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Home » Vita Mia » Imigração e Industrialização nos Municípios Paulistas » Capítulo I
O CAFÉ, UMA DAS ORIGENS DA ACUMULAÇÃO DE CAPITAL NO BRASIL O assunto que ora estudamos e comentamos, tem como base pesquisar as origens da industrialização no Brasil, concentrando a temática do seu trabalho na imigração italiana no contexto da economia cafeeira, porque, dentre outros, foi esta o principal centro de acumulação de capital no Brasil, após a independência. Na realidade, essa economia cresceu e aperfeiçoou-se, abrindo campos de diversificação econômica, que levaram à eclosão industrial, considerada como a última fase do período de transição capitalista. Percebe-se claramente que, da fase de economia extrativa, evoluiu a economia colonial para uma fase mercantilista, propiciada pela imigração da família Real portuguesa, no princípio do século XIX, quando o capital que provinha da mineração e da exportação de açúcar, deixou de se evadir do país e incrementou, fortemente, o mercado interno - então liberado para produzir - cujos usos e costumes se alteravam sobremaneira, com a presença da Côrte no Rio de Janeiro. O clima sócio-econômico existente nas duas primeiras décadas do século passado, mais as disponibilidades de capital representadas pela extensão territorial inapropriada e inculta e a liberação de mão-de-obra escrava, em grande quantidade, das minas que se exauriam, criavam um fundo de capital que permitiu, com facilidade e rapidez, na Baixada Fluminense e, depois, no Vale do Paraíba, a expansão da cultura de um produto, que a abertura dos portos indicou ser de futuro promissor, no comércio internacional: a do café. Paralelamente, às elevações da Colônia a Reino e deste, a um Império políticamente independente, atraíram os portugueses para a economia brasileira, com idéias ainda incipientes de industrialização, que permaneceram latentes durante todo o período inicial do ciclo econômico do café, o qual veio a tornar-se, nas duas décadas seguintes, o principal produto de exportação e, portanto, de sustentação econômica do Império que se consolidava. As transformações mais profundas dessa economia, totalmente apoiada em um sistema escravagista, começaram na metade do século XIX e, novas relações de produção se estabeleceram, refletindo no conjunto da sociedade como um todo. Surgem a partir daí, entremeando os períodos de crise, a substituição paulatina do trabalho escravo pelo assalariado, com consequente desenvolvimento do mercado interno, que acabou por evoluir, exigindo meios de transporte, mecanização do beneficiamento do café e aparição das primeiras indústrias, predecessoras da ruptura com o sistema econômico anterior. Tal evolução evidenciou, dentro de um sistema complexo de contradições sociais, as primeiras lutas econômicas provenientes da antagonização política e ideológica, dos diversos grupos de dominação, provocando um verdadeiro jogo prévio, rupturas entre a economia conservadora primário-exportadora e a liberal, desenvolvimentista e industrial, objetivamente libertária, em relação à dependência internacional. Era evidente, não existir então, um tipo determinado de industrialização porque, não havia ainda, na heterogênea sociedade capitalista nacional, um perfil determinado de demanda, eis que, os mercados de consumo interno se constituíam em polos distantes, diferenciados socialmente, que tinham diferentes "obstáculos" à evolução dessa industrialização.(9) Como problemática, considerando a industrialização em si mesma, enquanto evolução das forças produtivas como um processo social, depende da adequação a certas relações de produção capitalista. É importante considerar que elas ficam sujeitas à reprodução das relações produtivas dominantes que interdependem do desenvolvimento das relações sociais capitalistas. Sérgio Silva coloca muito bem quando conclui que "A industrialização representa essa transformação (revolucionarização) do processo de trabalho pelas relações de produção capitalistas".(10) O ciclo do café, de uma certa forma, ensejou o desenvolvimento do capitalismo na economia brasileira que, pela posterior subordinação do trabalho ao capital, em sua fase de transição, propiciou, com suas contradições próprias, o processo de criação das condições favoráveis à industrialização. Ainda que esta fase de transição, tenha ocorrido no Brasil quando o capitalismo já era dominante na economia mundial, a industrialização, apesar de lenta, acabou por tornar-se inexorável. Sofreu a dominação das relações capitalistas internacionais, às quais ficou submisso seu desenvolvimento a nível de economia nacional e da reprodução do capital que, em escala mundial, estava jungida à estrutura capitalista dominante, da qual dependia; devido à posição subordinada que ocupava. Assim, além dos "obstáculos" decorrentes da extensão territorial, da heterogeneidade sócio-econômica da população, a evolução industrial brasileira, encontrava também aqueles impostos pelos interesses capitalistas das economias dominantes.(11) Considerando que o desenvolvimento desigual é uma característica fundamental do modo de produção capitalista e, as diferentes economias nacionais são conexas por relações de subordinação-dominação, o imperialismo, "obstáculo" do desenvolvimento capitalista dos países dominados, torna-se igualmente "elemento motor" dos sistemas reprodutores interno desses países, em virtude do rítmo que impõe nos sistemas de troca, acabando por assegurar e levando ao nível da formação social, meios de desenvolvimento independentemente da sujeição econômica que causa.(12) De fato, na prática capitalista, a força de trabalho dos países desenvolvidos fica valorizada em relação à dos países em desenvolvimento ou atrasados e, ao nível do mercado, nas relações de troca, tende-se a privilegiar os primeiros por uma divisão internacional do trabalho economicamente desfavorável aos segundos e, essas relações que caracterizam a economia mundial capitalista, implicam em formas políticas e ideológicas, cuja violência se equipara à praticada nas épocas coloniais, impedindo mudanças nas formas de dominação, porque estas poriam em questão o equilíbrio vigente. Nesse quadro é que se desenvolveu a problemática de evolução da economia brasileira, do final do século XIX até a grande crise de 1929. O comércio internacional cresceu de forma sem precedentes na segunda metade do século XIX e, com ele, cresceram também as cotações internacionais do café, além do que, a utilização de navios a vapor, favoreceu o comércio de longa distância, incrementando as relações comerciais entre o Brasil, a Europa e os Estados Unidos. Além disso, o capitalismo, alcançando um estágio superior de desenvolvimento, ensejou a institucionalização de um mercado mundial, para satisfazer seu papel mais importante, representado pela dominação, mediante a exportação de capitais, numa verdadeira apropriação de produção, ao nível mundial. Daí advém a grande discussão a respeito do que se compreende por exportação de capitais, uma vez que tal fato econômico pode ser analisado do ponto de vista meramente quantitativo, ou contábil, a partir de estudos sobre os balanços de pagamentos dos vários países ou, se essa noção, referindo-se à circulação de capitais desloca a análise para a reprodução dos mesmos, do que Sérgio Silva ilustrou com um exemplo prático que ocorre com a nossa economia: o caso dos empréstimos públicos, uma das primeiras formas de exportação de capitais, dominante no Brasil, no período supra citado. (13) "O empréstimo, por definição, deve ser reembolsado com juros", isto é, resgatado por um valor maior do que aquele recebido. Ele faz então uma apreciação dos dados relativos ao serviço da dívida e aos novos empréstimos feitos pelo Brasil no último lustro do século XIX. Aparentemente a conclusão contábil, dá o Brasil como "exportador" de capitais. Essa conclusão atalha, contudo, o entendimento do desenvolvimento capitalista brasileiro, em especial das transformações capitalistas de sua economia cafeeira, onde o capital estrangeiro agiu direta e indiretamente, financiando a imigração massiva e, portanto, transmudando o sistema de trabalho de escravagista para assalariado, reorganizando esse mercado de trabalho; financiando a construção de estradas de ferro, bem como, toda a fase inical da mecanização do beneficiamento do café e, posteriormente, permitindo a implantação de serviços públicos de energia: eletricidade e gás; de comunicação: telégrafo e telefone; de transportes: terrestre e de cabotagem, constituindo-se esse conjunto, em inequívoca forma de colaborar na construção e consolidação do Estado Brasileiro. Vê-se, portanto, que ainda exportando capitais com o pagamento do juros e comissões, além do principal, o Brasil somente levou desvantagem nesse processo, se considerarmos que nos sistemas de trocas internacionais a mão-de-obra empregada na produção dos produtos primários exportados, era vítima das relações de subordinação-dominação que se impunham, através da já citada divisão internacional do trabalho, desfavorável ao desenvolvimento dos países dominados. Conquanto jamais o Brasil tivesse saido da condição de devedor, não se pode negar que o movimento desses fluxos de capital, propiciou e incentivou sua evolução até os meios de industrialização que ora apreciamos, embora, considerado o período no seu conjunto, o peso do serviço da dívida, estrangulasse financeiramente o país, apesar da liquidez de sua balança comercial. Note-se também, que o crescimento dos investimentos, foi quase sempre maior que os saldos do balanço de pagamentos, o que amplia a condição de dependência e destaca, ser o resultado líquido dos fluxos de capital, do ponto de vista da reprodução do mesmo em escala mundial, desfavorável aos países dependentes, em especial ao Brasil. O principal investidor naquele período, foi a Inglaterra, chegando em 1.900, a alcançar três vezes o valor das nossas exportações, ou, mais de dois terços do produto interno líquido brasileiro, salientando-se, por importante, a desigualdade na distribuição dos capitais ingleses na América Latina, no final do século XIX, quando 60% do que foi investido, destinaram-se ao Brasil e à Argentina. Essas desigualdades, decorrentes das características fundamentais do próprio modo de produção capitalista, explicam-se basicamente pelas especificidades do desenvolvimento das diferentes economias nacionais que compõem o capitalismo internacional.(14) Rememorando o processo hitórico do neo-capitalismo brasileiro, podemos dizer que o inventário econômico nacional aberto, em consequência dos processos evolutivos de escala internacional, deflagrados com a decadência do capital mercantil e o nascimento da revolução industrial levaram, pelas sucessivas revoltas no final do século XVIII e princípio do século XIX, ao naufrágio do sistema colonial português. Coincidentemente, a abertura dos portos e a independência política deram à burguesia comercial lusitano-brasileira e à aristocracia fundiária local, acesso ao grande comércio de importação e exportação. Dessa intensa movimentação de capitais, com consequente expansão comercial interna e externa, abriu-se a atividade cafeeira, fundada no trabalho escravo cuja expansão estava limitada pela interdição do tráfico, por leis internacionais. Ainda que o Brasil passasse a acatá-las efetivamente, a partir de 1.851, a população servil nos meados do século, já não bastava para o expansionismo pretendido, função da elevação dos preços internacionais do café. (15) Nesse período a migração de suprimento, com assalariados nacionais estava apoiada no sistema de auto-subsistência, de forma a reter o camponês na terra, recebendo pelo trabalho uma retribuição mínima, "in natura", em percentagem à produção (quer agricola, quer pastoril). Ora, tal sistema não podia constituir um verdadeiro mercado de trabalho para as plantações de café. Por outro lado, os imigrantes europeus que entraram no país nesse período, em pequena quantidade, dispersos em um isolamento quase total, no geral procurando a condição de pequenos proprietários, também não serviam como meio para suprir a crescente demanda de braços. Os pioneiros do café perceberam que a imigração massiva era o único e melhor modo de solucionar tão importante questão. No princípio, promoveram-na com financiamento do Estado, a ser reembolsado pelo trabalho futuro do próprio imigrante e seus familiares, os quais eram pagos, em função da colheita que era comprada pelo próprio fazendeiro. Tal sistema, de características similares à escravidão, entravou a imigração logo que a realidade desse "paraíso brasileiro", ficou conhecida na Europa. Premidos pelas exigências da acumulação de capital, os fazendeiros do café, reconheceram a necessidade de massificar a imigração e, nisso, foram ajudados pela crise da unificação italiana que atingiu sobretudo o "mezzogiorno". Somente após 1.870, quando o Governo da Província de São Paulo criou um organismo diretor da imigração e fixou agências em vários países europeus, é que a imigração tornou-se massiva atingindo 1.300.000 pessoas entre 1.887 e 1.897, em grande maioria, para aquela Província.(16) Ela trouxe não somente braços para o café, mas cabeças, que também serviram à nascente industrialização. Entrementes, a paulatina urbanização dos capitalistas agrários, ensejou a formação das burguesias industrial e comercial, ainda que não se possa definir uma perfeita autonomia destas últimas em relação à primeira, senão, como veremos, após a Primeira Guerra Mundial, fato que, em Jundiaí, se tornou notório. Com o deslocamento dos grandes proprietários para as cidades e principalmente para as Capitais, necessário à defesa dos interesses da economia cafeeira junto aos Governos Provinciais e Central, aos quais acabaram por comandar à distância, sob a égide de um sistema constitucional-republicano, dominantemente provincial, substituinte ao parlamentarismo monárquico; de um certo tempo em diante, se fez ressaltar a dominação das funções comerciais porque, a eles juntaram-se os imigrantes que se dedicavam à importação e comércio de produtos estrangeiros, que os capitalistas consumiam. Resultou daí uma acumulação capitalista importante ao nível de comércio, por consequência, redutora do desenvolvimento das forças produtivas de transformação, causando o nosso grande engano econômico, pois relegou o Brasil, na divisão internacional de trabalho, à posição de país exportador de produtos primários, quer agrícolas, quer minerais. A dominância comercial, no princípio sobre a economia cafeeira e, posteriormente, na economia brasileira em geral, criou a sombra da dependência que, até hoje, mantém fraco nosso sistema capitalista, segundo Sergio Silva, por não ter acompanhado desde então, o rítmo de industrialização que ocorrera no exterior. É uma questão controversa que não cabe aquí dissecar mas que encontra muitos adeptos dentre os industrialistas, críticos da forma com que se gerenciou o nosso capitalismo, enquanto patrimônio da nação. As crises de super-produção não serviram para alertar os dirigentes da economia nacional de 1.880 para cá e, a burguesia cafeeira, que segurava o timão dessa política, ao invés de entender o perigo da extrema dependência mono-exportadora insistia em salvar - apesar da oposição de todas as demais classes produtoras - os momentos econômicos de crise, com desvalorizações da moeda brasileira, para manter os volumes de exportação, mesmo que fosse à custa de corrosiva inflação interna. O insucesso dessa política no fim do século foi desastroso e, numa tentativa de estabilizar a moeda, o país que já não pagava pontualmente sequer os serviços das dívidas externas, obteve o consenso dos banqueiros internacionais para suspendê-lo por um período de 13 anos. A calmaria durou pouco porque a burguesia não mudou de atitude, porém mudou de banco e os paulistas, com a autonomia estadual, conseguida através da constituição republicana, foram buscar dinheiro para manter a política "de valorização e defesa do café" em outros bancos que não a Casa Rothschild, até então exclusiva; impondo ao conjunto do país uma política que, a partir de 1.914, mostrou-se mal fundamentada, terminando por naufragar em 1.930. O governo central, nessa época dividido, ou melhor, "repartido" entre paulistas e mineiros, com a política dos Governadores,(22) não teve forças para assegurar, paralelamente à acumulação capitalista na economia cafeeira, uma distribuição do desenvolvimento que o sistema capitalista ensejava, para o restante da sociedade brasileira. Estando "as cabras a cuidar da horta", é evidente que a burguesia cafeeira, inchada potencialmente pelo crescimento dos bancos, financeiras e casas exportadoras, na fase de ouro que se seguiu à 1a. Guerra Mundial, implantou uma dominação verdadeiramente imperialista no Brasil desta época, que se constituiu no seu estágio supremo, mas descuidou-se da valorização que o capital estrangeiro alcançava na base de nosso desenvolvimento, não lhe servindo por "obstáculo" , mas determinando contradições expressivas a um desenvolvimento nacional harmônico. É preciso avaliar com cuidado, na estruturação do sistema formado pelos capitais oriundos do café e aqueles dos investimentos estrangeiros, as bases que fundamentavam patrimonialmente esses capitais que se constituíam, respectivamente, nas propriedades fundiárias e industriais, para os primeiros e nas empresas de serviços e corretagem, para os segundos. De fato, o desenvolvimento capitalista baseado no café, tem na propriedade da terra seu fator basilar e, desde o Império, a dominação fundiária era exercida sob duas formas: a jurídica e a de posse física, das terras chamadas devolutas, que não possuíam título, ou estavam desocupadas. Essa aparente "confusão", em realidade existia, por força das relações de propriedade estabelecidas na colonização e, que se consolidavam após a independência política, com a expulsão promovida pelos burgueses pioneiros sediados nas fronteiras do café que, conseguindo "titular" terras apenas ocupadas, apropriavam-se delas, expulsavam seus posseiros, alguns deles imigrantes, uma vez que tinham a lei a seu lado. As maiores vítimas dessa violência, para qual se empregava a milícia estadual, até o exército, foram os índios, contra os quais chegou-se a empregar até a disseminação de doenças contagiosas.(23) Quem não se integrava na expansão cafeeira, ou vendia suas posses, acabava sendo engolido pelo avanço inexorável da dominação do capital. Mesmo os que aderiam, acabavam por ficar dependentes dos que dominavam o grande capital e lhes financiavam a produção e a mecanização, não fugindo portanto, o sistema, à lógica capitalista. A apropriação de terras pelo capital, primeiro pela incorporação das pequenas propriedades e depois evitando a partição das grandes glebas, se constituiam das formas de acumulação de capital e especulação imobiliária, por meio da qual se evitava o acesso da massa de ex-escravos e imigrantes a ela e, procurava-se manter a quantidade de força de trabalho, de que precisava a cultura do café. Aos poucos alguns imigrantes conseguiram participar dessa dominação. De modo geral, quando o capitalismo já está implantado, a terra perde importância como meio de produção e o evento da separação, entre o trabalhador e os meios de produção, passa a depender menos do fato de possuí-la, de tal forma que, a acessibilidade às terras, fica subordinada à "disponibilidade" de capital. Dentro desse regime de desenvolvimento, de caráter extensivo e monocultural, o desenvolvimento do capital, a nível de produção, torna-se fraco, ainda que a disponibilidade relativa das terras seja, em si mesma, um elemento determinante das formas do desenvolvimento do capital.(24) Conquanto não se possa comparar o Brasil com a Europa, sob esta ótica, na transição da produção agrícola colonial e feudal para a capitalista, convém lembrar que a extensão territorial brasileira era limitada "socialmente" , uma vez que o capital, "concentrava" suas atividades em um espaço delimitado pelas relações sociais de produção, base física do estabelecimento da nação. A enteléquia do sistema, regula automaticamente a expansão e, só amplia essa base física, sob a égide direta do mercado interno de disponibilidade de capital que, por sua vez, é comandada no seu interesse expansionista, pela demanda no mercado externo, de onde parte, portanto, a divisão nacional do trabalho. A expansão do espaço, sobre o qual se desenvolve a produção capitalista, está sujeita à transformação do capitalismo e da constituição da economia mundial capitalista, "criando" a abundância de terras, quer no Brasil ou alhures, onde o capital internacional está "investido" pela demanda. Vê-se, portanto, que mesmo sem possuir juridicamente as terras, mas apenas provocando acumulação de capital, pelo desenvolvimento extensivo da produção, as transformações capitalistas da economia mundial participam e podem "deformar" a disponibilidade de terras, podendo até gerar o subdesenvolvimento. É notório esse fato, quando se observa que a acumulação de capital gerada no Brasil foi negligenciada, apesar das crises do café que, deveriam ter alertado a elite financeira nacional, a qual não dirigiu este capital, ou as suas sobras, para o âmbito industrial e, daí ao fim do século, criaram-se apenas cerca de 600 empresas industriais ocupando perto de 54.000 operários, atividade inexpressiva em relação à do café.(25) Poucos brasileiros tiveram a visão de Mauá que, arguto observador dos empreendimentos europeus, tentou após sua viagem à Europa em 1.850, os mais diversos empreendimentos, ainda que muitas vezes socorrido por capitais ingleses. De 1.847 a 1.874, agitou a sociedade econômica brasileira com inúmeras grandes iniciativas, do Rio Grande do Sul ao Amazonas e, mesmo até, no Uruguai. (26) Sua falência em 1.878, demonstra o que foi dito no parágrafo anterior. Somente após 1.907, é que o crescimento industrial realmente passou a absorver - mediante as transformações econômicas e sociais havidas no país, em particular na região cafeeira, onde a imigração foi massiva - a acumulação de capital originária dessa economia.(27) Ainda que tardiamente, pela gestação de novas formas de acumulação de capital, baseadas no trabalho assalariado, tornou-se evidente, historicamente, que foi a acumulação de capital oriunda da economia cafeeira capitalista, a introdutora do Brasil, na economia mundial capitalista, pela industrialização emergente. Para examinar o desenvolvimento industrial, é necessário analisar as características das origens e do início do ciclo, antes da sua evolução propriamente dita. Foi nas últimas décadas do século XIX, que a agricultura, atividade dominante, por meio da acumulação de capital e das transformações das relações de produção, gerou os determinantes de um novo período, cujas características tendiam à inovação, desligando-se daqueles, onde a acumulação se apoiou no trabalho escravo.(28) Essa nascente industrialização se compunha do tripé: artesanato, manufatura e fábrica, unidades de produçao essenciais à evolução do sistema capitalista. Função do número de trabalhadores que congregam as duas últimas, distingue-se do artesanato pelo maior número onde, o proprietário, não se ocupando mais diretamente da produção, independe de seu trabalho, a subsistência e expansão da empresa. Saliente-se, que a fábrica distingue-se da manufatura, pela importância do seu capital, direcionado a uma mecanização, de organização técnica no trabalho, mais sofisticada. Esta última, é portanto, a unidade de produção tipicamente capitalista e, por consequência, a manufatura, seria uma forma de transição desse sistema, adotada pelos imigrantes pelas razões expostas. Ainda que os dados disponíveis dificultem uma análise sadia, foi necessário desagregá-los, dentro de um critério de distinção, como o acima proposto, para se formar um conceito mais real da evolução industrial no Rio de Janeiro e em São Paulo. Os primeiros dados mais substanciais provém, do ano de 1.907 e, nas tabelas montadas por Sérgio Silva com dados oriundos do Centro Industrial do Brasil, percebe-se que, muitas pequenas atividades, escaparam ao registro e também que, grandes empresas com mais de 100 operários, com capital acima de 1.000 contos, representavam, em média, entre 70% e 85% do capital investido e 60 a 80% do número de operários empregados. O autor, reconhecendo a falibilidade dos dados coletados, organiza outros, relativos ao ano de 1.920 e, tecendo hipóteses que procuram reduzir as consequências dessas falhas, tenta colocar conclusões realmente aceitáveis, dentre as quais se refere ã importância das empresas com 100 ou mais operários e 1.000 ou mais contos de réis de capital, afirmando que elas caracterizam, verdadeiramente, a indústria nascente no Brasil.(29)
(9) FURTADO, Celso. Um projeto para o Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Saga, l.969. p. 37-58. (10) SILVA, Sergio. Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. 7 ed.. São Paulo, Ed. Alfa-Omega, 1.986. 14 p. (11) Os conceitos e apreciações em torno de subordinação, transição e obstáculos, estão fundamentados nos trabalhos de Charles Bettelheim : La transition vers l'économie socialiste, Paris, Maspero, l.968. p. 9-27 e l53-l74; e, Remarques théoriques, in Arghiri Emmanuel, L'échange inégal, Paris, Maspero, 1.969. p. 314-318. (12) SILVA, op. cit., 20 p. (13) SILVA, op. cit., p. 27 - 32. (14) BUESCU, Mircea. História econômica do Brasil - Pesquisas e análises. Rio de Janeiro, APEC, 1.970. 284 p. (15) FURTADO, Celso. Formação econômica do Brasil. 21 ed.. São Paulo, Cia. Edit. Nacional, l.986. p. 93 - 98. (16) CENNI, Franco. Italianos no Brasil. São Paulo, Liv. Martins Editora, 1.958. p. 159-164. (22) SODRÉ, Nelson Werneck. Formação Histórica do Brasil. 3 ed.. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1.963. 306 p. (23) MOMBEIG, Pierre. Pionners et planteurs de São Paulo. Paris, Armand Colin, 1.952. p. 112-116. (24) SILVA, Sergio. op. cit. p. 65-68. (25) SIMONSEN, Roberto C.. Evolução Industrial do Brasil e outros estudos. São Paulo, Cia. Edit. Nacional e Edit. da U.S.P., 1.973. 16 p. (26) FIGUEIRA DE AGUIAR, Porphirio Netto. Visconde de Mauá. In: Grandes Personagens da nossa História. São Paulo, ed. Victor Civita, 1.969. 2 v., p. 461-478. (27) IANNI, Octávio. O colapso do populismo no Brasil. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira, 1.968. 34 p. (28) SILVA, Sergio. op. cit. 75 p. (29) ibid. op. cit., p. 77-85.
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