinafre, acelga, pimentão, etc. muitas delas, por volta de 1926 , iam diretamente ao Mercado Municipal (atual Centro das Artes) onde permaneciam até às nove horas e, depois, vendiam o restante das verduras para os fregueses de costume. D.Narcisa não gostava de ir ao Mercado. E, assim comentou: "Tinha que descarregar tudo, depois carregar de novo, era ruim. Mas, não fui muito tempo!. . . No Mercado não deu certo! Depois, sempre me roubavam um pouco de verdura! Então, peguei licença especial e ia na rua. As verdureiras voltavam para a Colônia e chegavam em casa por volta do meio dia. Muitas tinham dias certos, na semana, para vender os seus produtos. D. Narcisa relembrou: "Ia (vender verdura) três vezes por semana: terça, quinta e sábado. Depois, tinha o serviço da casa, limpar alguma coisa,. . . ia na horta regar e replantar e tratar a vaca. Porque a vaca tinha hora certa que nem nós ! Quando era cinco horas da tarde, era para tratar as vacas. Dava água, farelo, capim, tudo!. . . " Como verdureira, depois de casada, D. Narcisa trabalhou durante 39 anos. Do mesmo modo, as verdureiras da Colônia trabalharam anos a fio neste ramo de atividade.
Armazém de secos e molhados, Luis Benacchio, Jundiaí. Capa do Calendário de 1918. Coleção: Maria Helena Benacchio Montovani.
A participação das crianças e dos jovens em tal atividade foi expressiva. Junto ao pai ou irmãos mais velhos, crianças de 10, 11 anos de idade, já madrugavam para vender o leite. Era costume na época (durante o primeiro terço do atual século), usar ao ombro o picuá (ou sapicuá) que comportava oito litros de leite; quatro à frente e quatro às costas. Este era confeccionado com um saco de açucar retangular de 60 Kg, com três costuras perpendiculares nas duas extermidades menores, de modo a caber , em cada uma delas, quatro litros. Saíam muito cedo para vender leite na cidade. Iam a pé ou, era comum ainda, uma criança sentar-se ao lombo de um burro, que carregava também mais dois sapicuás. Quando menino, montado num burrinho com os picuás, ia o Sr. Francisco Pozzani vender leite na cidade, bem cedo. Dormia durante o percurso e só acordava quando o animal parava defronte à casa do primeiro freguês. Houve familias que chegaram a organizar-se em função de uma economia de subsistência e de produção leiteira para fins comerciais. Neste sentido, são importantes os depoimentos dos senhores Antonio D'Agostinho e José Ceccato. O primeiro refere-se á um época em que era criança quando a familia não possuia cabriolé. Sua mãe era viúva e tinha sete filhos para criar. Frente às dificuldades e privações que viveu, menciona o Sr. Antonio: "Minha mãe, depois que conseguiu ter vaca de pasto começou a melhorar a vida da familia. . . (Eu) punha oito litros de leite "nas costas", e ia até "A Paulicéa ", na cidade, pra vender o leite. Ia descalço". Sua irmã, Filomena, o acompanhava. Usavam o picuá. O Sr. José Ceccato, também mostra as dificuldades que ele e os irmãos enfrentaram, quando crianças e jovens, vendendo leite, enquanto o pai trabalhava fora. A avó coordenava a vida do sítio, assessorada por sua mãe, Teresa: " A vida da familia começou asssim ! Tudo a pé, nas costas e no braço. Tudo assim ! A carroça veio depois . . . Começamos a vender leite. Foi o que indireitou a situção de minha familia, foi as vacas! . . . Eu, com a idade de oito anos, já vendia leite na cidade; e os meus irmãos e irmãs, a mesma coisa. . . Agora, a Catarina sempre trabalhou mais em casa (no sítio). Nunca foi vender leite. . . Eu, por exemplo, e meus irmãos foi tudo a mesma coisa. . . Eu, primeiro, sim, vendia leite; depois, ia pra casa depressa, voltava com cesta para almoço pro meu pai e meus irmãos que já trabalhavam na Paulista e, então dava uma corridinha e ia na Escola das Freiras. De lá saía depressa , ia na Colônia, pra vender leite outra vez. . . , de tarde . . . , até umas sete, oito horas. . . O nosso trajeto ( do Sr. José e das irmãs , Maria e Lúcia ) na cidade era mais a Rua Prudente . . . Até na Ponte Campinas nós tinha um freguês!. . . Aí, depois que eu fiz 17 anos, eu entrei na Companhia Paulista e, então, so fui trabalhar (lá), até me aposentar". A familia sempre viveu com os rendimentos do sitio e com base no comércio de leite, em que pese o trabalho fora, por parte primeiro, do pai e, bem mais tarde, dos filhos Miguel, Antonio e, depois, José. O Sr. Luís, o mais novo, foi quem arcou com as vendas do leite e, por muitos anos, foi leiteiro. Permanece no sitio até hoje.
A ROTINA DIÁRIA DO LEITEIRO O dia para os leiteiros começava muito cedo , por volta das quatro horas. Preparavam farelo e milho para dar ao cavalo e , enquanto este se alimentava , tiravam o leite das vacas . Feito isso, atrelavam o cavalo no cabriolé (e, mais tarde, no carrinho de leite). Por volta das cinco horas, já estavam prontos para dirigir-se à cidade. Vendiam o leite em litros comuns e em latões, com medidas de litro e meio litro. Para ultrapassar o bairro da ponte São João, as vezes, precisavam esperar cerca de meia hora até a porteira o trem abrir e, nessas ocasiões, reuniam-se muitos leiteiros da Colônia, todos conhecidos. Lá estavam os senhores Agostinho e Octavio Balestrim, Antonio D'Agostinho, Luiz Ceccato, Cesar Cosin, Mário e Ricardo Zanatta, Gilberto Beraldi, Napoleão Guarise e João Pessoto, entre muitos outros. Enquanto esperavam o trem passar, ficavam conversando. Depois de liberada a porteira, cada um seguia o seu próprio destino, atendendo a uma freguesia certa . Voltavam à Colônia, por volta daz dez e meia da manhã e o trabalho no sítio ou chácara continuava. Em seguida, almoçavam por volta do meio dia, descansavam um pouco e retomavam o serviço. À tarde, em hora certa, tratavam a vaca, alimentando a com farelo, capim e água. Novamente, tiravam o leite e, em seguida, enchia-se o cocho de capim. A rotina dos leiteiros era dura! Por isso mesmo, havia os que contavam, quando necessário, com um "camarada" para ajudar. Além disso, havia a retaguarda da familia. Muitos tinham animais próprios para o forncimento de leite, necessário para atender à freguesia. Outros além da produção própria, contavam com o excedente da produção leiteira de sitiantes da Colônia. O Sr. Ricardo Zanatta, além do leite que seus animais produziam comprava de seus irmãos, do "Zambon, do Meneguim, de Antonio Balestrin e do Perbelini". a quatrocentos réis e revendia-o na cidade a quinhentos. Quando não conseguia vender todo o leite, acabava por vendê-lo pelo mesmo preço, para não levá-lo consigo de volta ao sítio. Muitos leiteiros da Colônia dedicaram-se a este ramo de atividade durante anos e anos, como o Sr. Octávio Balestrin e o Sr. Luiz Ceccato. O Sr. Antonio D'Agostinho foi leiteiro cerca de 40 anos. Depois, vendeu a sua freguesia para Guido Passarin que já morava, há anos, no bairro da Agua Fria.
OS CARROCEIROS O Sr. Cirilo Massa tinha uma carroça e quatro burros. Lembra-se o filho de que "fazia carreto para um e para outro, buscava mercadoria na Estação e trazia para o negociante; depois, pegava lenha, cortava e vendia para a cidade. Naquele tempo, não tinha gás. Não faz muito tempo que está aí". O Pai do Sr. Fausto " sempre lidou com animal, com carroça e fazia tijolo também. Em dia de aperto, que não tinha serviço com a carroça, ia trabalhar nas olarias". Deixou, posteriormente, de trabalhar em olarias e começou a fazer carregamento de tijolos. Recorda-se o Sr. Fausto de que, quando era pequeno, muitas vezes, acompanhava o pai e ajudava-o a carregar e a descarregar tijolos. O Sr. Cirilo passou também a fornecer lenha para as olarias. Da estação ferroviária de Jundiaí (São Paulo Railway Company) trazia cargas para os armazéns. O açucar vinha de Pernambuco, o trigo da Rússia (em barriquinhas), o cimento também era estrangeiro e chegava em barricas de 200 Kg. Fazia o transporte de café dos pequenos produtores, como, "Luis Destro (meu avô materno), do Vitto, de um caboclo (Generoso, que tinha um cafezal) na estrada que vai para Ivoturucaia)". Entre outros. Ganhava carretos com o café em coco que trazia dos sítios para beneficiar na Colônia mesmo. Fazia também o carreto desse produto até a estação, depois de beneficiado. Realizava várias viagens até lá e carregava, em cada uma delas, até 20 sacos. "O café limpo, ensacado e pronto para torrar, era embarcado para São Paulo". Além disso, o Sr. Cirilo negociava animais próprios e mesmo de sitiantes ou conhecidos da redondeza. Também "comprava burro xucro, amansava e vendia". O Sr. Fausto seguiu o mesmo caminho do pai; foi basicamente carroceiro e também chegou a vender animais. Morava em uma grande chácara. Com a idade de 11 anos já vendia leite na cidade. "Quando cresci um pouco, fui trabalhar para o Benacchio, e meu irmão Alberto, entrou no meu lugar para vender leite. Conforme crescia, fazia o serviço! Na época em que o Sr. Fausto trabalhava no armazém de Luiz Benacchio (O Armazem do Benacchio existiu na colônia até 1978, hoje no prédio que abrigava o armazém funcionam um despachante, uma lanchonete), duas vezes por semana madrugava às três horas. Ia ao açougue Picchi, no centro da cidade, buscar carne. Voltava para a Colônia e, em seguida, carregado de mercadorias como uvas, tomates, pimentões e abobrinhas, seguia para a estação. Despachava os produtos na São Paulo Railway Company, com destino ao mercado Municipal de São Paulo. Para o Benacchio, fazia ainda o transporte de uvas que eram destinadas para a indústria de vinho De Vecchi. Muitas vezes, "pegava carretos de capim seco , lenha , carvão e entregava no Bocchino (que tinha um armazém na Rua Barão) , no Café Avenida também ou em padeiros, como o Sidatti, perto do antigo quartel da cidade". Na Ponte São João, levava capim seco que servia para dar aos cavalos. Fazia quatro a cinco viagens por dia, ida e volta, entre a Colônia, a cidade e a estação, na época em que trabalhava no armazém Benacchio, antes de casar-se. O Sr. Fausto casou-se com D. Elide Ungaro. Inicialmente, morou com sua esposa, na casa paterna, por um certo tempo. Acabaram se mudando para o sítio de seu sogro (Lourenço Ungaro) e lá permaneceram durante um ano. Depois foram morar junto dos pais de D. Elide, que residem na área urbana do Núcleo Colonial. O Sr. Fausto continuou a manter o sítio com a ajuda de um caseiro e, ao mesmo tempo, ajudava o sogro, que tinha um armazém. Realizava a entrega das compras lá efetuadas e buscava mercadorias na Estação: "Naquele tempo, tudo era puxado por carroça de burro e carro de boi. Passava os burros , carregados com as cangalhas!. . . carreguei carga, até que apareceram os caminhões. Antes não, vinha tudo pela estrada de ferro!. Conta o entrevistado que na "Inglesa" entravam dois trens por dia, por um corredor, no armazém da Estação: "Precisava ver aquela gente trabalhar! Para retirar mercadoria do trem, precisava pagar antes. Fazia até fila para pagar! Mas, vinha o conferente lá e dizia: - Cai fora! Venha aqui!! Paga depois, quando não tem mais gente! Vai tirando logo, senão paga armazenagem!. Vinte e quatro horas era o prazo para desocupar o vagão. Tinha vagão fechado com 2500 a 3000 sacos de farelinho. Muita gente na Colônia e Caxambu tinha vaca e vendia leite na cidade". Os vagões fechados eram encomendas, muitas vezes, dos armazéns de Luiz Benacchio e de Lourenço Ungaro.O farelinho vinha de São Paulo (do Moinho Matarazzo) e do Moinho Santista. Sr. Fausto chegou também a negociar animais, inclusive em São Paulo, Os compradores, em geral portugueses, faziam o pedido de compra de animais para o Sr. Fausto na Colônia e ele mesmo fazia a entrega na capital. Ia pela estrada de Atibaia e, depois pela Várzea e Campo Limpo, pegava a estrada velha de São Paulo. Vendia animais na Penha, Itapecirica da Serra e mesmo em São Bernardo e santo André. "Lá (São Bernardo e Santo André) era tudo camparia! Demorava quatro a cinco horas para chegar à capital. Em geral, levava animais a mais para vender e recebia o dinheiro no ato da venda. Suas viagens eram realizadas com segurança. Antigamente, não havia perigo de assaltos nas estradas. O Sr. Fausto vendeu ainda muitos burros para olarias, sobretudo quando aumentou, consideravelmente, o número de construções na cidade de Jundiaí, em decorrência da abertura de novos loteamentos. Era o início dos anos 40.
O CAFÉ E A UVA Podemos enumerar várias familias que se dedicaram a este tipo de cultura , tais como Zanatta, Casarin, Scali, Destro, Vitto, Lorenzetti, Ponzetto, Cosin, Belesso, Demarchi, Pessoto, Bianchini, Marcassa , Balestrin, Spiandorin, Manzini , Segala , Bergamo, Nalini, Zambon, entre outras. Na base da pequena produção cafeeira (de 2000 a 3000 pés), o café podia ser vendido em coco, para fazendeiros de Jundiaí, como Afonso Roveri ou Francisco Fagundes ( do Rio Acima), que realizavam o beneficiamento do mesmo, com destino ao comércio externo. Além disso, os pequenos produtores da Colônia e de áreas próximas, como Ivoturucaia ou Caxambu, também podiam se servir de beneficiamento existente na Colônia para depois comercializarem o produto. O Sr. Agostinho Balestrin recorda-se : " O café era vendido em coco. E o Ferigato (Gibim) tinha beneficiamento na Colônia. . . Não sei se o Spiandorim mandava benficiar o café lá. . . Quando nós ia na escola , eu escutava a maquina que 'pitava' às dez, onze horas!. . . Os pequenos produtores da Colônia cultivaram o café até a geada de 1918. A partir daí, começaram a dedicar-se, como outros de lá, à cultura de uvas, tomates e outras frutas, para fins comerciais. A cultura do café declinou. Em contrapartida, a uva que desde o final do século passado começara a despontar, já se firmava, na primeira metade deste século, como uma cultura de grande sucesso. Por volta de 1890, em relação aos proprietários de sítios, há referências ao cultivo de videiras no Núcleo Colonial Barão de Jundiaí. Inicialmente a produção era efetuada mais para o consumo familiar, e também era frequente fazer-se vinho, de produção caseira. As uvas aí produzidas no atual século, em especial a curbina, eram destinadas em parte, ao comércio (no âmbito da cidade de Jundiaí) voltado para a produção de vinho. Os pequenos produtores da Colônia forneciam a uva para fabricantes da cidade, lembrando aqui as fábricas de vinho De Vecchi e Traldi.
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