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Home » Vita Mia » Cem anos de Imigração » Origem e Difusão do Ofício de Pedreiro
O Presidente da Província, Antonio de Queiroz Telles, o Visconde de Parnahyba, contrata no ano de 1887 a Sociedade Promotora de Imigração para introduzir imigrantes na Província. A intenção era trazer mais lavradores que em anos anteriores haviam demonstrado excelente desempenho na produção de café. O que não impediu a vinda de oficiais pedreiros e lavradores com outras profissões. Dizia o Presidente: "Pretendia insistir pela providência, lembrada em meu relatório, de ser concedido o auxílio somente aos imigrantes que se destinassem à lavoura, quer nas fazendas, quer nos núcleos. Pagar-se indistinctamente, e, não raro, sem critério, a todos aquelles que vêm procurar fortuna, sem o objetivo do trabalho rural, é além de introduzir elementos cosmopolitas e perigosos de desordem no seio da nossa sociedade, fazer despezas avultadas e inúteis com indivíduos que muitas vezes, vêm apenas fazer jus ao auxílio do Thesouro, e sem intensão de estabilidade saem para outras províncias ou para as Repúblicas do Rio Prata." (E. Egas, Galeria dos Presidentes de São Paulo, 1829-1889, Vol. 1). Para receberem os benefícios concedidos pelo governo, passagens, lotes, transportes e outros, nos documentos oficiais todos se denominaram lavradores. Sob esse titulo as verdadeiras profissões ficavam escondidas. Isto só seria corrigido na Sociedade de Mútuo Socorro, organizações que não permitiam sócios que não fossem homens italianos ou descendentes de italianos, quando então a profissão principal do sócio era revelada; entre estas, destacam-se as mais ligadas à construção : "muratore", "costrutore", "marmista", "fabro ferraio", etc. Conforme os dados revelados pelas entrevistas e pesquisas, entre os primeiros pedreiros que trabalharam no Núcleo, estavam Bortolo, Achille, Gaetano, Augusto, todos Murari, e também Ângelo, Cesar e Félix Ferrari, Buono Guarisi, Giácomo Bardella, Atílio Giarolla, Giacinto Nalini, Ferdinando Faraboli, Arcangelo Sibinel, Ângelo e Antonio Roncoleta, Alessio Zomignani. Alguns entrevistados lembravam quanto o pedreiro recebia : "... 10 mil réis por dia, das 07 às 17 horas" (Antonio Boschini). Laurindo Ferrari diz que "Cesar Ferrari recebia de 4 a 5 mil réis por dia. Quando contratavam serventes, estes ganhavam 2 mil réis" (Damasio Negro). As respostas às dificuldades da obra eram dadas pelo pedreiro, que resolvia todos os problemas da construção, desde a escolha e corte das madeiras do telhado até o esculpir do batente. Cesar Ferrari desenhava suas obras, projetava-as ensinou a seu filho Felix os ofícios do desenho e da construção (Laurindo Ferrari). Na insistente tentativa de tirar do anonimato os autores das casas estudadas, os Murari propiciaram uma agradável surpresa. Entre as dez casas, observou-se que cinco foram feitas por Bortolo Murari e uma por Gaetano Murari. Entrevistas com os membros da família, revelaram uma corporação de pedreiros. Na família de Bortolo aparecem pedreiro em quatro gerações sucessivas. Gaetano teve quatro pedreiros entre os sete filhos do sexo masculino (dois foram padres) . A família também aparece ligada às construções religiosas. Bortolo Murari construiu a primeira capela da Colônia, demolida em 1982, e foi o pedreiro da igreja da Colônia em 1889, demolida em 1968. Gaetano fez a Capela de Santo António, na Ponte São João, e seu filho Augusto trabalhou na cidade de São Roque, onde construiu a Igreja Matriz e o Seminário. Em todas as ramificações da família Murari, pedreiros se destacam em cada geração. Assim espalhou-se um grande número de construções pelo Núcleo Colonial, pela Ponte São João, por Jundiaí e, como vimos, por outras cidades do Estado. A origem dessas construções estão incorporadas à história das casas brasileiras construídas com tijolos. A "arte muraria", arte do pedreiro, tem nessa família prova documental do seu desenvolvimento e transmissão do conhecimento do ofício. É unânime entre os entrevistados mais velhos e membros da família a afirmação de que na Itália todos eram construtores. Isto, de fato, está demonstrado no próprio nome da família : "Murari", de "muraro", aquele que trabalha como pedreiro. Esses pedreiros, assim como outros, anônimos, formavam novos pedreiros a cada obra, difundindo, pela necessidade do construir, o ofício e a linguagem de uma arquitetura que para nós é tão familiar quanto qualquer casa de tijolos. Foram os pioneiros que motivaram, de forma direta ou indireta, através de relações familiares e/ou divulgação do ofício, a formação dos profissionais da construção do final do século passado até nossos dias. Os pedreiros italianos, transmitindo seu ofício em cada cidade ou região, foram os responsáveis pelas construções que definiram as cidades de tijolos. A origem do conhecimento do ofício dos pedreiros atuais não provém de formação escolar : o seu aprendizado é informal. O canteiro de obras é a escola do pedreiro de hoje. Sabe-se que qualquer um é pedreiro, fato que há muito tempo vem provocando e justificando migrações em massa no país. Tanto a história recente da profissão como a mais antiga, são assuntos de importância fundamental para se entender como foi formada a nossa paisagem construída. No Núcleo é possível afirmar que o aprendizado tem origem na família e no trabalho, uma vez que todos os imigrantes ali presentes em 1888 precisaram da casa como abrigo e como condição contratual da compra dos lotes, envolvendo-se, portanto, diretamente com a tarefa da construção da casa da família. A integração dos pedreiros da Colônia com a construção das casas foi perfeitamente lembrada por Damasio Negro que, em 1980, aos 92 anos, afirmou que "pedreiro, qualquer um era", e que todos os membros da casa trabalhavam como serventes. Esta continuidade do ofício, transmitida do pai para os filhos, contribuiu para a formação de engenheiros e arquitetos, principalmente se considerarmos os exemplos de profissionais jundiaienses, que tiveram pais empreiteiros ou ligados de alguma forma à construção. Em Jundiaí, o arquiteto Vasco Venchiarutti era filho do conhecido empreiteiro Giácomo Venchiarutti. O arquiteto Ariosto Mila, filho de Antonio Mila, também empreiteiro de obras. O arquiteto Araken Martinho, filho de Ulisses Jorge Martinho, projetistas de obras. Francisco Carlos Pereira Neto, pai do autor, foi projetista de obras, era neto de Tereza Murari, irmã de Bortolo Murari.
![]() Pedreiro Bortolo Murari
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