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VITA MIA
A Construção das Casas

O imigrante, antes de iniciar sua casa definitiva, fazia uma provisória, geralmente de barrote e com cobertura de sapé. Nesta primeira fase, a casa possuía quatro cômodos sem revestimento no piso: quando era coberta de telhas, estas eram obtidas em demolições na cidade ou no Sítio Grande, que já estava abandonado. A cozinha era fora, também de barrote com cobertura de sapé. Essa casa abrigava a família durante a construção da casa definitiva.

Inúmeros fatores conduziram a construção da casa, sendo alguns previstos em contrato. O item 2 previa que "Até seis meses depois desta designação, deve estar plantada uma área de mil braças quadradas, e construída uma casa que tenha pelo menos, quatrocentos palmos quadrados, para a sua habitação permanente e de sua família...". Isso realmente aconteceu e a construção das casas era realizada num tempo médio de quatro meses.

Todas as casas tinham um pedreiro (muratore) e os serventes eram membros da família. Os pedreiros trabalhavam às pressas, sobrecarregados com o número de casas a serem feitas. Colocavam apenas os batentes e a cobertura, após o que a família dava sequência à obra, guarnecendo-a de portas e janelas, ou então aguardavam a disponibilidade do pedreiro, conforme relato de José Orlandi. O projeto não passava por desenhos; era direto: "Riscavam a casa no chão, não faziam plantas. Era tudo da idéia", diz o depoimento de Antonio Boschini.

Com prazos determinados, controlados por Inspetores de Terra, contando com a garra das famílias e do pedreiro, a construção da casa desenvolvia-se rapidamente. Depois de desenhada no chão, abriam as valas e construíam os alicerces. Erguiam os batentes sobre os alicerces aprumados e nivelados, mantidos assim por escoras; na sequência , subiam as paredes em "meio tijolo", usando sempre os seguintes instrumentos: níveis, esquadros, prumos. Os tijolos, assentados em barro, fixavam os batentes de duas formas: "cintas de barril", presas aos batentes e amarrados aos tijolos, ou com ripas de madeira pregadas em toda a altura dos batentes onde, nesta saliência de ripas, encaixariam os tijolos cortados e ajustados para isso. Frequentemente as construções eram feitas com tijolos e asssentamento para serem mantidos à vista, sem revestimentos.

Mostravam, assim, trabalhos decorativos na elaboração do assentamento dos tijolos, bem como relevos formando desenhos; os tijolos eram cortados artesanalmente, com marteletes. Por dentro, todas as casas eram revestidas.

No respaldo das paredes, na altura de cerca de três metros, assentavam, em nível, vigas (vassourão) com diâmetros de 12 cm, paralelas de 50 em 50 cm em toda a área de construção, com finalidade de amarrar as paredes. As vigas , terças caibros e ripas do telhado, assim como os batentes e soleiras, eram escolhidos nas matas. As árvores eram assim selecionadas: "o vassourão", usado como vigas e terças; a "canela"para batentes e vigas. O coqueiro ou palmeira, cortado e desdobrado com trançador, era utilizado como ripas e caibros do telhado. As ferramentas para regularizar e trabalhar a madeira eram o machado, o trançador, a serra de volta, o enxó, a plaina e a galopa.

As cimalhas ou cornijas, no alto das fachadas, eram o ponto de arremate e acabamento da obra; ali o pedreiro se esmerava. Quando os tijolos ficavam expostos, estes eram utilizados em formas especiais ou cortados artesanalmente, em assentamentos elaborados. Quando revestidas, as cornijas eram feitas com moldes desenhados e recortados pelos pedreiros. Para cada casa era feito um molde especial. As fachadas se completavam com desenhos de colunas, cornijas e frontões. Não há nenhum caso de telhado oculto por platibandas. A massa de revestimento era composta de areia de chuva, proveniente das estradas, estrume fresco de gado ou cal. Os pisos inicialmente permaneciam em terra batida. Tão logo fosse possível seriam revestidos com tijolos de melhor qualidade, formando desenhos diferenciados, especialmente na sala.

As casas tinham fachada voltada para a estrada. Com maior frequência, as fachadas tinham a seguinte composição: uma porta central e de cada lado duas janelas. Isso determinava um desenvolvimento interno: a sala central distribuindo para os quartos laterais, local para refeições e cozinha nos fundos, mesmo em prejuízo da insolação nos quartos, quando coincidia com a face sul.

A cobertura era sempre disposta em duas águas iguais. As ampliações antigas eram feitas com os mesmos materiais da casa, tijolos, madeiras e portas. Estas ampliações eram geralmente realizadas nos puxados dos telhados dos fundos, ou com telhados apoiados e iniciados nas paredes laterais e terminados até a altura mínima do pé direito. As ampliações poderiam também ter o telhado igual ao principal, em duas águas, paralelo e mais baixo , ou mais alto que o telhado principal.

Outra possibilidade era aumentar a casa com mais duas águas ligadas aos fundos da casa principal, uma vez esgotados os acréscimos permitidos pela inclinação dos telhado. Essas ampliações relacionavam-se ora às necessidades do trabalho doméstico - cantinas (para o vinho), depósitos (para cereais, lenha e alimentos), cozinhas e fornos de pão - ora ao aumento da família, decorrente de nascimentos e casamentos. Outras construções se agregavam, mas não eram ligadas à casa: as cocheiras, cantinas, depósitos, poços e abrigos para charretes.

Uma das condições determinantes para a ampliação da casa era o relevo do terreno, que também direcionava os acréscimos realizados.

A casa da família Malatesta era diferente. Por ser a família numerosa, e por ter em seu corpo um comércio, uma "venda", o projeto se particularizava.

A ampliação da casa aconteceu de um lado só e em duas etapas. Um corredor ligava a casa a um conjunto composto por quarto, "venda" e cozinha. Em outra etapa, a "venda" foi reconstruída e seu espaço original se destinou a depósito. Em seu corpo principal, os quatro quartos são independentes, organizados por corredor e ligados à sala. O resultado é um projeto de conformação longitudinal, funcional e diferenciado da maioria das casas estudadas.

OS BANHEIROS

Não havia banheiros. O banho era tomado no rio, ou nos quartos, com o auxílio de equipamentos triviais tais como mastela, tina, bacias grandes e pequenas, usadas para lavar os pés antes de dormir. As necessidades fisiológicas eram feitas no mato. A latrina com fossa negra só aparece a partir de 1930. À noite utilizava-se vasos noturnos e urinóis; as fezes eram depositadas nas esterqueiras e frequentemente a urina era jogada em formigueiros, na tentativa de exterminá-los.

O SOBRADO

A arquitetura realizada aqui não sofreu influência das modas urbanas que vinham da Europa.

Um exemplo deste fato é dado por Buono Guarisi, que construiu seu sobrado em 1888 .Para isso, com a ajuda da família, fabricou os tijolos, selecionou as madeiras necessárias para os caibros e vigas da cobertura e do piso superior. Na demarcação da casa não usou o esquadro e o resultado foi a planta irregular. O acabamento é rudimentar, sem nenhum material trabalhado industrialmente e sem elaborações técnicas que exigissem ferramentas especiais para sua execução.

Este sobrado do tipo itálico rural tem suas origens e definições nas tradições da arquitetura rural italiana. Entretanto, uma das diferenças entre estes sobrados e os italianos é que, nestes últimos, construia-se fogões com altas chaminés, que se prestavam também ao aquecimento das casas no inverno europeu; aqui, em função do clima, este tipo de fogão não foi construído. Outra diferença relaciona-se à utilização do sobrado como um todo, uma vez que, nos italianos, inicialmente, o piso térreo destinava-se apenas ao uso doméstico ou servia como depósito.

Esse tipo de construção foi muito frequente no Núcleo. Foi possível registrar diversas indicações de sobrados demolidos ou que tiveram suprimido o segundo piso. São importantes também as construções que têm o pé direito aumentado para possível ocupação futura, como é o caso de parte da casa Ceccato. Na altura de três metros todas as casas possuíam uma amarração de vigas de madeira que poderiam vir a definir outro nível. Quando o espaço não era efetivamente usado, essas vigas ofereciam sempre a possibilidade de uma futura utilização como depósitos. Esse uso tem suas origens, provavelmente, nos depósitos para secar e armazenar milho, que deveriam ser bastante ventilados , sempre nas partes superiores da casa rural italiana (Giuseppe Pagano e Guarniero Daniel - Architettura Ruralle Italiana Quaderni Della Triennale. Ulriaco Hoepli Editore. Milano, 1936).

Essa insistência em utilizar os espaços superiores da construção demonstra correta ocupação da casa, o que é reafirmado pelo aproveitamento das espaços das cocheiras e depósitos externos. A partir da altura de um homem até o nível das telhas são guardadas ferramentas, equipamentos de agricultura, cereais, peças de carroça e selas, madeiras de todos os tipos, caixotes, objetos quebrados e fora de uso, que aguardavam ali o momento de serem reaproveitados.

AS COZINHAS

A cozinha é a peça da casa que recebe o maior número de equipamentos construídos, entre os quais destacam-se os fogões, apoios para filtro, reservatórios de lenha, apoios para potes, latas de água, além de pias de características particulares, com saída para águas usadas. Na parede de algumas cozinhas encontra-se a boca do forno-de-pão, cujo corpo era construído à sua parte externa, embora, mais frequentemente, fosse implantado fora da casa, em áreas de serviço abertas.

Nas casas do Núcleo o fogo era feito, numa primeira fase, no chão, sob a panela pendurada na fornela; frequentemente acrescentavam uma coifa de folhas-de-flandres. Numa segunda fase, era construído um fogão de tijolos assentados com barro, que possuía a boca com diâmetro determinado pelo tacho, já com chaminé para a saída da fumaça. Finalmente, era construído o fogão a lenha, de alvenaria de tijolos, revestido de cimento importado da Europa. Tinha, na parte superior, uma chapa com três bocas de diâmetros diferentes e, sob esta, o fogo. No corpo do fogão era assentado o forno industrializado, feito de ferro com tampa e gaveta para as brasas. Em alguns fogões existia uma reentrância na base junto ao piso, para acomodar os pés enquanto se cozinhava. A fumaça era tirada por chaminés munidas frequentemente de registros. Alguns entrevistados relatam ainda a presença de uma coifa de alvenaria, cobrindo toda a área do fogão.

A louça era, inicialmente lavada no rio ou em caldeirões e tinas até construírem a pia. Esta era rasa, de alvenaria de tijolos, com saída para águas usadas e revestida de cimento. A água era trazida do rio ou do poço em baldes ou potes, e colocada ao lado da pia. Fixavam prateleiras na parede para pendurar ou apoiar panelas de barro, depois de ferro fundido e conchas para vasilha de sal.

O piso foi inicialmente de terra batida e depois de tijolos. A implantação da cozinha ocorre no perímetro da construção principal. Isto está ligado à história do desenvolvimento da habitação popular, decorrente das precauções contra o fogo. O fogão, numa primeira fase, era implantado no meio da cabana de sapé e a saída da fumaça se dava pela cobertura vegetal, colocando a casa sempre em risco de incêndio. O fogão se deslocou então, em função disso, para o perímetro da casa, com chaminés que ofereciam segurança à cobertura. A substituição da cobertura vegetal por telhas de barro não alterou a implantação do fogão, consequentemente, da cozinha. Muda o material mas permanece o hábito (Giuseppe Pagano e Guarniero Daniel - Arquitetture Rurale Italiana della Trienalle. Ulrico Hoepli Editore. Milano, 1936).

Apesar da segurança oferecida pelas telhas de barro das construções posteriores e da redução da altura das chaminés, as cozinhas continuaram a ser construídas anexas à casa, situando-se, geralmente, nos fundos. Através delas ocorriam todas as relações com os serviços exteriores, plantações, criações, horta, poço, terreiro e forno de pão. Para o forno de pão, numa primeira fase, alguns utilizaram o cupim retirado de pastos, ou o construíram com barro. Na sua forma mais permanente , o forno era feito de tijolos.

Um porão de madeira externo à porta de saída, ou a própria porta cortada ao meio na horizontal, impediam a entrada de criações e de animais domésticos.


Interior da cozinha.Casa Chiavegato. Séc. XIX.
Pia Construída com pouca profundidade.
Característica das casas do Núcleo.



 
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