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Home » Vita Mia » Cem anos de Imigração » Olarias: Formas e Tijolos Originais
Para a produção de tijolos é necessário que o terreno ofereça barro ou argila e lenha. De acordo com as informações apontadas no projeto do Núcleo Colonial Barão de Jundiaí, em 1887, a região possuía inúmeras áreas de brejos e matas. Para iniciar as culturas da terra, era necessário o desmatamento de parte do lote, o que produzia farto estoque de lenha. Se no lote não houvesse barro, os tijolos vinham de olarias já constituídas, ou então os próprios colonos usavam o barro local e a lenha proveniente do desmatamento para cozer os tijolos necessários à construção da casa. O barro, retirado de cavas, era transportado em carrinhos de mão, amassado com os pés e colocado em formas de madeira "tão grandes que quebravam fácil" (Antonio Pincinato). O excesso era retirado com arco de pau e arame. Depois de secos, os tijolos eram queimados em caieiras, fornos de cavados em barrancos (Luis Chiaramonte). As olarias mais definitivas possuíam fornos de tijolos com paredes bastante grossas e coberturas de telhas. Para amassar o barro, usavam as "pipas", construídas em madeira e movidas a burros que, amarrados, andavam em círculos. A olaria Giovanni ferrazin, em 19/09/1889, na área urbana, já possuía dois fornos e três ranchos, além de duas casas de tijolos e telhas (Arquivo do Estado). Nestas olarias, o ir e vir da lenha, do barro cru ou cozido em tijolos, era realizado pelos carroceiros. Já as telhas exigiam outras condições de produção. "... precisava de barracão porque é necessário secar à sombra, senão envergava tudo"(Laurindo Ferrari). Usavam para sua modelagem formas de madeira semelhantes a uma pá redonda e comprida. O barro era colocado na superfície externa convexa dessa forma. Ou "tinham um modelo em ferro quadrado, amassavam o barro, puxavam em cima de uma forma redonda" (Simão Agostinho). Entre as olarias que faziam telhas, das quais tive conhecimento, estavam as de Balestrin, Angelo Nascimbene, Piovesan, Giovanni Ferrazin, Molinari e Amadi. Aqui vale um comentário sobre a história do uso do tijolo no Brasil e a sua relação com a multiplicação das olarias e cerâmicas. Até a segunda metade do século XIX, as construções brasileiras eram regularmente feitas em taipa. As olarias produziam as telhas, com as quais fazia-se as coberturas das construções coloniais, e ladrilhos ou lajotas para revestir pisos. Mas o tijolo não era produzido em grande escala; o tijolo se restringia à execução de fornos de olarias, ao revestimento de algumas casas urbanas e aos pórticos dos vãos de portas e janelas das casas de taipa. Nas construções da cidade de Iguape os pórticos são construídos em tijolos com formato mais semelhante a ladrilhos quadrados. Com a vinda dos imigrantes italianos, em maioria vênetos, uma nova paisagem começa a se formar. Os vênetos tinham enorme familiaridade com o tijolo. Veneza foi inteiramente construída com tijolos no século XV. "Na primeira versão da basílica de São Marcos, terminada no ano de 1073, o edifício é construído em tijolos aparentes como o Campanile de hoje" (A A nº 205, outubro de 1979). Os italianos trouxeram consigo, nas grandes levas de imigração, técnicas construtivas cuja popularização deu início à história da habitação em alvenaria de tijolos em São Paulo. Segundo observações feitas por Carlos Lemos, somente com a vinda dos italianos a Campinas é que se inicia o emprego de tijolos naquela cidade. De acordo com dados do Arquivo do Estado, mapas estatísticos confirmam o desenvolvimento expressivo de olarias em São Paulo, que passam a se multiplicar a cada ano, a partir de 1887. O núcleo de São Caetano do Sul, fundado em 1877, teve suas lavouras progressivamente abandonadas e substituídas por olarias, dando origem à famosa cerâmica industrial daquela região. CERÂMICAS Em Jundiaí, o desenvolvimento da cerâmica também não foi diferente. É necessário anotar a presença de Quinto Galavotti e de seu filho Rafaelle. Quinto pertencia a uma família de ceramistas de Sto. Arcangelo de Romagna, e aqui, já em 1888, produzia utensílios de cerâmica. Dona Julia Galavotti, oleira desde os 12 anos descreveu em seu depoimento a cerâmica da família e o processo de produção de utensílios. O barro era comprado de Luis Piovesan, que possuía olaria de telhas e tijolos no Núcleo Colonial; também poderia ser comprado do Caldaglio. Ambos possuíam cavas nas margens do Rio Jundiaí, no bairro vizinho à Ponte São João. Este barro era processado da mesma forma que nas olarias, nas "pipas", com amassadoras acionadas por burros; para atingir a plasticidade necessária, era repassado várias vezes. A fábrica de Louça Galavotti trabalhava com quatro tornos. O torno do oleiro duas rodas de madeira horizontais e paralelas, ligadas por um eixo, a roda de baixo com diâmetro de cerca de um metro, suficiente para ser acionada pelo oleiro, que, sentado, fazia girar o torno com os pés. A peça era colocada para secar à sombra e depois queimada; posteriormente era envernizada. "O verniz era preparado da seguinte forma : O Sr. Quinto selecionava determinada qualidade de areia, lavava muito e passava esta areia por diversas peneiras de trama cada vez mais fechada. Reduzia a pó em moinho manual. Isto demandava tempo e era muito cansativo. O pó era testado na unha : a textura exata era sentida no esfregar da areia entre a unha e o dedo. Esta areia moída era pesada e acrescentada quantidade proporcional de zarcão em pó. Dissolvido em água, este verniz era aplicado nas peças e voltava para esmaltar em alta temperatura" (Julia Galavotti, 82 anos em 1988). Desta sequência de produção saíam as "pinhatas", pinhatim, canequinha, alguidar, cadim e as panelas: "pinhata napoletana", baixa e larga, "pinhata toscana", panela com alças mais altas, todas em quatro tamanhos diferentes. A produção era acondicionada quando transportada em "barricão"; já as talhas e potes embalados em madeira iam por carroças ou trem para as cidades de Bragança, Atibaia, Jarinu e Capivari. Esta cerâmica não parou de produzir desde o século XIX, nem mesmo no período em que os Galavotti voltaram para a Itália, já que os Carlone mantiveram na ativa de 1905 até 1913, quando os antigos donos retornaram e a compraram de volta. A produção, por ser frágil e de uso cotidiano, não resistiu até nossos dias; fica a lembrança e a origem da formação dos oleiros que lá trabalharam e aprenderam. Entre estes destaca-se Luís Barbaro, apelidado de "Pinhatim" porque insistia em fazer as panelas menores por serem mais fáceis, e que teve também a sua própria cerâmica. Egidio e Berto Spiandorin formaram a Cerâmica Colônia que transformou-se na Ideal Standard, instalada ainda hoje na área em que se situavam os lotes rurais que pertenceram inicialmente a Buono Guarisi (nº 73), José Balsa (nº 74), Luís Piovesan (nº 75), João Chinelato (nº 62) e Angelo Casarin (nº63); em todos estes lotes havia olarias.
![]() Tijolos utilizados nas construções do Núcleo. Provenientes das olarias acima. Coleção: João Borin e Eduardo C. Pereira
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