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Home » Vita Mia » Imigração e Industrialização nos Municípios Paulistas » Capítulo II
A ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA E A IMIGRAÇÃO As leis abolicionistas, entre 1.860 e 1.888, não eram resolutivas, por razões ideológicas dos próprios alforriados, que não se dispunham facilmente aceitar serem despossuídos de todo meio de produção, pelo aviltamento do valor de sua força de trabalho, preferindo às vezes até, a miséria da mendicidade, já que a mentalidade pré-capitalista se fundamentava ainda na reprodução do capital sob coação e violência. A extensão territorial e o abandono de propriedades distantes, facilitavam o escapismo dos ex-escravos ao trabalho assalariado que, alternativamente, preferiam exercê-lo nas cidades desenvolvidas, não se submetendo à disciplina própria à produção capitalista. Muitos autores concordam que a abolição progressiva foi a contradição que transmudou a economia, de colonial para capitalista, sob um novo aspecto de dominação e provocou uma modificação importante na forma de produção alcançada, muito mais por medidas políticas, do que econômicas.(17) Por retardar o desenvolvimento do capitalismo, aos poucos, as classes dominantes, perceberam a necessidade de encontrar um meio de contornar a estagnação da própria acumulação de capital. Todos gritavam contra a indolência e a preguiça dos libertados ou dos livres, mas, aos poucos, alcançaram o consenso da melhor solução, para reconstruir os meios de sua dominação econômica. Justamente nesse período, anterior à massificaçáo imigratória, é que a produção cafeeira, abandonando o Vale do Paraíba, adentrou o Planalto Paulista. Melhor fundamentada no trabalho assalariado que no escravo e, auxiliada pela mecanização do beneficiamento, melhorou a qualidade de seu café, emulando a construção de estradas-de- ferro para baratear seu transporte. Tais fatores, aumentaram o lucro e a competitividade do café paulista, provocando também, o deslocamento para o porto de Santos do grosso da exportação e, acabando por atrair para São Paulo, o sistema de financiamento e comercialização do produto. Após a massificação da imigração, que teve como um dos idealizadores o Conde de Parnaíba, cuja família, Queiroz Telles, dominava toda a região de Jundiaí a Mogi-Mirim (18), os contratos de trabalho anuais, praticamente, obedeceram a um padrão que previa um salário base proporcional ao número de cafeeiros atribuídos, em função do número de braços ativos das famílias, com a obrigação de participação no beneficiamento, ensacamento e transporte da produção, onde se destinava um prêmio de acordo com a colheita obtida, além do que, era concedido ao trabalhador o cultivo próprio de determinada área, dos meios de subsistência, que alternativamente era concedida, nas faixas de intercalação do cafezal. Essa alternativa era preferida pelos imigrantes, principalmente nos cafezais novos, por conjugar e facilitar o seu trabalho. Progressivamente, porém, a intercalação foi sendo abandonada à medida em que o café envelhecia e, as novas terras da zona pioneira, não se mostravam férteis à cultura de subsistência. Muito mais por outras razões, os fazendeiros interditaram a intercalação, como meio de aumentar a rentabilidade da cultura do café, às custas dos trabalhadores, pois, a cultura de subsistência muitas vezes, havia-se tornado em meio de independência destes que, vendendo seus excedentes, acabavam por se emancipar como pequenos proprietários, do que veremos alguns exemplos. Isto começou a tornar-se sério problema, à medida que os imigrantes se deslocavam, procurando melhores condições de sobrevivência e evolução, ou mesmo, procuravam trabalho nas cidades e até imigravam, principalmente para a Argentina, chegando alguns a retornarem à Europa.(19) Apesar da pequena importância, não se pode deixar de apreciar o que representou a migração de brasileiros, em função do fenômeno café e do desenvolvimento das relações capitalistas que ele ensejou no sul do país. Pierre Dennis observou que nos últimos decênios do século XIX, esse contingente representava menos de 6 % da mão-de-obra importada, somente superando essa proporção, no segundo decênio deste século, passando a ser representativa após a primeira conflagração mundial, até a grande crise de 1.929. A libertação dessa mão-de-obra cativa, ao sistema latifundiário do centro e do nordeste do país, teve como grande auxiliar, segundo Sergio Silva, as estradas de ferro que atingiram Minas Gerais e Bahia e como principal escopo, por parte dos fazendeiros, baixar os salários agrícolas, permitindo-lhes maior reprodução de seu capital e competitividade no mercado internacional, onde as coisas para o Brasil, já não andavam bem. As lutas contra a exploração, relatadas por Pierre Monbeig, à qual eram submetidos os imigrantes e os nacionais, principiaram na primeira década deste século e recrudesceram, após a Primeira Guerra, em consequência da repressão exercida por todos os meios, em geral violenta e contrária ao direito de associação. Esse clima incentivou ainda mais a mecanização do beneficiamento que, iniciada com as secadeiras mecânicas na década de 70, atingiram um estágio industrial e, às vezes cooperativo, no século atual. Dois motivos justificaram tão grandes investimentos, quais sejam, reduzir as dificuldades com a mão-de-obra e melhorar a qualidade do produto final, alcançando com isso, melhores preços e mercados. As estradas de ferro, que há pouco referimos terem servido como meio e incentivo à migração interna, foram consequência e importante fator da transformação econômica do modo de produção capitalista, que o ciclo do café representou na transformação de nossa economia. À medida que o café se alastrava, as distâncias aumentavam juntamente com as dificuldades de seu transporte, tornando-se "obstáculo" cuja superação era condição "sine qua non" do desenvolvimento do sistema . Empreendedores ligados aos capitais ingleses, dentre os quais se destacou Irineu Evangelista de Souza, Barão e Visconde do Mauá, implantaram as estradas de ferro a partir da Baixada Fluminense em direção a São Paulo pelo Vale do Paraíba e, posteriormente ligando São Paulo a Santos e o Rio a Minas. Além da São Paulo Railway ligando Jundiaí a São Paulo e a Santos, concluida em 1.867 e custeada por capitais ingleses, fundaram os paulistas, com o concurso de muitos jundiaienses, a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, cujo primeiro trecho ligando Jundiaí a Campinas foi inaugurado por D. Pedro II em 1.872. Não se parou por aí, em 1.870, por meio da Companhia Ytuana de Estrada de Ferro, Jundiaí ligava-se a Itú . O Conde de Parnaiba foi o organizador da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro e seu primeiro presidente (1.873/1.886), cujo trecho inicial entre Campinas e Mogi Mirim foi inaugurado com a presença da D. Pedro II em abril de 1.875. Em 1.876, a partir do Distrito de Campo Limpo, unia-se Jundiaí a Bragança por meio da Estrada de Ferro Bragança, (1.884), segundo o Engo. Ayrosa Galvão em seu artigo "Jundiaí, importante centro ferroviário", in "O Popular" de dezembro de 1.934 . Tornava-se assim, a Vila, que havia sido elevada a Cidade em 1.865, em importante entroncamento ferroviário. Entre 1.854 e 1.860, o complexo ferroviário brasileiro, praticamente era dominado pelos ingleses, tendo sido organizadas, a partir daí, pelos próprios grandes fazendeiros, a Paulista, a Sorocabana e a Mogiana, associadas a uma infinidade de outras pequenas empresas (ramais e interligações) cobrindo até 1.910, mais de 3.000 Km de linhas, onde o café se instalara, lançando bases que sedimentaram suas incursões pioneiras no interior distante.(20) Era tal a importância das estradas de ferro para a economia cafeeira que até 1.939, principalmente para serví-la, já haviam mais de 18.000 Km de redes, dos 32.000 Km instalados em todo o país. É que tal sistema, além de propiciar reinvestimento do capital obtido no café, propiciava uma economia que chegou em 1.868 a mais de 10 % do valor bruto da exportação de café e, representava no produto interno bruto do país, importante item econômico.(21) E não era só na atividade de transporte que o expansionismo desse modo de produção capitalista se manifestou, mas sim, nos empreendimentos industriais, de início, alimentadores de produtos que serviam à mecanização agrícola, como também na formação de empresas de cabotagem fluvial e marítima, Comissárias de Importação e Exportação, financiadoras da produção agro-industrial e, finalmente, nas primeiras grandes casas bancárias. Como já dissemos anteriormente, nos braços do imigrante europeu, apoiou-se a evolução cafeeira, mas foi da cabeça de parte desses imigrantes, que se formou o embrião do desenvolvimento industrial. Bresser Pereira, estudando as origens étnicas do empresariado paulista, conclui que 84 % dos empresários de São Paulo eram estrangeiros, ou deles oriundos, o mesmo ocorrendo no Rio de Janeiro, antigo Distrito Federal, conforme dados do Recenseamento de 1.920.(30) Esse fato, manteve por muito tempo como válida, a tese da origem modesta e trabalhadora da burguesia industrial brasileira, considerando vários de seus componentes verdadeiros "self made man", que chegaram ao Brasil quase sem nada e constituíram fortunas, através de duro e constante trabalho. Sem dúvida que na maior parte dos casos, as circunstâncias foram estas, mas os homens não eram bem esses e, a conjuntura que os favoreceu foi muito especial. Esses líderes, inseridos na massa migratória, na maioria burgueses com alguma instrução ou experiência técnica agrícola, de comércio, artesanal ou de manufatura. Ademais, a maioria deles permaneceu relacionada com produtores e comerciantes dos países de sua origem, o que lhes facilitou, após amealhar algum capital, trabalhando duro aqui no Brasil, dirigir suas atividades para a importação de produtos europeus, sua distribuição no território nacional. Posteriormente, pelo relacionamento que mantinham com a burguesia comercial brasileira, escolheram o âmbito e a oportunidade propícios, para instalar suas manufaturas, que, acabavam por se ampliar atraindo e utilizando capitais estrangeiros, daqueles que financiavam suas atividades de importadores e ou, capitais nacionais da burguesia, com a qual mantinham relações de mútuo interesse. Por outro lado, em função da evolução do mercado nacional, uma série de empresas são criadas em auxílio ao conjunto do sistema de importação, dada a dificuldade de importar certos produtos perecíveis e, a industrialização resultante da reprodução desses produtos, com o receituário e insumos básicos estrangeiros, ocupa importante papel na diversificação do meio industrial que se criava e evoluía. Sabemos todos que a origem dos grandes capitalistas do século passado, no Rio de Janeiro, eram de ingleses, franceses e portugueses que, segundo Manuel Diégues Júnior e Helio Vianna, vieram com a Família Real ou até após a Independência. Esses elementos, constituíram a elite e os nobres da Côrte Imperial Brasileira e, foram os primeiros a dar passos em direção à industrialização, fomentada por D. João VI e, posteriormente, retomada por D. Pedro II. O Brasil atraiu também capitalistas de outros países europeus como a França, a Inglaterra e a Holanda, durante o segundo Império e, mesmo esse tipo de imigração, mais seletiva, estendeu-se para outras nacionalidades do centro europeu e do Oriente Médio, no final do Segundo Império e durante as primeiras três décadas da República. Foi justamente essa burguesia imigrante, que se enriquecendo no comércio, na pequena indústria e na importação, veio a constituir a burguesia industrial nascente que se aliou à grande burguesia do café, de cujas necessidades, resultara o ideário imigratório massivo. Dispondo do controle do grande capital comercial, esses imigrantes inseriram-se entre os importadores e aliaram-se a eles nas atividades complementares e paralelas que, constituíram a origem das empresas industriais por eles fundadas ou, das pequenas empresas, cujo controle assumiam, em função da disponibilidade de capitais próprios ou a eles acessíveis. Dentre muitos, Matarazzo, Pereira Ignácio, Jafet, Crespi, Diederichesen e Simonsen, bem sucedidos industriais, que se iniciaram como importadores e Antonio Prado como exemplo de pioneiro da expansão do café que, também tornou-se pioneiro da indústria.(31) É evidente que o estabelecimento de laços familiares entre a grande burguesia do café e aquela industrial, nascente, levou à fusão de capitais e facilitou a expansão industrial excepcional ocorrida no início do século. Por outro lado, esse desenvolvimento, além de contar com a simpatia da massa dos imigrantes, devido à constante presença de empreendedores imigrantes na direção das empresas industriais, oferecia àqueles que queriam deixar a lavoura pela cidade, notável oportunidade, constituindo-se por isso, a massa dos operários em São Paulo e no Rio de Janeiro, de imigrantes respectivamente italianos e portugueses ou seus oriundos. O crescimento urbano, principalmente no Estado de São Paulo, foi verdadeiramente explosivo entre 1.870 e 1.920, crescendo na ordem de 7.393 % nas cidades, contra um crescimento geral de 448 % em todo Estado, ocorrendo fato análogo com o Rio de Janeiro.(32) Com isso cresceu vertiginosamente a produção de energia, e, num verdadeiro moto contínuo, gerou maior demanda no mercado interno, sucessivamente. A grande questão que se coloca, é aquela relativa à subordinação da industrialização à economia cafeeira, de forma linear positiva, tese com a qual não concordam alguns autores como Baer e Dean, que aceitam faça a indústria parte de um desenvolvimento, cujo centro é constituído pela economia cafeeira, mas esta, como elemento dominante no conjunto capitalista, leva àquela, como repercussão, reflexos positivos e negativos, dado que ambas compõem a unidade de um processo capitalista, onde a dissociação de efeitos econômicos não é possível. Mello, Cano e Silva concordam que o que não existe, realmente, é a hipótese do enfraquecimento da evolução industrial como consequência subordinativa dos efeitos econômicos causados pelas crises cafeeiras, dos setores de comércio e importação, componentes da maior parte das atividades capitalistas da nossa economia.(33) E como se colocou o imigrante ao viver essa realidade em um país desconhecido? O imigrante italiano, de acordo com muitos autores e Relatórios Gover-namentais confiáveis,(34) de modo geral, era originário das regiões norte e sul da península, constiuindo-se os da primeira na maioria, de artífices e até técnicos e, os da segunda, em camponeses. De uma certa forma, suas origens influíram no seu comportamento em relação à sociedade que os acolhera. Os do norte, assim que amealhavam algum capital, procuravam adquirir sua própria terra ou, urbanizavam-se, na tentaviva de progredir por meio de suas profissões de origem, montando pequenas indústrias ou, prestando serviços, enquanto que, os do "mezzogiorno" procuravam, permanecer e evoluir nas atividades agrícolas.(35) É evidente que, estes últimos, sofrendo a pressão dos latifúndios e da insuficiência de capital, ao tornarem-se produtores rurais, ou deslocavam-se para as fronteiras pioneiras do café, ou adquiriam pequenas propriedades próximas às cidades, desenvolvendo culturas diversificadas ou a criação intensiva, com produção de laticínios e derivados de carnes, dedicando-se também à produção de tijolos e telhas. Estatísticas formuladas pela Secretaria da Agricultura atestam que de 1.901 para 1.906, os proprietários agrícolas italianos cresceram de 1.057 para 5.197 (36), alcançando em 1.920, 11.825 propriedades (37) no Estado de São Paulo. Jundiaí beneficiou-se de ambos os comportamentos desses imigrantes que se emancipavam, desenvolvendo-se então no seu entorno territorial a policultura, entremeando as fazendas de café e, na cidade, as atividades de serviço e as industriais, isto devido a que, a partir de 1.910, praticamente não se ampliou a cultura do café, apenas a sua produtividade cresceu de 40 para 51 arrobas por mil pés, de 1.911 a 1.920, dado o encontro de melhores terras a noroeste.(38) Colaboraram para que Jundiaí acompanhasse a expressiva evolução industrial, ocorrida no período de ante e pós o primeiro conflito mundial, dois fatores de grande importância: primeiro a instalação de usinas hidroelétricas, a primeira em l.903 no Distrito de Itupeva (300 HP), seguida das usinas de Monte Serrat e Quilombo em l.9l0 (2.400 HP), reforçadas em l.920 com energia da S. Paulo Light produzida em Santana do Parnaíba (2.000 Kw) (39). Depois, a instituição pelo Governo Federal das alíquotas de importação cada vez mais elevadas no período - pois se constituiam da melhor fonte de renda do país - que cresceram durante o mesmo de 25% para 60% (40), emulando as atividades industriais dirigidas para a produção de similares nacionais e, ensejando até, o mascaramento dos produtos com a imitação do estrangeiro, pela falsificação dos rótulos ou reutilização de suas embalagens, numa verdadeira espécie de contrabando ao revés, objetivando maior lucro, à custa do preconceito social que reinava então (41) É interessante notar também, que não foi só na indústria que a iniciativa do migrante italiano em Jundiaí alcançou grandes proporções. Geremia Lunardelli, o "rei do café", adquiriu o seu primeiro sítio nas terras de Jundiaí (Morro do Mursa - Bairro do Moinho) onde tentou, sem muito sucesso, a cultura da cebola e, posteriormente, a compra e venda de animais, na qual foi bem sucedido. "A partir deste pequeno empreendimento, construíu, baseado na cultura do café, nas regiões de Ribeirão Preto e Olímpia, um verdadeiro império, cujo lema era Trabalho e Honra". (42) Outra atividade importante originária do trabalho dos imigrantes italianos e que também colaborou diretamente na industrialização foi a viticultura. Ainda que, pelo testamento de Rafael de Oliveira , (43) discutido fundador da Villa de Jundiahy, constasse entre os bens possuídos: "parreiras em sítio localizado nas paragens do Jaraguá"; dois séculos se passaram para se ter referências ducumentais a respeito da viticultura: "a cultura da vinha vai se desenvolvendo no município, contando-se já algumas pequenas propriedades agrícolas dedicadas exclusivamente a este gênero de lavoura. Já se tem ensaiado com optimo resultado a fabricação de vinho".(44) Os portugueses praticaram a viticultura utilizando-se de uvas de suas velhas castas trazidas pelos colonos desde Martin Afonso, mas foram os italianos, ao final do século XIX que tornaram a viticultura uma atividade econômica, de exploração industrial, distiguindo-se Bráulio Thimoteo Urioste e seus tirolêses italianos que implantaram enorme vinhedo na Água Branca em São Paulo .(45) É mais uma influência da côrte, cujo intercâmbio com Jundiaí se avolumou em função dos negócios da exportação cafeeira, decididamente fomentados pela implantação da ferrovia, que a tornou diretamente acessível e influenciável aos costumes de São Paulo e da capital do Império, via Santos. É notório que se distinga Jundiaí, como produtor de vinho, somente a partir do Relatório de 1.877 da Comissão de Estatística da Província eis que, no ano anterior, este, citando uma produção provincial de vinho de 1 milhão e 260 mil litros, não incluia Jundiaí como produtor. Disso pode-se concluir, sem presunções, que a instalação do Núcleo Colonial Barão de Jundiaí em 1.886, foi o marco inicial dessa atividade que veio a tornar Jundiaí o maior centro viti-vinícola paulista do século XX. Novamente, despontam imigrantes italianos como Giuseppe Rossi, Arthur De Vecchi e Hermes Traldi, pioneiros da nascente indústria vinícola, aos quais se seguiram os Rossi (pais do Cardeal), os Nuncio, os Castiglioni e mais tarde os De Fava, os Fontebasso, os Borin, os Azoni e os Cassatela. Não foram apenas empreendedores ou introdutores, mas, segundo Hilario Caniato, eméritos pesquisadores da viticultura, como Antonio e Roberto Carbonari, este enxertando a "Niagara Branca" sobre pés de "Isabel", obteve uma variedade resistente e muito produtiva que rapidamente se difundiu, surgindo posteriormente a "Niagara Rosada" que conquistou o mercado nacional, a partir de 1939, quando Jundiaí ficou conhecida como "Terra da Uva".(46) Foi em 1934, sob a presidência do intendente Dr. Antenor Soares Gandra que se fez a 1a. Exposição Viti-vinícola e de Frutas do Estado de São Paulo, evento inédito no Brasil. Em 1938 o Prefeito "oriundo" Thomaz Pivetta, hoje ainda vivo, com 89 anos ( filho de Giovanni Pivetta, * Portograro - Província de Venezia - imigrado em 1 888) transformou o antigo Largo do Rocio em um aprazível local, então denominado de "Largo de Santa Cruz", hoje "Praça da Bandeira", para a 2a. festa, com igual sucesso e, a uva Jundiaiense invadiu o mercado carioca, fato facilitado pelo então ministro Fernando Costa, que depois ocupou o governo paulista como Interventor. Para se ter uma idéia do desenvolvimento havido nessa atividade, os muitos Relatórios Oficiais citam: 1.913 - 500 mil pés de uva 1.933 - 5 milhões de pés de uva 1.950 - 14 milhões de pés de uva, do que André Villani(47) e outros dão o seguinte testemunho: "1.944 - 15 milhões de pés de uva, com uma produção total de 12 milhões de kg e ainda a vinificação de 2.600.000 kg que produziram 4.350.000 litros de vinho." Paralelamente, na segunda década do século, o parque industrial de Jundiaí, reforçado com a acumulação de capital proveniente do café, da cana-de-açúcar, do algodão e da uva, expandiu-se de forma notória com a instalação, não só das indústrias de bebidas, pinga, vinho e refrigerantes, como também, na fiação e tecelagem de algodão e sêda (Bombix Mori), e ainda na cerâmica e porcelana doméstica. Neste último ramo destacaram-se a Cia. Cerâmica Jundiaiense (hoje DECA), a Cerâmica Colônia (hoje Ideal Standard), a Porcelana São Pedro, a Cia. Cerâmica Dante Marchioni - CIDAMAR, (atual INCEPA), a Cerâmica Santa Josefina (hoje Indústrias Francisco Pozzani) e outras. Agregavam-se os condicionantes sucetíveis de transformar Jundiaí em um polo de atração, assunto que foi objeto de palestra proferida por meu pai, Roberto Franco Bueno, sob o tema "Urbanismo e planejamento regional" em 1.974 nas Faculdades de Direito de Itú e Jundiaí. Ressaltou ele que, em decorrência da Revolução Constitucionalista, Jundiaí, por ser centro estratégico de suprimentos militares, tornou-se conhecida dos nordestinos (invasores). Estes tomaram consciência do padrão de vida e da potencialidade econômica da região , o que os atraiu e os levou a incentivar junto a parentes e conterrâneos, a migração, que não mais arrefeceu, trazendo mão-de-obra barata para os empreendimentos que se instalavam, muitos liderados por italianos e seus descendentes. Sobreveio a II Guerra Mundial e Jundiaí sofre com a perseguição aos imigrantes italianos e seus familiares, dado que, muitos deles, haviam se tornado ideologicamente favoráveis ao fascismo Italiano, regime que levara aquele país a condições de excepcional progresso. Em verdade, não se conhece em Jundiaí a constituição de qualquer movimento com sério intuito de tentar implementar tal ideologia em nosso país, mas, a situação de discriminação com que ainda eram tratados os imigrantes italianos e seus descendentes, pela aristocracia paulista, levou a extremos indesejáveis. Contudo essa gente não ficou a se lamentar, o município permaneceu progredindo e mesmo até, tirando algumas vantagens econômicas das dificuldades que, uma conflagração mundial como aquela, ensejava. Villani (48) relaciona seu parque Industrial como o quarto do Estado com 444 estabelecimentos em 1.952; com um capital empregado nas indústrias que ultrapassa os 200 milhões de cruzeiros, onde, perto de 15.000 operários, empregam suas atividades. O município tinha uma população de 70.000 habitantes e seu território a superfície de 750 km2. A urbanização da população evidenciava-se a cada ano, aliciando a formação de uma burguesia industrial em Jundiaí. No contexto brasileiro do pós-guerra, a partir de 1.940, o êxodo rural, as migrações e outros fenômenos demográficos levaram a uma urbanização excessiva da população. Segundo o censo de 1.940, a grosso modo, 70% da população brasileira vivia no campo e 30% nas cidades. Essa situação transmudou-se drásticamente e em 1.970, os parâmetros já eram inversos: 30% da população era campesina e 70% urbana. De fato, na década de 1.950/60, para um crescimento total "pouco superior a 3%, a população rural crescia apenas 1,6% ao ano, enquanto a população urbana se expandia a uma taxa anual de 5,4%".(49) Em Jundiaí, contudo, o crescimento urbano do pós-guerra não esvasiou a zona rural, mas cresceu com novos contingentes de imigrantes atraídos pela industrialização (técnicos e artífices) e migrantes nacionais (operários). (50) Por outro lado, é importante salientar a influência dos desequilíbrios regionais, eis que, enquanto em outras regiões do país a acumulação de capital proveniente das atividades agrícolas e pastorís revertiam em grande parte para os mesmos setores, isto não ocorria na região centro-sul do país, em toda a metade do século XX. Nessa região, o esforço de industrialização derivava da acumulação de capital, liderada pela produção cafeeira e pela agricultura extensiva em geral, bem como, a pecuária, sendo "legítimo admitir que grande parte da renda dos proprietários de terra tem afluido para o setor não agrícola" (51) . Isto ocorreu a partir dos anos 30 e, com maior agudeza, até os anos 50, portanto, antes e após a II Guerra Mundial. "A industrialização do pós-guerra tendeu a acentuar os desequilíbrios regionais".(52) Teoricamente, Hicks retratou as circustâncias responsáveis por tais desequilíbrios e pela citada migração, que eclodem em regiões de um país:"...zonas determinadas de um país em que a riqueza pode se expandir mais facilmente são caracterizadas por vantagens geográficas, pela proximidade de jazidas minerais ou fontes de energia, ou de áreas particularmente adequadas a certas lavouras especializadas; além disso, podem dispor de boas condições naturais de comunicação, de tal modo que, embora estejam distantes suas fontes de abastecimento, podem ser supridas facilmente por muitas fontes".(53) No próximo capítulo veremos como isto aconteceu e qual a influência dos imigrantes italianos nesse contexto.
(17) Cf. Celso Furtado, op. cit., p. 162-167. (18) TAUNAY, Afonso d'Escragnolles. História do café no Brasil. Rio de Janeiro, Departamento Nacional do Café, l.939-l.943. 4 v.,411 p. (19) STOLCKE, Verena. Cafeicultura, homens mulheres e capital (l.850-l.980). São Paulo, Ed. Brasiliense, 1.986. p. 78-94. (20) TAUNAY, Op. cit., 4 v., p. 391-413. (21) Ibid., op. cit., p. 405-406. (30) PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Origens étnicas do empresariado paulista. In: Revista de Administração de Empresas. São Paulo, jun/1.964. p. 24-25. (31) DEAN, Warren. A industrialização de S. Paulo (1.880 - 1.945). Trad. Octávio Mendes Cajado, 3 ed. São Paulo - Rio de Janeiro, Ed. DIFEL, 1.971. p. 75-88. (32) ALESSIO, Nancy. Urbanização, industrialização e estrutura ocupacional. In: Dados n 7, 1.970. 47 p. (33) SUZIGAN, Wilson. Indústria brasileira, origem desenvolvimento. São Paulo, Ed. Brasiliense, 1.986. p. 34-35. (34) "ANNUARIO DELL'IMMIGRAZIONE ITALIANA" - "STATISTICA p. Filippo Vergilli". Italianos no Brasil, CENNI, Franco. op. cit. p. l72 - 173. (35) CENNI, Franco. op. cit. p. 182 - 183. (36) ANUÁRIO ESTATÍSTICO DO E. DE SÃO PAULO e CENSO DE 1.907. In: Estatística da Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. (37) Censo de 1.920. (38) EGAS, Eugênio. op. cit., 1.013 p. (39) LUTZ, W. R. Marinho. A energia elétrica em Jundiaí. Palestra em 02.06.60. In: Álbum Histórico e Documentário de Jundiaí (l.865-l.965). Jundiaí, 1.965. 28 p. (40) MELLO, Afonso de Toledo Bandeira de. Politique Commerciale du Brésil. Rio de Janeiro, 1.935. 79 p. (41) DEAN, Warren. op. cit., 17 p. (42) CENNI, Franco. Italianos no Brasil. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1.958. p. 178 - 179. (43) Arquivo do Estado: Inventários e Testamentos. v. 3, 305 p. (44) RELATÓRIO ANUAL DA COMISSÃO CENTRAL DE ESTATÍSCA DA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO. Tomo 21, 405 p. (45) INGLEZ de SOUSA, J. S.. A Viticultura Paulista no SéculoXIX. In: O Estado de São Paulo. São Paulo, n 22 e 28, jul/1.948. (46) INGLEZ DE SOUSA, J. S.. Sinopse da agricultura em Jundiaí. Jundiaí, Soc. Viti-Vinícola e Rural de Jundiaí, 1.955. p. 25 - 29. (47) VILLANI, André; VILLANI, J. & GRAPELLA, José. Jundiaí - Produção Agrícola e Industrial . Jundiaí, Ed. p/ Atlas dos Municípios Ltda., 1 952. 9 p. (48) Ibid., op. cit., 10 p. (49) BAER, Werner. A industrialização e o desenvolvimento econômico no Brasil. São Paulo, Ed. da Fund. Getulio Vargas, S. Paulo. 1.979. 135 p. (50) CENNI, Franco. op. cit., p. 408 - 409. (51) BAER, Werner. op. cit., 144 p. (52) Ibid., op. cit., 144 p. (53) HICKS, J. R.. Essays in World Economics. Oxford, at Clarendon Press, 1 959. 163 p.
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