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VITA MIA
A Emancipação dos Imigrantes nos anos 2O/30

Não só os imigrantes do século passado foram importantes no que diz respeito à implantação da indústria viti-vinícola em Jundiaí. Hermes Traldi ( * Viadana - Província de Mantova - Lombardia - 1.890 - filho de ourives imigrado em 1.913), conforme nos relatou seu filho Alberto, era técnico contábil e veio a convite de um tio para trabalhar nos Grandes Moinhos Gamba (hoje Moinho Santista), em São Paulo. Em 1.924 transferiu-se para Jundiaí, onde montou estabelecimento vinícola à Rua Barão de Jundiaí, esquina com a R. Jacintho Borges (hoje Cândido Rodrigues), produzindo vinho e sucedâneos com uvas adquiridas de sitiantes italianos da Colônia, Caxambú, Rio Acima e Varginha.

Comprou um terreno à Rua Campos Salles, onde, em 1.925, iniciou a construção de uma grande indústria vinícola que concluiu em 1.930. Adquirindo terras no Bairro de Santa Clara e na Serra do Japy, plantou das melhores castas sob a orientação de Francesco Mazzei ( * Volterra - Província de Pisa - Toscana - 1.886 - imigrou em 1.927, engenheiro agrônomo), obtendo híbridos finos de uvas francesas, italianas e alemãs, segundo Marino Mazzei, filho deste. Daí Traldi expandiu-se para Cabreúva, Santo Antonio do Pinhal, Santo Antonio do Jardim no Estado de São Paulo e Andradas em Minas Gerais.

Atesta Geraldo Barbosa Tomanik que em 1.926, Estevam Campanaro e Eudiano Gáspari (filho de Giuseppe Gaspari - * Recoaro - Província de Vicenza - Vêneto, mestre sapateiro - imigrou em 1.870), empreitaram a Giaccomo Venchiarutti ( * Ozopo - Província de Udine - Fríuli - 1.894 - Mestre de Obras - imigrou em 1.916) a construção do Cine-Theatro República na Av. Rio Branco, rua da estação, o qual tinha seu projeto copiado do Teatro Municipal de Jaboticabal, que havia sido construído pelo mesmo Giaccomo. É da mesma época (1.919), a instalação do Cine Ideal, um barracão coberto de zinco nos fundos do Grêmio, na R. Rangel Pestana, que mais tarde se transformou em rink de patinação (1.930), voltando a ser cinema posteriormente, até seu fechamento em 1.950.

Campanaro erigiu nessa época (1.926), um marco arquitetônico importante, qual seja um prédio assobradado clássico, com traços do movimento Art Nouveau, encimado por um torreão, na esquina da Rua Barão de Jundiaí com o Largo do Rosário, atual Praça Ruy Barbosa, com projeto elaborado por Antonio Mila, em cuja execução trabalharam Pietro Bortolini ( * Pordenone - 1.882 - Província de Udine - Fríuli - imigrado com sete filhos em 1.923 pelo vapor Valdívia) e seu filho Paulo, que nos forneceu este relato.

Paulo Bortolini, ainda conta que seu pai, combatente do Exército Italiano, prisioneiro de guerra por dois anos na Romania durante a Primeira Guerra Mundial, era um moleiro, isto é, construtor de moinhos e rodas d'água, tendo ido trabalhar na Fazenda Santa Gertrudes no Distrito de Itupeva, em 1.923 quando imigrou, "para livrar os familiares dos horrores da guerra". Fazia a conservação do moinho daquela fazenda dos Queiroz Telles e trabalhou depois nos Armazéns Reguladores de Café no Distrito de Campo Limpo, vindo em seguida para Jundiaí como mestre na empreitada que Giovanni Galimberti & Figlio (de São Paulo) havia contratado para a construção da Tecelagem Glória na Ponte de São João.

Relata-nos também Tomanik que em 1.928, Dr. Olavo Queiroz Guimarães, fêz reformar o Pavilhão, transformando-o no Cine-Theatro Polytheama, com frisas, balcões e camarotes, aumentando sua capacidade para 2.920 espectadores, o maior do interior dentre os 214 teatros que possuía o Estado de São Paulo. Nessa empreitada, trabalharam além dos antigos construtores, os frentistas Giacomo Venchiarutti e Giovanni Morandini, sob a orientação do arquiteto Emmanuel Gianni.

A decoração interna ficou a cargo do pintor Camilo Meloni ( * Rio Claro - 1.906), o mobiliário de Guido Pelliciari & Cia.. Grandes Companhias estrangeiras alí se apresentaram após a reinauguração em 25/0l/1.928, com três operetas apresentadas pela Companhia Clara Weiss e, sob a regência do Maestro Giuseppe Petri. O concessionário continuou sendo Estevam Campanaro, então o primeiro Vice-Cônsul da Itália em Jundiaí. Note-se a presença dos imigrantes em tudo que aí se fez.

Relatou-nos Nelson Pedro Meloni Pereira, que a origem de Camilo pintor e decorador, seu tio-avô, é notável. Era filho de Amadeu Meloni (* Avelino - Campagna - 1.867), que aos 8 anos de idade fugiu dos pais e embarcado, "deu a volta ao mundo", chegando a Jundiaí por volta de 1.877, quando raptou Angela Zomignani, dada a oposição dos pais ao casamento e foi com ela para a Itália.

Voltou para a América, ingressando na Argentina em 1.906, vindo de lá para o Brasil, instalando-se em Rio Claro SP, de onde voltou para Jundiaí. A família presume que a profissão de pintor que três, dos seis filhos de Amadeu, herdaram, teve origem na atividade que o pai desenvolvera no navio, em suas andanças pelo mundo. Um típico aventureiro.

Segundo Warren Dean, a produção industrial per capita em São Paulo, de acordo com os censos 1.920 e 1.940 - aplicados os índices de custo de vida respectivos - teve um crescimento superior a 110 %, concluindo que: "No transcurso destas duas décadas não se observará nenhuma transformação muito pronunciada da estrutura da indústria paulista. Conquanto se possa notar uma produção grandíssimamente aumentada em alguns setores durante a década de 1.930 especialmente no ramo dos tecidos de algodão, do cimento e do ferro gusa, cumpre ter em mente que os tecidos de algodão já não constituíam inovação e quase todos os recursos para a produção desses três itens já haviam sido instalados por volta de 1.929" (67).

Como em Jundiaí, na década de 1.920, não se expandiu o plantio de café, os capitais emergentes das altas do pós-guerra acabaram por se transformar em empreendimentos industriais que, os imigrantes ou seus descendentes também produziram.

São dessa época (ver Apêndice deste trabalho), a Fundição Esperança de Neli Fioravanti & Filhos, fundindo ferrosos e não ferrosos, discos para moinhos de café e peças para máquinas de fiação e tecelagem no bairro de Pitangueiras (1.922); a Tanoaria Paulista de Alfredo de Vito na Ponte de São João (1.922), o Cotonifício FIDES de Rappa & Milani Ltda. na Vila Arens (1.923), o Pastifício Moderno de Franchi & Orsi Ltda. e o Café Avenida na Vila Arens (1.923), a Fábrica de Ladrilhos Balaústres e Ornatos de Merighi & Consentino Ltda. (1.924) a Companhia Cerâmica Jundiahyense S/A na Ponte de São João (1.924), a Indústria Vinícola Caxambú de Antonio Borin & Cia. Ltda. (1.925), a Viti-vinícola Santa Izabel no Bairro do Caxambú (1.926), A Jundiaiense - Refrigerantes, Rums e Cognacs de Ferrazzo & Cia. na Vila Arens (1.927), a Fundição de Ferro e Bronze e Mechanica Brasil de Pedro Dal Santo & Cia. na Vila Arens (1.928), Perfumaria Meia Lua de Luiz Milani & Irmão, na Bela Vista - fabricante de sabões, sabonetes, talco e água de colônia - (1.928); o Estabelecimento Enológico De Vecchi na Vila Arens (1.928),a Cerâmica União Corradine (1.928), mais tarde, Sammarone S.A. Indústria Cerâmica no Bairro do Botão, a Jundiaí Retífica de Motores Ltda. de Honigman & Cia. (1.929), Serraria São Miguel de Miguel di Constanzo & Filhos (1.930), os Estabelecimentos Viti-vinícolas Hermes Traldi (1.930), e a Cerâmica Vila Rami de Antonio Cardia Jr. & Cia (1.930). (68)

Igualmente importante, foi o testemunho de Vasco Corradine a respeito de seu pai Angelo Di Valente Corradine ( * Mantova - Lombardia - 1.887 - imigrado em 1.896), que indo trabalhar na Fazenda Tapera Grande em Bethlem (hoje Itatiba), acabou por adquirir uma parte da mesma de um outro imigrante, Massagardi, com economias amealhadas no duro trabalho de uma olaria que lá montara. Vindo posteriormente para Jundiaí, em 1.928 montou a Cerâmica União Corradine, produzindo manilhas e telhas de barro vidrado em escala industrial.

Luigi e Fortunato Milani, ( * Rossano - Província de Vicenza - Vêneto - 1.892 e 1.894), imigrados em 1.895, trouxeram em 1.916, quando vieram para Jundiaí, a poesia dos que tiram os perfumes da natureza. Montaram, com a tradição que tinham da velha Venezia a Perfumaria Meia Lua que, por muitos anos forneceu e até exportou seus produtos às melhores sociedades da América. Seu irmão Giuseppe ( * Rossano - 1.869 - imigrado em 1.895) permaneceu em Valinhos, onde a família havia se instalado quando imigraram. Lá montou com outros parentes a Fabrica Gessy de sabão e sabonetes que por muitos anos angariou enorme fama nacional, inclusive no exterior, exportando para toda a América e Europa. É mais um exemplo da experiência e tradição que os imigrados traziam e mantinham em sua nova pátria, segundo relatos de Fortunato Milani, filho e sobrinho dos citados.

Apesar do reaparecimento dos preconceitos contrários à indústria e aos produtos nacionais conforme citam, Furtado, Baer e Dean, o retrocesso que aparentemente se deu no parque industrial, ou na sua produção, foi relativo, porque a produção aparentemente não cresceu no mesmo rítmo da década anterior em Jundiaí. Isto devido à diversificação das atividades industriais, que manteve relativamente acesa a evolução econômica, principalmente onde atuavam os imigrantes ou seus descendentes, conforme se pode perceber na relação supra, de indústrias por eles criadas no período.

Mesmo depois da depressão e durante o período de retomada das atividades, tem-se a impressão de que, ainda atingindo duramente a alguns fazendeiros de café, a crise de 1.929 não afetou Jundiaí tão diretamente como nos demais municípios cafeeiros, o que provavelmente se repetiu em municípios industrializados como Sorocaba e outros. Dean inclusive acha, que praticamente reduzida a plantação de cafeeiros entre 1.933 e 1.942, não tendo se afetado a produção de café e mantendo-se o consumo interno e a exportação, as divisas advindas da exportação de algodão e tecidos, supriram o mercado de tal maneira que as demais produções, necessárias ao consumo interno, mantinham-se "parelhas com o crescimento vegetativo da população." (69)

O movimento nacionalista da década de 20, atingiu a imigração, primeiro de uma forma sadia, obstando a entrada de deficientes, velhos acima de 60 anos, prostitutas etc; depois, com a nacionalização da pesca, do comércio e dos bancos, bem como, por uma inexplicada campanha anti-nipônica, que de toda forma não se justificava. Após a Revolução de 30, recrudesceu o movimento anti-semita por influência da Ação Integralista Brasileira, movimento nazi-fascista fundamentado na ideologia nacionalista.

Essas idéias anti-imigratórias, na realidade não encontraram respaldo na sociedade mas, lamentavelmente, persistiram em virtude de leis acobertadas por dispositivos constitucionais, somente alterados em 1.946, devido ao período ditatorial. Mesmo após a constituição de l.946, mantiveram-se algumas restrições à naturalização e ao exercício de certas atividades públicas, militares e empresariais, dado que leis e decretos da Ditadura não foram revogados.

Isto tudo, causou aos imigrantes e oriundi muitos problemas de adaptação cultural e exercício de cidadania, restringindo sua mais relevante contribuição que os habilitava ao incremento de novas atividades, portadoras do munus do desenvolvimento econômico-social.(70)

Demograficamente, Jundiaí que tivera acentuado crescimento desde o início da imigração em 1.870 (7.805 habitantes), até 1.920 (44.437 habitantes) - Censos Nacionais - alcançou 59.174 habitantes em 1.934 (71) decaíndo para 58.203 em 1.940. Não tendo ocorrido nessa época qualquer desmembramento territorial, é possível ter havido algum êxodo, talvez causado pela desativação de cafezais e alguma automatização industrial, uma vez que o crescimento econômico aumentou como se pode perceber entre o relatório da Festa da Uva de 1.934 e dados levantados em 1.938.

O primeiro publicado n'O Popular, edição comemorativa, cita " estarem empregados na indústria 6.153 operários, com um capital investido de Rs. 39.639:739$000, em 8 fábricas de Tecidos (800 teares e 26.000 fusos), 5 grandes estabelecimentos vinícolas e 36 pequenos, uma fábrica de chapéus, 2 de massas alimentícias, 4 cervejarias e outras de bebidas e conexos, 4 de mobiliário, 4 serrarias, 1 de máquinas para lavoura, 12 de ladrilhos, telhas e tubos, 2 cerâmicas finas, 2 de sabão perfumado, 4 fundições de ferro e bronze, 4 de veículos (troles, cabriolets e carroças) e 3 cortumes. A cidade contava com 28.607 habitantes em 5.134 prédios", ou seja, 48,34% do total, sendo portanto, até então mais numerosa, a população rural. Por outro lado, a população urbana ocupada na indústria representava 21,5% do total.

O que se observou na década de 30, foi o declínio da importância cultural e educacional da cidade, pois não vicejaram, como nas décadas anteriores, os teatros e colégios que fomentam esse âmbito social. Os únicos eventos importantes de que se têm notícia foram a fundação por Eduardo Tomanik, pai de Geraldo, da Sociedade Jundiaiense de Cultura Artística em 1.932 e a criação do grupo teatral amador "Taba de Pajé" , itinerante por todos os teatros da cidade e circos dos Distritos que, de 1.931 a 1.936, levou a mensagem do teatro moderno a todo o município e região. Compunham esse grupo Ammerico Maffia, Aroldo Moraes Jr., Rogério Baston, Deodato Pestana (ao piano), Alzira Klein e outros, segundo depoimento de Geraldo Barbosa Tomanik.

Segundo levantamento que fizemos no período citado, as indústrias formadas por italianos ou seus decendentes foram: Perfumaria Meia Lua de Luiz Milani & Irmão - sabões, sabonetes, dentrifícios, talco e água de colonia, à R. Bela Vista (1.928); Indústria de Bebidas Ferraspari Ltda. (1.932); Guido Passarin & Filhos - vinhos, na Ponte de São João (1.932); Refinadora Santa Maria de Luigi Constantino Bocchino & Cia., na Vila Arens (1.932); O Popular de Hugo Olivato - tipografia (1.934); Fabrica de Seda Alexandre Milani & Filhos (1.934), localizada na R. Barão do Rio Branco, onde hoje está a garagem da Viação Cometa; as Indústrias Francisco Pozzani S/A - velas, filtros e porcelana doméstica na Ponte de Sào João (1.934); Indústrias Andrade Latorre Ltda. - fósforos de segurança, no bairro da Barreira (1.935); Irmãos Peliciari Ltda. - móveis de madeira, no bairro de Pitangueiras (1.935); Irmãos Martin Ltda., Serralheria Padronizada (1.936); Miguel Marchetti S.A. Indústria Gráfica (1.936);Luis Vicente Casserino & Cia. Ltda. - gráfica na Vila Arens (1.936); Fiação e Tecelagem São Luiz de Milani & Cortina Ltda. (1.940) e Companhia Industrial de Conservas Alimentícias - CICA - doces e produtos em conserva no bairro de Pitangueiras (1.941).

Cada uma delas tem em sí a história de um imigrante, como a de Luiz Constantino Bocchino (* Avelino - Campagna - 1.884) que, segundo seu filho Mário, imigrou em 1.909, indo trabalhar na Distillerie Elequeiroz no Distrito de Várzea como guarda-livros e, mais tarde, em uma firma construtora de um primo em São Paulo. Com o que amealhou voltou a Jundiaí e montou um armazém de secos e molhados em sociedade com Cândido Mojola em 1.926 no qual ficou, posteriormente, com os filhos, formando em l.935 a firma L. Bocchino & Filhos. Nesse intervalo, fundou em 1.932 a Refinadora de Assúcar Santa Maria.

Há também aqueles que vieram pelo espírito de tentar uma nova vida, como Luigi Scavone ( * Tito - Província de Potenza - Basilicata), conforme nos fez minucioso relato Hilda Latorre de França Silveira. Trazendo algum capital, instalou-se em Bethlem, atual Itatiba, trabalhando com o cunhado Odoni, onde foi bem sucedido. Voltou à Itália para trazer a mãe, e com ela, veio também seu primo Antonio La Torre ( * Tito - Província de Potenza - Basilicata - 1.887), chegando eles ao Brasil em 1.900.

Trabalhando juntos construíram um império com fiação e tecelagem de lã e algodão, fazendas e a Companhia Brasileira de Fósforos de Segurança e até um banco: o Scavone. Antonio casou-se com uma compatriota Luccia Perrone, nascendo Luiz Latorre ( * Itatiba, SP - 1.912 ), seu primeiro filho, que não se adaptando aos estudos, foi trabalhar na fábrica de fósforos de Limeira, chegando a gerente, ocasião em que a indústria foi vendida com o copromisso de não montarem, os vendedores, outra indústria similar na região.

Luiz, mantendo a tradição da família, inconformado e dinâmico, procurou sociedade com José Andrade, português amigo da família, radicado em São Paulo, com importação e comércio de produtos alimentícios e bebidas. Montou em Jundiaí uma fábrica de fósforos, fundando com Andrade, as Indústrias Andrade Latorre S.A., em 1.935. De lá para cá, até seu falecimento ocorrido recentemente, criou um complexo industrial com 15 fazendas de reflorestamento de pinho no Paraná, com o que evitou ser "engolido" pelo pool do fósforo formado pelo grupo canadense que domina o setor no Brasil.

Auxiliou-o nessa empreitada o primo, Mariano Latorre ( * Tito - Província de Potenza - Basilicata), que seu pai havia mandado trazer da Itália. Inventivo e capacitado, Mariano aperfeiçoou as máquinas, automatizando-as e aumentando a produtividade com sistemas contínuos, tornando a Fábrica de Fósforos Argos e Guarani, matriz desse complexo, em Jundiaí, uma expoente do ramo. A ele seguiram-se constantes imigrações de conterrâneos, trazidos por Luiz, enriquecendo o quadro daquelas empresas.

Luiz Latorre, foi o segundo prefeito eleito do município de Jundiaí, após o período ditatorial do Estado Novo de Getúlio Vargas, cumprindo ótima gestão de 1.950 a 1.954.

É interessante salientar que os pais de Antonio, Miguel La Torre e Luccia Scavone, irmã de Luigi, bem depois, quando aquele já era um bem sucedido industrial, imigraram para a Argentina com os filhos. Jamais vieram ao Brasil. Hilda visitou as famílias Scavone e La Torre que até hoje têm remanescentes em Tito na Itália, deduzindo que as migrações daquelas famílias, em gerações distintas, tinham fundamento na incapacidade física de suas propriedades em conter e manter as sucessivas gerações. Como a aquisição de mais terras era difícil, porque o problema é generalizado e ainda constantemente agravado pela invasão das regiões rurais pelas indústrias; a solução era mesmo imigrar.

Leonardo Pozzani (* Verona - Vêneto - 1.870 - imigrou em 1.890), foi lavrador assalariado na Itália e no Núcleo Colonial Barão de Jundiaí. De seu casamento com Mathilde Scipione teve, dentre outros filhos, Francisco (* Jundiaí - 1.899), o qual casando-se com Ermida Pellicciari, sobrinha de Sperandio, instalou-se na Rua Santa Maria na Ponte de São João, trabalhando na Companhia Cerâmica Jundiaiense como fundidor de sanitários, conforme depoimento de seu primogênito Leonaldo.

Seu segundo filho foi acometido de tifo e, necessitando de um filtro de porcelana para dar-lhe água pura, obteve-o a muito custo no Almoxarifado da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. Vendo o material, um filtro Lete italiano, achou que seria capaz de fabricá-lo. Estimulado por seus patrões, Dr. Castilho e Olavo Guimarães, iniciou experimentos em um barracão de sua casa.

Obteve a licença de fabricação e venda da Secretaria de Higiene Pública em 1.934, quando montou nos fundos de sua casa uma fábrica de velas para filtro. Em 1.939, instalou uma cerâmica de sanitários na Rua Carlos Gomes, esquina com uma rua que hoje leva seu nome. Meses depois, adquiriu as instalações da antiga cerâmica Santa Josefina, onde hoje está a sede das Indústrias Francisco Pozzani S.A..

A guerra trouxe-lhe sérios problemas mas, procurando diversificar, produzindo louça doméstica, no início com grandes dificuldades, acabou por abrir um novo ramo: a porcelana. Seu prematuro falecimento não esmoreceu os filhos e genros que souberam dinamizar as fábricas e criar o grande complexo industrial que orgulha os jundiaienses.

As Indústrias Pozzani S.A. são compostas por uma fábrica de velas para filtros de água potável, filtros industriais, filtros para freios, à Rua Santa Maria esquina com Santo Antonio; uma fábrica de potes de barro, envoltórios para filtros, torneiras e tampas, bases e acessórios de plástico para potes, com galvanoplastia, na Vila Graff, uma fábrica de louça doméstica refratária no Bairro de Santo Antonio e a matriz à Rua Carlos Gomes dedicada à produção de porcelana doméstica.

Conforme depoimentos de meu pai que com ele conviveu, Antonino Messina ( * Riposto - Província de Catania - Sicília - 1.899) imigrou em 1.919, após a Primeira Guerra Mundial, fixando-se em São Paulo onde casou-se com Idalina Guzzo, filha de italiano fazendeiro em São Paulo, dedicando-se, segundo sua neta Silvana, ao comércio atacadista de secos e molhados, bem como, de frutas e conservas, tendo aberto a Casa Messina no Gazômetro, na zona cerealista da capital.

O grande sonho de Antonino, conta-nos Silvana, trazendo inestimável testemunho a este trabalho, sempre foi a instalação de uma indústria de conservas alimentícias, realizando-o após transferir-se para Jundiaí, em agosto de 1.941. Juntamente com Alberto Bonfiglioli, Mário Rappa e outros, fundou a Companhia Industrial de Conservas Alimentícias - CICA, empresa modelar do ramo no Brasil.

O projeto dessa indústria foi confiado ao competente Arquiteto Vasco Antonio Venchiarutti ( * Araraquara - 1.920), filho de Giaccomo imigrante já citado, que a construiu. Vasco foi Prefeito de Jundiaí por duas vezes, a primeira, eleito em 1.946, logo que caiu o Estado Novo e a segunda em 1.954, segundo relato de meu pai que foi seu Secretário de Obras e Serviços Públicos.

Antonino, auxiliado por seu filho Salvador (Turillo), segundo Silvana Messina, elevou tão alto o nome de sua empresa e seus produtos que, em dezembro de 1.956, foi agraciado pelo Governo Brasileiro com a Comenda da Ordem do Cruzeiro do Sul, posteriormente, em 1.959, com o título de Cidadão Honorário de Jundiaí, pela Câmara Municipal e finalmente, com a Comenda da "Stella Della Solidarietá Italiana" pelo Governo Italiano, por inestimáveis serviços prestados à coletividade italiana do Brasil e às relações comerciais, culturais e de amizade entre os dois países.

Mais uma vez a família Milani constitui por meio de um de seus imigrados uma empresa: a Fiação e Tecelagem São Luiz, que assim se chamou devido ao nome dos seus sócios: Luigi. Um deles, Luigi Antonio Cortina ( * 1.888 - Padova - Vêneto - imigrado em 1.894), e o outro, já referido, Luigi Milani que havia fundado a Perfumaria Meia Lua, também no Bairro da Bela Vista.

Cita, Salvatore Pisani, em 1.938: - "La colletivitá italiana residente en questo Municipio si calcola costituida di circa 8.000 persone; e figli d'italiani si fanno ascendere a circa 17 mila. I nostri connazionali, in grandissima maggioranza, si occupano dei lavori rurali, specialmente della coltura della vite; ma in buon numero sono anche colóro che si dedicano alle atività industriali e al commércio e colóro che esercitano le arti e mestieri. Possiedono 630 proprietà agricole, con una estensione di 8.518 alqueires per il valore di 10.447 contos di reis. Si puo dire in complesso che il 65% delle proprietà rurali e urbane del municipio di Jundiahy appartiene ad italiani e a discendenti d'italiani".(72)

Portanto, 13,51% da população eram italianos e 28,72% eram seus descendentes, alcançando, no total mais de 42% da população do município.

Eram tantos que Roque de Barros-"o poeta da Ponte" dedicou aos bravos imigrantes italianos,aos fundadores e aos primeiros moradores do Bairro S.João Batista, esta trova:

No bairro naqueles tempos
uma pequena casa existia
morava a família Zandona
felicidade igual não havia
Havia naqueles tempos
o preto Barnabé,o Dito carroceiro
a família Monticelli
e o velho sorveteiro.
Foi ele um dos primeiros
que prá Ponte deu valor
deixou seu nome na história
Zandona o fundador.
A família Murari
Era dono da Capelinha
O velho Salvi e Zonaro
E a saudosa Nhá Belinha.
Ele, mocidade de hoje,
está dentro do nosso coração
morto,aos que não conheceram,
vivo para a Ponte de São João.
No fim da Rua Vitória
Invernada do Chico Monte
porque não dizer do Schenker
família velha da Ponte.
No fim da ruazinha
no último número lá em cima
ficava uma gente boa
a família do Bento Lima
O velho Saran
era nosso Dom Quixote
a Eva do Barão
família Santoro e Mingotto
A saudosa figueira
foi derrubada coitada
restando só lembrança
de uma felicidade passada.
O velho Braun
Maria Tessari
Andrinelli o Menon
eram velhos do bairro
tempo feliz e bom
Ficava em frente à Capelinha
essa árvore saudosa
onde os carroceiros descansavam
na sua sombra gostosa.
No meio dos italianos
tinha pretos também
família Dica e Sabino
gente de côr mas de bem
O Bixinsk homem bom
elemento cheio de gala
foi ele que prá escola
cedeu a primeira sala.
No começo da Colonia
tinha fábrica de pote
o fabricante era a família
do alegre Galavotti.
O velho Floriano
de madeira era serrador
O Debroi fazia charuto
o Demétrio era curador.
O Bárbaro era concorrente
era também ceramista
trabalhava com terra côta
no Bairro S.João Batista.
Tinha naqueles tempo
a família do dr.Romeiro
B. Netto chamava ele
um grande pioneiro.
Castiglioni tinha venda
onde os velhos se reunia
Pellicciari fábrica de cadeiras
e o bairro progredia.
Muito fizeram eles
para o progresso do lugar
fazendo com que os de hoje
tenha sempre o que contar.
O Pozzani tinha armazém
até hoje a casa existe
trabalhava no balcão
o casal e o Ariste.
A fábrica de louça
assim conta a história
chamava Santa Josefina
era na Rua Vitória.
Tinha também no bairro
este lugar cheio de vida
o velho Roncoletta fabricante de bebida
Na pontinha de madeira
onde passa o Rio Jundiaí
o Saran tirava areia
para as construções daqui.
Essas eram as indústrias
que trabalhavam sem parar
dando sustento às famílias
moradores deste lugar.
Havia também no bairro
uma grande serraria
era do velho Boião
trabalhava noite e dia.
A família Piva
trabalhava coma a carroça
também o velho Manfinato
tem saudades nossa.
Miguel Puzoni industrial
foi fabricante de ladrilhos
esta foi geração honesta
cheia de virtude e brilho.
Também velho Raymundi
é lembrado hoje em dia
foi quem fez a primeira casa
na Rua Santa Maria.
Dessa geração foi inventor
e também fabricante
Pozzani homem das velas
lembrado a todo instante.
No bairro tinha também
uma pequena escola
tinha Augusto Chinelero
e a família do Batolla.
A família Murari
também tinha o Gebran
a familia do Negri
ambém a do Piovesan.
Havia também a Igreja
o Mietto era cocheiro
Bonaldi o professor
o Grassi relojoeiro.
Quero que a nova geração
preste atenção e veja
a família Milani
doou o terreno para a Igreja
Família Ungaro e David
o velho Tozetto e Zonnaro
Ebert e mais o Turquetto
Girotti e o Salammaro
Trabalhava sem parar
Luiz Bárbaro e Chico Mineiro
Milani Passini Mestrinelli
o África era o Pedreiro.
No meio das famílias
que viveu na Ponte de S.João
tem também o Hermenkens
um simpático alemão.
O vigário da época
onde o povo ia rezar
chamava Padre ßngelo
bem quisto no lugar.
E a Maria Bonita
Porque esquecer dela
o Túlio Gozzo Camocardi
também família Pradella.
A turma do Dadalt
o Ziker o Zampiron
a família do Giroto
e mais família Furlan.
Antonio Bragassa e família
homem de bom sentimento
foi ele quem levou
o Hermenkens para o casamento
O Stuk o Vermiglio
a família Zomignani
Bagostello e Zanini
a familia Bulizani.
Bernardini o curador
Manfredi era o bicheiro
o sacristão era o Santo
Elias Zomignani pedreiro
Morava também na Ponte
Arsênio Pasqualini o trovador
o velho Amadeu Meloni
pai do Camilo pintor.
A família Hoffman
e a saudade não acaba
Augusto Honigman também
Zanirato e Riza Baraba.
Lulu Trippe tinha um sogro
chamava Elle Carboni
era dono da esquina
que hoje é do Castiglioni
Para maior confôrto
desta nossa freguezia
tinha aqui no bairro
duas grande barbearia.
Dr. Alberico da Cerâmica
quantas coisas interessante
tinha também carabineiro
esse velho era o Dante.
Ernesto Merighi o barbeiro,
Alberto Mazetti seu rival
Persio Gandra e Rodrigues
e um português chamado Cabral.
O tempo que já passou
é lembrado hoje em dia
Denardi Emilio Tomin
Caudaglio tinha olaria.
Augusto Romignan e família
foi ele quem comprou
o primeiro automóvel
que nestas ruas rodou.
A família Ghiraldi
também era deste celeiro
Lumazini e sua turma
José Terzer o carpinteiro.
Moselle o o velho Graff
que na ponte nome ficou
foi Luiz Gobbi e Lazarini
que o primeiro vinhedo plantou
Também tinha farmácia
para atender todas as dores
e para maior conforto
dos nossos moradores
Zacharias de Góes
farmacêutico cheio de amor
viveu seus últimos dias
neste bairro acolhedor
A família do Bérgamo
o sogro do Carlin era Santão
também a família Figueiredo
É velha do Bairro S.João
Belline e Biggia Pandolfi
o Pozzani fazia macarrão.
Essa fruta gostosa
que prá Jundiaí deu glória
o primeiro pé foi plantado
na antiga Rua Vitória
E os bravos espanhois
Gonzales Rodrigues e Garcia,
Hernandez, a Chica espanhola
nos deram muita alegria.
Os industriais do bairro
a nossa homenagem também
o Pozzani ao Pandolfi
e a fabrica do Azem
os Pellicciari Duratex
e outras noutro verso tem.
Bellini Soave e Cavazani,
Piovezan Corradine e Nazão,
e o Zani, são saudosos
na Ponte São João.
A fábrica do Lanza
o Wailan tem serraria
faz palito prá sorvete
no bairro de hoje em dia
o Bertazzoni tem móveis
e o Tromboni relojoaria.
A família Izzo,
a gente dos Piacentini,
Franchi, o Dignasio
Passador e o velho Segantini
Viva a imigração italiana
que tem um passado de respeito
da raiz destes bravos
Jundiaí tem o Prefeito
para a glória da Ponte de S.João
e para um Brasil satisfeito
Franchi Dignasio e Piola,
também vieram crianças;
Escheaser Volpi Massoti,
cheios de esperança.
1.913 essa velha geração
trabalhava de verdade
fundaram o Clube São João
que hoje é realidade
deixando para o futuro
essa grande sociedade.
Rodrigues Hernandez da Antonia
da Chica Gonzalez e Garcia
eram bons espanhóis
onde imperava a alegria.
Esse lindo riozinho,
o Jundiaí glorioso,
transbordava contente
cheio de vida e gozo.
Era tudo deserto,
era tudo sertão,
aonde a gente vê
a Ponte São João.
Mas veio o progresso
e apareceu aqui então,
gente de outras plagas
vinda de outra nação.
A Estrada de Ferro
que chegava até aqui,
era São Paulo Railway
hoje Santos Jundiaí.
era a imigração italiana,
que aqui aportava,
e o nosso querido Jundiaí
só, não mais ficava
Jundiaí é nome
indígena,
que não sei dizer bem ...
se é rio de muito peixe,
ou rio que peixe tem.
E aonde era mato,
ó brejo e lamaçal
os homens trabalhavam
com astúcia braçal
E num ambiente feliz,
cheio de vida e alegria,
o Antonio Zandona
construia sua moradia.
Começou a derrubada
desses bravos pioneiros,
ajudando o progresso
junto com os brasileiros.
Esse bravo imigrante,
homem astuto e de valor,
deixou o nome gravado,
Zandona o fundador.
Naquele terreno pantanoso,
onde era tudo esquecido,
nasceu o Bairro da Ponte
um bairro era construido
Esse valente italiano,
que veio como imigrante
foi como os portugueses,
um nobre bandeirante.
Morava também na Ponte
um velho, o chamado Joaquim
se esqueci algum nome
tenham pena de mim
Oswaldo me deu a lista
e eu fui até o fim.
Distante do Zandona
alguns metros para cima,
ficava a família
do saudoso Bento Lima.
E a nossa Capelinha,
que até hoje é tradição,
foi a família Murari,
quem fez a construção.

Composta em homenagem ao dia de S. João, publicada no Suplem. Especial do Diário de Jundiaí de 23.6.63.


(67) Op. cit., 117 p.

(68) Levantamento feito de anúncios d'O POPULAR. Edição especial comemorativa da primeira Festa da Uva de Jundiaí. Jundiaí, ed. de Hugo Olivato & Filhos, 1.935; com pesquisas diversas complementando dados e datas.

(69) DEAN, Warren. Op. cit.. 122 p.

(70) DIEGUES JÚNIOR, Manuel. Imigração, Urbanização e Industrialização. Rio de Janeiro, Inst. Nac. de Estudos Pedagógicos, 1.964. p. 345 -355.

(71) O POPULAR. op. cit.. 21 p.

(72) PISANI, Salvatore. Lo Stato di San Paolo nel cinquantenario dell'immigrazione. Roma, 1.938. 37 p.



 
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