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VITA MIA
A Retomada da Imigração e da Industrialização - 1.940-1.960

Ainda que não houvesse uma consciência anti-imigrantista na sociedade brasileira, como já dissemos, os primeiros sintomas do movimento nacionalista, surgidos na década de 20, introduziram à imigração restrições objetivas, apesar de impregnadas de um certo jacobinismo.

Somaram-se a elas a nacionalização da pesca, do comércio e dos bancos, bem como, uma inusitada campanha anti-nipônica e, já na década de 30, um movimento anti-semita, cujas raízes se fixavam no ideário Integralista, secundado pelo movimento nazi-fascista, cujas lideranças eram compostas por nacionalistas mais radicais. Foi nessa década, que as idéias anti-imigratórias se firmaram, apoiadas em legislações promulgadas no período ditatorial e acobertadas depois, por disposições constitucionais de 1.934.

Tais restrições prejudicavam a naturalização e até aos naturalizados, persistindo, mesmo com a redemocratização do país pela Constituição de 1946, a qual, continuou a lhes impor restrições relativas ao exercício de cargos públicos, militares e outros, bem como, vedou-lhes a propriedade ou a administração nos serviços de navegação, imprensa, rádio-difusão e educação pública. Enfim, mantidas um total de 53 restrições, muitas destas tornaram-se também perniciosas, por falta de regulamentação, o que ensejava a aplicação indébita da legislação remanescente do período ditatorial.(73)

A década de 30, iniciou-se com uma Revolução que colocou Getúlio Dornelles Vargas no poder, carreando consigo certa dose de nacionalismo militar, que fundamentava a estratégia do crescimento econômico do país, numa industrialização apoiada na criação de um parque de indústrias de base: cimento, celulose, papel, e siderurgia de grande porte.

Até a implantação do Estado Novo, em 1.937, as indústrias do cimento e da celulose, bem como do papel de imprensa, tiveram seus programas definidos, mesmo porque, em termos de tecnologia e volume de capitais, estas eram mais facilmente acessíveis ao Brasil, o que não ocorria com a siderurgia integrada, isto é, um complexo siderúrgico fundado no fabrico de coque por meio de carvão mineral. Essa tecnologia, complexa e cara em termos de instalação, não seria facilmente cedida pelos detentores estrangeiros, que tinham interesse na restrição internacional desse mercado produtor.

Vargas, habilmente, aproveitou-se da rivalidade entre os E.U.A. e a Alemanha, às vésperas do Segundo Grande Conflito Mundial e explorando os temores norte-americanos da influência alemã em seu hemisfério, conquistou fundos do Eximbank e alardeou que o governo brasileiro construiria a usina, associado a capitalistas nacionais, utilizando a United States Steel Corporation, como único parceiro tecnológico, desde a elaboração do projeto.

Deu início à construção sob a orientação do Engenheiro Metalurgista, Edmundo de Macedo Soares, capaz e explêndido administrador, além de tudo, Tenente do Exército Brasileiro e nacionalista convicto. Localizada em Volta Redonda, entre São Paulo e Rio de Janeiro, utilizando-se do carvão mineral de Santa Catarina e impondo o controle estatal na sua administração, alcançou a confiança de grande parte dos capitalistas nacionais, liderados por Alexandre Siciliano, Guilherme Guinle e Roberto Simonsen (74), estes imigrantes ou descendentes.

O interesse não era apenas de atrair para a indústria de base os capitais nacionais, mas preparar o Brasil para os dias negros que viriam com a iminência da II Guerra Mundial.

O Brasil entrou na década de 40 com esse sentido de emancipação em grande escala e, na guerra, em agosto de 1.942, quando por razões estratégicas internas e externas, passou a fazer ampla supervisão de sua economia. Uma das metas de base de Getúlio Vargas, não alcançada, foi a autonomia da produção de petróleo. Com a escassez de combustíveis automotivos, industriais e de lubrificantes nos anos de guerra, teve-se que adaptar toda a frota de automóveis e caminhões para o uso de gasogênio de carvão vegetal. Por outro lado, o racionamento prejudicou severamente as indústrias e seu desempenho no esforço de guerra .

O ambiente industrial brasileiro sofreu considerável mudança dadas as necessidades de matérias-primas que tinham, tanto os E.U.A., quanto os aliados europeus. Por algum tempo, o comportamento das Nações Ricas em relação ao Brasil mudou diametralmente e, "o mundo desenvolvido jamais prestigiaria tanto os esforços brasileiros para industrializar-se".(75)

Além disso, a escassez de navios decorrente da guerra naval no Atlântico, abriu para o Brasil os mercados da Argentina, do Uruguai e outros países Sul-Americanos, o que incrementou sobremaneira as exportações de tecidos de algodão, carnes enlatadas e congeladas, lãs, fios de algodão e de rayon, óleos vegetais e açúcar, muitas vezes com fortes prejuízos ao consumidor interno.

Outro comportamento que se modificou notadamente, no tempo de guerra, foi no campo da formação profissional. Até a década de 30, os industriais não se preocupavam com a criação de escolas para a formação de técnicos, pois era fácil "importá-los" tanto da Itália como da Alemanha.

Somente na década de 40, é que o governo assumiria a responsabilidade de criar entidades como o SENAI (fundado em 1.942) e estimular outras como o SESI (fundado em 1.946), para formar mão-de-obra capacitada a gerir as indústrias.

A guerra havia obrigado à expansão de diversas áreas fabrís anteriormente quase artesanais, destacando-se o vidro plano, latas e embalagens, pneus e produtos de borracha, máquinas-ferramenta, substâncias químicas inorgânicas, motores elétricos, plásticos, explosivos, máquinas de escritório e, principalmente, peças para veículos e material rodante ferroviário.(76)

O primeiro plano quinquenal completou-se em 1.943 e a ele seguiu-se outro, com o objetivo de manter o desenvolvimento industrial do pós-guerra, pois na realidade, Volta Redonda e as refinarias de petróleo, somente alcançaram pleno funcionamento no final do conflito, quando também Getúlio Vargas caiu.

O período de restrição imigratória, reduziu sobremaneira a capacidade econômica reprodutiva que este contingente populacional vinha implementando até a década de 20, o que influiu na diversificação das atividades industriais, que ganhara um certo fomento com a queda do café. A Segunda Guerra também foi um fator de inibição, já que a Itália, bem como a Alemanha e o Japão, ficaram, a partir de 1.942, no lado oposto ao do Brasil, naquele conflito.

Os Censos havidos a partir de 1.920, comprovam numericamente estas afirmações, conforme dados de cada decênio: 1.921/30 = 835.000 imigrantes; 1.931/40 = 285.000 ; 1.941/50 = 192.384 (desconsiderando-se os falecimentos no período), sendo 79.648 de 1.941/45 e 112.736 de 1.946/50. No lustro da guerra, a maioria foram constituídos de norte-americanos, sul-americanos, espanhóis e refugiados europeus. Naquele que se seguiu, até 1.950, as imigrações italianas, alemãs e japonesas incrementaram-se novamente.(77)

Esses eventos demográficos tiveram notável influência no comportamento e evolução da economia paulista como um todo e, em particular em Jundiaí, onde quase a metade da população era constituída de imigrantes e seus descendentes, principalmente porque a partir daí, a imigração dirigida começou a ganhar importância em relação à expontânea, fato na maioria das vezes provocado pelos próprios imigrados aqui já instalados, que mandavam trazer compatriotas com ofícios específicos que lhes interessavam, como já dissemos, quando relatamos o "evento Latorre".

Diégues faz uma apreciação de âmbito geral mas que, de uma certa maneira, diz muito a respeito do que ocorreu em Jundiaí, relativamente aos imigrantes qualificados, quer técnicos, quer operários, cuja imigração representou logo depois da Guerra, cerca de 15% do contingente, aumentando pronunciadamente até 1.958, quando superou os 20% no grupo dos originários da Itália. (78) Como em Jundiaí, a industrialização encontrava-se em fase de franca expansão e isto veremos adiante, é provável que uma boa parte destes técnicos para lá se tivessem dirigido

As consequências da Segunda Guerra Mundial foram terríveis para a Itália e as condições de vida na península tornavam-se cada vez mais difíceis. O processo de imigração resultante, coordenado ou não pela Companhia Italiana de Imigração e Colonização, tendia a massificar-se novamente, com interesses colonizadores. Contudo, no Estado de São Paulo, a atração pela urbanização era notável, porque o surto de industrialização que o país fomentava, era aí mais intenso, principalmente na capital e nas cidades industrializadas do seu entôrno, dentre as quais Jundiaí se incluía.

Com a abolição do sistema de licenças de importação, as reservas amealhadas durante o período da guerra, foram praticamente desperdiçadas com importações supérfluas, em detrimento do reequipamento do parque industrial que já se tornava obsoleto. A consequente falta de reservas cambiais emulou a criação de empresas fabricantes e montadoras de equipamentos industriais.

Fundadas nas indústrias de base, que ao final da guerra estavam em plena produção, criaram-se na década de 40 as indústrias concernentes aos ramos produtores de bens de capital ou duradouros. Assim, dobrou-se o número de indústrias mecânicas, bem como aumentou de 25 e 30% o número de estabelecimentos dedicados à produção de material de comunicação e elétrico. Foi essa expansão que propiciou o desenvolvimento de indústrias de materiais de transporte, base que possibilitou a implantação da indústria de autopeças na década seguinte.

A racionalidade dessa evolução, estava apoiada em sólidos parâmetros, isto é, a existência " de matéria-prima, de capitais, de técnica avançada, de mão-de-obra qualificada e, sobretudo, de mercado para seus produtos." (79) Werneck, nos dá uma idéia dessa expansão, no Brasil como um todo, comparando o aumento de produção das indústrias de bens de capital com as de bens de consumo, no período de 1.940 a 1.955: 892% contra 196%.(80) De fato, com pequenas discrepâncias, estes percentuais de expansão, podem ser transpostos para São Paulo, uma vez que, em grande maioria, tais indústrias aí se localizaram.

São dessa época, em Jundiaí, a Theoto S.A. Indústria e Comércio palitos e utensílios de madeira (1.945); Máquinas Gloria - Indústria Mecânica e Caldeiraria (1.946), produtora de máquinas automáticas para indústrias de bebidas e sistemas transportadores; EASA Engenheiros Associados S.A. Ind. e Comércio de transformadores e aparelhos elétricos de precisão (1.946); Implementos Yamashita , implementos agrícolas (1.947); Manah S.A. Comércio e Indústria - adubos e inseticidas (1.947) no Distrito de Campo Limpo; Vigorelli do Brasil S.A. - máquinas operatrizes, de costura, barcos, móveis de madeira (1.947); Cerâmica Colônia S/A - cerâmica sanitária de propriedade das famílias Spiandorin, Sarpi, Gerola e Zonaro (1.948); Cerâmica Anhanguera - Irmãos Carbonari & Cia. Ltda. - tijolos furados e telhas (1.948); PREL S.A. Egenharia Indústria e Comércio - Lajes de tijolos furados de cerâmica, pré-moldadas (1.948); Cerâmica Ibê de Irmãos Bocchino Ltda. - produtora de telhas e tijolos furados, no Bairro de Jundiaí-Mirim (1.948); Cerâmica Centenário, pisos cerâmicos (1.949).*

Interessantíssimo foi o relato que nos foi oferecido por Luciano Galbarini (* Lecco - Província de Commo - Lombardia - 1.926 , imigrado em 1.953), relativamente à Vigorelli do Brasil S.A..

Giaccomo Franco e sua família eram descendentes de judeus espanhóis que fugiram pela Europa perseguidos pela Inquisição Espanhola, indo alguns para o sul da França, a Itália e mesmo para a Grécia e os países dos Balcans. Seus descendentes Giaccomo, Giuseppe (Pepo) e Santos, quando se recrudesceram na Europa as discriminações raciais, originárias de ideologias totalitárias, às vésperas do conflito mundial de 1.939, imigraram para o Brasil, vindo da Bulgária, aparentemente, via Itália.

Aparentemente, porque tudo leva a crer que, eles mais o cunhado de Giaccomo, Isacco Caleffo, permaneceram e fizeram relações comerciais na Itália, antes de emigrarem. Chegaram em São Paulo em 1.940, dedicando-se de pronto ao comércio para mais tarde, terminada a guerra, dedicarem-se à importação e exportação, quando montaram a Importadora e Exportadora Francolite Ltda (1.947).

Inicialmente, importaram "kits" de máquinas de costura do Japão e da Itália, para montagem no Brasil, que iniciaram em linha em um barracão na Rua Turiassú, na Vila Pompéia. Os "kits" italianos provinham da Vigorelli Italiana, sediada em Pavia na Lombardia.

Sentindo que o negócio ia bem, resolveram adquirir a licença de fabricação e, ato contínuo, adquiriram no Bairro da Bela Vista em Jundiaí, um grande terreno onde começaram, em 1.952 a construção da fábrica que foi inaugurada pelo Governador Lucas Nogueira Garcez, em abril de 1.953. Para a montagem da linha industrial, contrataram o Engenheiro Carlo Kummer, o qual trouxe consigo cerca de 15 técnicos especializados, todos originários de outra indústria italiana de máquinas de costura: a Necchi, também localizada em Pavia, na Lombardia.

Com estes, veio também Luciano Galbarini, técnico especializado em projetos de produção, que permaneceu na indústria até seu encerramento em 1.984. Ao lado dessa imigração "dirigida", desenvolvia-se a imigração de operários e trabalhadores italianos, que vieram no pós guerra, tentar melhores condições de trabalho e de vida. Estes últimos, oriundos da imigração "expontânea", foram atraídos pelos patrícios para a empresa, somando esse contingente, pelos idos de 1.960, mais de 300 imigrados, uma vez que mandaram buscar ou convidaram, nesse período familiares e amigos, aos quais ofereciam colocação imediata.

Da montagem de máquinas de costura, passaram à nacionalização, produzindo e montando os "kits" e daí, construíram a marcenaria, produzindo os móveis para as máquinas e, em seguida, a fundição para suas peças, chegando a produzir até 500 unidades/dia com cerca de 5 tipos diferentes de máquinas comuns, automáticas e bordadeiras.

Para automatizar suas operações acabaram por entrar na fabricação de máquinas operatrizes, especializadas e de ferramental, donde adentraram o setor de auto-peças, sendo os primeiros a produzir cintos de segurança. Mais tarde produziram hidrômetros, montaram um estaleiro de construção de barcos camaroneiros em Cananéia e chegaram até a produzir armamentos militares leves como submetralhadoras.

Voltando aos fatos gerais desta década, depois da eleição de Vargas, descobriu-se, em meio à crise econômica por que passavam os países não assistidos, que os E.U.A. não tinham o menor interesse em promover a industrialização do Brasil, ocorrendo então, a estatização nos campos da energia, na produção de petróleo, de veículos pesados, aços especiais e substâncias químicas.(81)

Com relação `a energia elétrica é oportuno salientar o progresso havido no setor, na região de São Paulo, onde de l84.195 KW, com 18.786 Km. de rêdes e 151.000 ligações, consumindo 400 milhões de KWh, em 1.930; passou-se para 990.221 KW, com 75.636 Km de rêdes e 800.000 ligações, consumindo 4,5 bilhões de KWh em 1.957. (82) A década de 50 foi fértil na construção de usinas geradoras por empresas estatais.

No setor privado, a emulação governamental ao ingresso de capitais estrangeiros, acabaram por induzir tais capitalistas a adquirir firmas brasileiras, no afã de arranjar sócios nacionais em obediência às leis de incentivos. Foi o que ocorreu nos ramos de automóveis, pneumáticos, faramacêutico, de fumo, equipamentos de construção, elétrico e eletrônico.(83)

Enquanto a participação relativa das indústrias têxteis diminuía e outros ramos tradicionais estacionavam, crescendo apenas em termos absolutos, as indústrias de produtos alimentícios, intensificaram sua modernização. O processo de urbanização, consequente da adoção do modo capitalista de produção, concentrando seus meios, os da propriedade e os da população, alteraram os hábitos de consumo, introduzindo mesmo a padronização, criando ramos novos como o da confecção e o do calçado popular. Em Jundiaí deram-se as instalações da Vulcabrás S.A. em 1.952 e da Ind. de Calçados Elbena em 1.956.

Foi daí que sobreveio a transformação qualitativa do parque industrial, fundando-se em termos absolutos o maior número de estabelecimentos e, principalmente, modernizando-o, porque não só as novas indústrias foram bem mecanizadas, como também, as antigas foram reequipadas, o que permitiu menor número de operários e melhoria nos quadros técnico-administrativos, aumentando muito a produtividade.

Pereira, montou um quadro contrapondo a mão-de-obra ao valor da produção industrial, no Estado de São Paulo, o qual analisa os intervalos 1.939/40, 1.949/50, 1.958 e 1.959/60, sob fidedignas fontes e com uma elaboração técnica impecável, concluindo: " que na década de 40, o aumento da produção (76,9%) correspondeu a um aumento quase idêntico da mão-de-obra empregada (75,1%) e de operários (79,0%), na década seguinte, os aumentos de produção são muito superiores ao da mão-de-obra."(84)

Entre 1952 e 1958, emigraram para o Brasil por intermédio do CIME - Comitê Intergovernamental para Imigrações Européias - em coordenação com o INIC - Instituto Nacional de Imigração e Colonização - 72.277 pessoas, dentre as quais, 48.269 Italianos.(85)

Villani (86) relaciona o Parque Industrial de Jundiaí como o quarto do Estado com as seguintes quantidades de estabelecimentos em 1952: "artefatos de madeira, 6; beneficiamento de arroz, 4; beneficiamento de algodão, 7; bebidas (exceto cantinas), 35; cortumes, 1; indústria de construções, 16; carvão, 3; chapéus, 14; calçados, 36; extração e beneficiamento de minerais, 14; fósforos, 1; veículos, 10; fundições, 5; moagem de fubá, 11; fecularias, 5; instrumentos agrícolas, 1; lavanderias, 1; móveis, 19; massa alimentícias, 4; oficinas ferroviárias, 1; óleos vegetais, 1; prótese dentária, 1; polvilho, 1; papel, 1; refinarias de açúcar, 1; selarias, 7; sabão, 3; sacos de aniagem, 2; fábricas de tecidos, 13; tinturarias, 6; oficinas de vulcanização, 3; velas para filtro, 1; aparelhos elétricos, 4; artigos de vestuário, 26; brinquedos, 2; colchões, 4; cerâmicas e olarias, 36; clorato, 1; beneficiamento, torrefação e moagem de café, 27; camisas, 1; doces, 2; filmes cinematográficos (!), 1; ferraria e carpintaria, 15; funilarias, 7; fogos, 1; formicida, 1; fábricas de gelo, 2; ladrilhos, 2; liguiça e congêneres, 8; marmorarias, 1; oficinas gráficas, 11; oficina de consertos mecânicos, 17; palitos, 2; produtos químicos, 2; pastelarias, 2; padarias e confeitarias, 17; conserto de relógios, 7; serrarias, 2; sorveterias, 14; sacos de papel, 1; tanoarias, 1; vassouras e escovas, 4; gravatas, 1; correias de lona e borracha, 1.

O capital empregado nas indústrias ultrapassa de 200 milhões de cruzeiros e perto de 15.000 operários empregam suas atividades nestas indústrias.

População : 70.000 hab.

Superfície : 750 km ²"

Percebe-se pela descrição de Villani, que repetiu-se em Jundiaí o que ocorreu no parque industrial do Estado, principalmente no da Capital, não podendo se negar também que uma outra similaridade ocorreu: a influência dos imigrantes nestes processos. É verdade, que este contingente, além de não ser oriundo apenas da Itália, teve alocado na indústria quase que a totalidade de seus elementos técnicos ou especializados, bem porque, nesta época houve maciça entrada de capitais estrangeiros no país, em especial em São Paulo, que detinha a hegemonia das indústrias de materiais elétricos, de comunicação, mecânica leve e pesada, bem como a melhor disponibilidade energética.

Durante o Governo Kubitschek, cujas diretrizes se voltavam ao incentivo na entrada de máquinas e equipamentos de investidores estrangeiros, sem cobertura cambial (Instrução 113 da SUMOC), bem como, com o objetivo de propiciar a instalação da indústria automobilística, ocorreu o domínio dos grupos econômicos alienígenas sobre os nacionais similares, uma vez que não se solecionou os investimentos, de modo a evitar tal concorrência .(87)

Além disso, não obrigando o proporcional ingresso de capital de giro, o Governo acabou por comprometer no futuro, não só nossa balança de pagamentos, em virtude da crescente remessa de juros e lucros, como também, ensejou que os investidores estrangeiros enxugassem o mercado de capitais nacionais disponíveis que serviam às nossas empresas, para capital de giro , com evidentes prejuízos.

O açodamento do Governo Federal no sentido de implantar uma indústria automobilística até o fim da década de 50, com sua "política desenvolvimentista", criando uma série de facilidades no sentido de ampliar o parque industrial, redundou em benefício de grupos sociais alienígenas, que se aproveitaram para ampliar seus estabelecimentos e capacidade de produção, utilizando-se inclusive da importação de maquinários já obsoletos em seus países de origem.

Na realidade, houve outras consequências além do âmbito dos ramos de produção de material de transporte, onde se inseriam as indústrias mecânica, de metalurgia, eletricidade e comunicação; destacando-se os ramos químico e farmacêutico, onde o domínio dos grupos internacionais passou-se quase à totalidade.

Por incrível que pareça, segundo Osny Duarte Pereira, tudo isso ainda foi financiado pelo Governo Kubitschek, que concedeu via BNDE 6,9 bilhões de cruzeiros de financiamentos à indústrias estrangeiras contra 6,5 às nacionais. Ainda que se explique que parte dessa disponibilidade do BNDE, tivesse origem nos Acordos do Trigo, feitos com os E.U.A., favorecendo consequentemente às empresas norte-americanas, o flagrante favorecimento, teve como consequência um desastroso leilão das pequenas firmas nacionais, dado que, favorecidos pelo câmbio, os grupos estrangeiros passaram a se interessar pela produção local, de peças e implementos que anteriormente importavam. Foi o nosso único lucro: a diversificação e ampliação das indústrias subsidiárias.(88)

São desta década, as seguintes indústrias fundadas por italianos ou seus descendentes em Jundiaí: Coniexpress S/A Indústrias Alimentícias - copos para sorvete etc - Vila Jundiainópolis - fundada por Irmãos Storani e hoje pertencente ao Grupo Paoletti (1.950); Indústria de Escovas Bertazzoni Ltda. (1.950); Cerâmica Traviú - Irmãos Carbonari S/A Comercial Industrial e Agrícola, no Bairro do Traviú (1.951); Guilherme Croaro & Filhos Ltda. - fundição de ferrosos e não ferrosos (1.951); Balanças Chialvo S/A Indústria e Comércio - balanças industriais fixas e móveis (1.952); DUBAR S/A Indústria e Comércio de Bebidas, na Vila Progresso, tendo por sócio e fundador Mário Rappa, casado com a viúva Zerrener, proprietária da Copanhia Antarctica Paulista (1.952); Cerâmica Caxambú S/A indústria e Comércio - tijolos e telhas, no Bairro do Caxambú (1.952); Companhia Litográfica Araguaia S/A - litografia e impressão industrial, cujos principais sócios são da família Robertoni (1.952); Mecânica e Produtora DODI Ltda. - porcas, parafusos e peças para indústria automobilísticas (1.953); Tipografia Bandeirante de João Batista Bedin Filho (1.954); Companhia Industrial e Mercantil Paoletti - conservas alimentícias, no Distrito de Várzea, cujo principal acionista foi o italiano Carmello Paoletti; Indústria de Bebidas Roberto Picchi Ltda. - JUN-BRA (1.954); Máquinas Cerâmicas Morando S/A - equipamentos para indústrias cerâmicas (1.954); PROMECA Progresso Mecânico do Brasil S/A - usinagem de peças para veículos e máquinas operatrizes (1.954); Mecânica Jun brasil Ltda. - usinagem e caldeiraria (1.956); FANCO - Fábrica de Acessórios de Máquinas de Costura Ltda. (1.956); Indústria de Calçados ELBENA S/A (1.956); Fábrica de Frios Leoni Ltda.(1.956); Rissone & Giacone Ltda. - calderaria e equipamentos para indústrias cerâmicas (1.957); Irmãos Cascioli Ltda. depois Indústria de Móveis Vulcano Ltda. - móveis de madeira para cozinha (1.957); ASTRA S/A Indústria e Comércio - extrusão e moldagem de plásticos (1.958); Granja Barra Azul Ltda. (1.958); Vinícola Lavernô Ltda. (1.959); Frigorífico Guapeva Ltda.(1.959); VABEL Produtos Químicos S/A (1.959).*

Alguns relatos interessantes a respeito de imigrados italianos dessa época, confirmam muitas das conclusões que daqui tiramos. Domenico Bernacchioni ( * Asisi - Província de Perúgia - Umbria - 1.901), químico industrial, imigrou com a esposa e filha em 1.945, fugindo aos horrores da guerra. Não conseguindo fixar-se em São Paulo, veio para Jundiaí trabalhar na Indústria de Bebidas Pola-Pola da família Archiná. Tendo sua filha Nicolina casado com Roberto Picchi, filho de tradicional família de "macelai", fundaram a JUN-BRA em 1.954, contando com os conhecimentos e a competência do sogro e pai. Este relato nos foi feito por Roberto Picchi, nosso primo, já falecido.

Igualmente, Bruno Dodi ( * Piacenza - Emília - 1.922), torneiro mecânico especializado no Arsenal Militar de Piacenza, produtor de material bélico, imigrou em 1.948, na tentativa de alcançar melhores condições de vida e trabalho. Iniciou na Pirelli, em Santo André, trazendo em seguida o irmão Giovanni (Nino - * Piacenza - Emília - 1.924), que nos deu este testemunho. Após trabalharem na CINPAL em São Paulo, a partir de 1.95l, transferiram-se para Jundiaí em 1.953, onde montaram uma pequena oficina, produzindo na Rua Rangel Pestana, semi-eixos para caminhões.

Trouxeram depois outros irmãos, Giuliano, Marisa e Carlos e ampliaram ainda mais seu leque de produtos, fazendo então peças para carros importados americanos e depois para tratores. Ampliando suas instalações, por duas vezes, mas mantendo a empresa ainda na cidade, angariaram conhecimento e confiança do mercado no período da instalação da indústria automobilística. Adquirida a sede própria, partiram para franca expansão quantitativa e qualitativa de seus produtos, agora mais especializados na área de fabricação seriada e automática. Hoje, formam com um grupo alemão, importante estabelecimento fornecedor da indústria automobilística.

A Indústria de Calçados Elbena, tem origem na Itália, em Legnano, Província de Milão, de onde imigrou Mário Magaglio ( * Pietra Liguri - Ligúria - 1.932), que trabalhava em uma fábrica similar de nome "Graziella", vindo para o Brasil em 1.958, para implantar na nova sede na Rua do Retiro, o equipamento que havia sido enviado da Itália por Trolli e Ambrosetti, sob o regime dos incentivos fiscais concedidos pelo Governo Brasileiro. Inicialmente, a indústria havia se instalado como uma manufatura à Rua XV de Novembro, em 1.956.

Mais tarde, relata-nos Magaglio, transformou-se a empresa em S.A. e importaram-se em 1.964 novas máquinas, aumentando a capacidade e melhorando a qualidade dos seus afamados produtos. Mário Magaglio, é hoje, o Vice-Cônsul da Itália em Jundiaí.

Pietro Giacone ( * Asti - Piemonte), relata-nos que imigrou em 1.955, contratado para trabalhar como técnico mecânico (um bom exemplo de técnico especializado), na Máquinas Cerâmicas Morando, à Rua União. Em 1.957, montou sua própria empresa em sociedade com outro imigrado Nicola Rissone, na mesma área de fabricação de equipamentos para indústrias cerâmicas e caldeiraria, ficando sozinho a partir de 1.967, quando fundou a Giacone & Cia. Ltda.. Posteriormente, uniu-se ao Grupo Morando com a Morando S.A. Instalações Cerâmicas. Casou-se com filha de imigrantes da família Stella, do Bairro do Engordadouro.

Relata meu pai que, há mais de trinta anos, cultiva grande amizade por Filiberto Casciolli ( * Orciano - Província de Pesaro - Marche - 1.931), que em 1.954, imigrou com seu irmão Benedetto, para aqui montarem uma marcenaria. O pai de Filiberto, Giorgio ( * Poggio di San Giorgio - Fano - Província de Ancona), era marceneiro e legou aos dois filhos o ofício. Transformaram a pequena marcenaria da Av. Paula Penteado na Indústria de Móveis Vulcano Ltda. (1.957), localizada no Distrito de Várzea, hoje Município.

A família Picchi, já aludida, como atesta minha prima Ruth Picchi Piccolo, tem origem na imigração de Angelo Picchi ( * Porcari - Província de Lucca - Toscana ), imigrou em 1.894, tendo voltado à Itália em 1.898, para casar-se com Elide, de quem teve sete filhos. Na Itália, Angelo pertencia a uma família de "macelai", vindo a exercer e transmitir a todos os seus filhos tal ofício. Tendo todos eles montado açougues na cidade e mantendo uma invernada de engorda no bairro, que por isso levou o nome de Engordadouro, formaram uma sociedade que, em 1.959, tornou-se o Frigorífico Guapeva S.A., um dos maiores do Estado. É mais uma das provas da tendência dos imigrados em tentarem exercer seu ofício após a migração.

Na década de 60, o rítmo de ampliações de estabelecimentos que havia diminuído até 1.962, em parte devido às especulações imobiliárias e mesmo mobiliárias e, por outro lado, ao aumento do regime inflacionário, recrudesceu em razão dos anos de incerteza, 1.963 / 1.964, quando a instabilidade política das instituições ficou seriamente abalada, pela reação dos empresários e capitalistas ao ideário do Governo Goulart.

O período recessivo que se seguiu após o golpe militar, com um tratamento ortodoxo da economia, restringindo o crédito e os salários, reduzindo a capacidade de compra e empobrecendo o mercado interno, quase parou a expansão industrial.

Em Jundiaí, a situação não foi diferente, percebendo-se este fato pelo diminuto número de empresas que foram fundadas: Granja Betinha S/A (1.960); Cerâmica Barão Ltda. (1.960); Biasoto & Cia. Ltda. (1.961); Indústria de Cordas Primavera Ltda. (1.961); Retlaw Indústria Brasileira de Estampas Ltda. (1.962); Fábrica de Correias Universal Ltda. (1.962); Confecções EDAS S/A Indústria e Comércio (1.962); FIBRAS Embalagens Ltda. (1.962); Indústria de Bebidas Zazá Ltda. (1.968); Cerâmica Ermida S/A (1.968); Elacron Industrial Ltda. (1.969); Gráfica Horizonte Ltda. (1.969); Rupi Indústria e Comércio de Móveis Ltda. (1.969); Plásticos Weigand Ltda. (1.969); Indústria de Confecções Andori Ltda. (1.969).

Percebe-se claramente que houve algum progresso no início da década de 60 e um grande hiato formou-se nos anos imediatos à Revolução de 64. Os empresários somente retomaram novos investimentos nos últimos anos da década. Isto não quer dizer que as demais indústrias quedaram passivas pois, pela arrecadação municipal naqueles anos, percebe-se que houve aumento de arrecadação tanto de impostos municipais como estaduais e federais, contínuo e ascendente, descontada a inflação, conforme dados estatísticos municipais.

Pelo progresso que alcançou o município e o caloroso acolhimento de que sempre foram alvo, os italianos adotaram com o gáudio e o ufanismo que os caracterizam, o lema que laureia o Brasão de Jundiaí:

" ETIAM PER ME BRASILIA MAGNA "


(73) DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Imigração, Urbanização e Industrialização. Rio de Janeiro, Ministério de Educação e Cultura, Serv. de Documentação, 1.964. p. 347 - 355.

(74) DEAN, Warren. Op. cit. p.228 - 233

(75) GANZERT, Frederick W. Wartime Economic Conditions. In: Brazil. Organizado por Lawes F. Hill. Berkeley, Calif., 1.947. p. 313-314.

(76) DEAN, Warren op. cit. p. 243-244.

(77) Informações básicas sobre o Brasil. Rio de Janeiro, I.B.G.E., Laboratório de Estatística, n. 1.04 - 5.2. 2 p.

(78) DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Op. cit. p. 307 - 309.

(79) PEREIRA, José Carlos. Op. cit. 29 p.

(80) WERNECK SODRÉ, Nelson. Op. cit. 347 p. * Ver Apêndice: Indústrias em Jundiaí - 1.874 / 1.969

(81) DEAN, Warren. Op. cit. .p. 251 - 252.

(82) BAPTISTA FILHO, Olavo. Condicionamento geográfico da industrialização. In: Capítulos de História da Indústria Brasileira. São Paulo, Ed. Serviço Públi- co da Federação e Centro das Indústrias do Estado de S.Paulo, Co- leção "Forum Roberto Simonsen", 1.959. v.11, n. 9, 22 p..

(83) DIÉGUES JÚNIOR, Manuel. Op. cit. p. 250-253.

(84) PEREIRA, José Carlos. Op. cit. p. 31 - 32.

(85) CENNI, F.. Op. cit.. 409 p.

(86) VILLANI, André; VILLANI, J.; GRAPELLA, José. Jundiaí - Produção Agricola Industrial. Jundiaí, Editada por: Atlas dos Municípios Ltda, 1952. p. 9 - 10 .

(87) PEREIRA, José Carlos. Op. cit. p. 39 - 41.

(88) Ibid., op. cit. p. 44 - 47.

* Ver Apêndice: Indústrias em Jundiaí - 1.874 / 1.969.



 
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