|
|||||||||||||||||||||||||||||
|
Home » Vita Mia » Imigração e Industrialização nos Municípios Paulistas » Introdução
Estabelecer uma correlação entre os parâmetros da imigração e da industrialização no Brasil, para fundamentar o estudo a que nos propusemos, remete-nos, obrigatoriamente, a uma apreciação histórica, determinante das origens da industrialização; para que se possa avaliá-la com maior clareza e introduzir os objetivos mais específicos desse fenômeno, em décadas recentes, no município paulista de Jundiaí. Fundada em 1.615, é Jundiaí uma cidade industrial, que atravessou todos os períodos da nossa história sócio-econômica; da Colônia ao Reino e do Império à República. Há, portanto, por toda a parte, marcas desta evolução; muitas presentes até hoje, testemunhos arquitetônicos, históricos e de arraigada tradição, que o tempo não conseguiu apagar.(1) Foi "Praça de Bandeiras" que, da vila de São Paulo, para o norte, adentravam o interior do continente. Para o norte por que os que demandavam o oeste via Rio Tietê, partiam de Santana do Parnaiba. Ganhou os fôros de Vila em 1.655, com o nome de "Villa Fermoza de Nossa Senhora do Desterro do Matto Grosso de Jundiahy" (2), estendendo seus domínios da Serra dos Cristais (Franco da Rocha) às barrancas do Rio Grande (Igarapava) (3), hoje divisa com Minas Gerais. Nesse imenso território a Vila prosperou, de início, com os frutos do bandeirismo aventureiro e depois, com atividades de mineração, assentando-se, posteriormente, nas atividades agrícolas, entre os séculos XVIII e XIX. Teve sua agricultura sedimentada em função das atividades de organização de tropas de comércio e transporte provindas do sul e arregimentadas, ainda chucras, na região de Sorocaba. Tal atividade, que refloresceu a decadente Vila no final do século XVIII e início do século XIX, a priori, acrescida da produção de cereais e feijão, a que se juntava o comércio de sal e ferramentas, trazidos do litoral, via São Paulo, tornando-a um "porto seco" para fomentar a abertura e prover a manutenção das fazendas que se formavam ao norte, no interior. Da agricultura de sustentação, passou-se à cana-de-açúcar, consequentemente, para os engenhos de mascavo, melaço, rapadura e pinga e, depois, ao algodão, utilizando as férteis terras planas ao norte do Rio Atibaia, na "freguezia de Campinas" e pelos descampados de Indaiatuba, tendo por mão-de-obra, o negro escravo que refluia da decadência das atividades de mineração. A acumulação de capital, decorrente de atividades tão importantes, num período de transição econômica, como foi aquele, colheu os Jundiaienses em madura situação para assimilar, pioneirísticamente, a implantação do café que já tomara todo o Vale do Paraíba, vindo do Rio de Janeiro; onde se instalara a Côrte em 1.808. Esse último evento teve grande repercussão em Jundiaí, pois o patriarca de uma geração de jundiaienses, Antônio de Queiroz Telles, português do Minho, precursor dessa expansão agrícola, a partir da Vila até o sertão de Mogi dos Campos, atual Mogi-Mirim, havia constituido tradicional família com Dna. Ana Joaquina da Silva Prado, de ilustre família Paulistana, tornando-se Guarda-Mor da Vila e legando aos herdeiros de sua morte prematura, útil relacionamento com a Côrte Real, que no Brasil se instalara. Seu único filho, também Antônio de Queiroz Telles, tornou-se mais tarde o Barão de Jundiaí, latifundiário, a quem pertenceram magníficas fazendas, como o Sítio Grande, São Luiz, Buritís, Boa Vista, Bahia, Santa Gertrudes, e outras, seguiu-lhe os passos obstinadamente. Introdutor do café em toda a região, no início do século XIX, segundo relato feito a meu pai, por sua neta Da. Francisca Setembrina de Queiroz Telles, foi o Barão inconteste líder, ocupando os mais relevantes cargos e chegando, como Deputado, à Presidência da Assembléia Provincial, quando conseguiu ver realizada sua idéia da construção de uma estrada carroçável entre Jundiaí e Santos que, posteriormente estendeu, ele mesmo, até Campinas e, por meio da qual, em 1.846, recebeu em Jundiaí o Imperador Dom Pedro II. (4) Dentre seus treze filhos, destacaram-se o Barão do Japy e o Conde de Parnaíba, este último também batisado Antônio de Queiroz Telles, o qual, com sua rara cultura e o descortino herdado do pai, soube prever, na evolução econômica cafeeira, a necessidade da substituição do braço escravo pelo imigrante, sendo hoje considerado o "pai da imigração italiana no Brasil ". Segundo Franco Cenni, "Nesse movimento destacou-se atuação do Sr. Antônio de Queiroz Telles, Visconde do Parnaíba, que em 1878, sendo Governador da Província de São Paulo, percorreu vários países estudando o assunto, optando, afinal, pela imigração italiana. Constituida, sob sua presidência, com a Sociedade Promotora de Imigração, em 1886, teve início, então, em larga escala, a entrada no Brasil, e em particular em São Paulo, dos imigrantes Italianos" (5). Vê-se, portanto, que Jundiaí está históricamente ligada ao fenômeno imigratório, não só porque idéias de transformação do sistema agro-produtivo brasileiro alí eram cultivadas, como também, porque em Jundiaí se instalou um dos primeiros núcleos coloniais italianos oficiais de que se tem notícia no Brasil, qual seja o "Núcleo Colonial Barão de Jundiaí" (1.886), localizado na "Fazendinha", de propriedade do Barão, atual bairro da Colônia e onde, até hoje, vivem e cultuam velhas tradições, inúmeras famílias de origem peninsular. Como a expansão do café só se deu em Jundiaí após 1.838 (6), chegando a alcançar 2 milhões de kg anuais em 1.887 (7), no intervalo de tempo que aí decorreu, a Vila manteve sua tradição de "Porto Seco" não se afastando porém, seus filhos ilustres, das velhas idéias do Barão. Foram também alguns Jundiaienses, em especial a Baronesa do Japy, grandes incentivadores da construção de uma estrada de ferro que a ligasse ao porto de Santos, o que teve o Barão de Mauá por patrono e idealizador. Realmente, a "Estrada da Boiada" (caminho paralelo à Estrada velha de São Paulo a Campinas, construída pelo Barão) , com a expansão da atividade do equipamento das tropas em Jundiaí, não conseguia mais satisfazer às necessidades do intenso movimento de cargas, gado e pessoas que se registrava para o interior e para o litoral, função da expansão da agricultura cafeeira na região Mogiana. Em 1.860, os ingleses iniciaram a implantação deste importante empreendimento que atingiu Jundiaí, a partir de Santos, em 1.867, por meio da São Paulo Railway Company. Novamente o espírito empreendedor paulista, no qual se inseriam muitos Jundiaienses notáveis, manifestou-se. Fundava-se a Cia. Paulista de Estrada de Ferro. Em 1.872 os trilhos, partindo de Jundiaí, atingiam Campinas e as oficinas da Companhia, posteriormente, vieram a ser instaladas em Jundiaí, em virtude de grave epidemia de febre amarela ocorrida em Campinas (1.892). Além da ferrovia, o fato das oficinas da Cia. Paulista de Estradas de Ferro para aí terem sido transferidas, foi de capital importância na atração de engenheiros, técnicos, mecânicos e operários de metalurgia que, acabaram por se fixar na cidade. Jundiaí beneficiou-se dessa ânsia de progresso que emulava o imigrante italiano o qual, amealhando algum capital, tentava emancipar-se do colonato. Tanto o oriundo do norte da Itália como o meridional, encontraram quer na indústria quer na viticultura nascentes, campo para realizar seus sonhos de independência. Dessa forma, enquanto alguns dedicaram-se às granjas, às vinhas, à pecuária de leite, à criação de porcos e cabras, à produção de derivados de leite e carne, à fruticultura, às olarias, ao beneficiamento do café, outros, na cidade, montavam pequenas manufaturas, ou se associavam aos capitalistas e fazendeiros para criar indústrias com a experiência e o conhecimento que possuíam, herança de sua origem, como veremos no segundo capítulo. A partir de 1.912, dado o avanço para terras mais férteis, o café não se ampliou na região de Jundiaí, aperfeiçoando-se seu cultivo para aumentar a produtividade que chegou ao máximo de 50,8 arrôbas por mil pés em 1.921(8), permanecendo sua extensão abaixo dos 8 milhões de pés até a crise de 1.929. Rescaldados, os fazendeiros que se salvaram daquela verdadeira hecatombe financeira, atiraram-se à luta para reter em suas mãos o domínio econômico que desfrutavam, adquirindo pequenas indústrias, fundindo umas às outras, criando empresas de maior porte, financiando pequenos empresários, como veremos. São dessa fase as Fundições Esperança (Fioravanti) e Brasil (Dal Santo), Jundiaí Retífica de Motores, Cerâmicas Jundiaiense, São Pedro e Vila Rami; Irmãos Pellicciari, Vinhos e Bebidas Caldas, Viti-Vinícola Cereser, Estabelecimento Enológico De Vecchi, Antonio Borin, Cia. Fiação e Tecelagem Fides, as Indústrias Francisco Pozzani e Andrade Latorre, todas de renomada tradição na cidade. Cessára o fluxo imigratório mas não cessou o trabalho daqueles que, no afã de alcançarem status social e financeiro, aprenderam a reproduzir o capital e, aproveitando a recessão e a inaplicada legislação trabalhista da era Getuliana, exploravam o veio fácil da mão de obra barata e abundante dos nordestinos que principiavam a migrar com intensidade crescente. Sobreveio a esse quadro a II Guerra Mundial e, às dificuldades de importação inerentes somaram-se o estabelecimento do sistema seletivo de importações e a criação da Cia. Siderúrgica Nacional, importante passo no sentido de fomentar a expansão das indústrias metalúrgicas e mecânicas que passaram a independer da importação de matéria-prima. As indústrias alimentícias encontram em Jundiaí uma horti-fruticultura desenvolvida fundando-se a CICA, gigante do ramo, seguida da Paoletti, depois a Vigorelli (máquinas), Yamashita (implementos agr.), Cidamar, Prel e Anhanguera (cerâmica), Theoto (palitos), Manah (adubos) . Cessado o conflito, renasce a imigração e novamente Jundiaí é escolhida por grande parte daqueles que vinham tentar melhor sorte na América. De modo geral eram operários especializados, técnicos, muitos com algum capital ou, vasta experiência. Confirmando as teorias da concentração industrial, Jundiaí a partir de 1.950 passa por um verdadeiro surto de industrialização, objeto deste trabalho, onde a mão e a inteligência do imigrante italiano foram essencial ferramenta. Este trabalho é uma pesquisa nessa época e nesse espaço da Nação Brasileira.
(1) FRANCO BUENO, Roberto & MONTEFERRANTE NETO, Eugênio. Villa Fermoza de Nossa Senhora do estêrro de Jundiahy. Monografia apresentada à Cadeira de Arquitetura no Brasil, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da U. S. P. (inédito). Jundiaí, l.957. 10 p. (2) Ibid., op. cit. 1 p. (3) OLIVEIRA, Antonio Raymundode. Fronteiras Municipais de Jundiaí. Jundiaí, Agência Estatística da Prefeitura Municipal de Jundiaí, s.d.. 3 p. (4) PONTES, Alceu de Toledo. O Barão de Jundiaí. Jundiaí, ed. Ex Libris do A., 1.970. 6 p. (5) CENNI, Franco. Italianos no Brasil. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1.958. 164 p. (6) INGLEZ de SOUZA, J. S.. Sinópse da Agricultura em Jundiaí. Jundiaí, Soc. Viti-Vinícola e Rural de Jundiaí, 1955. 21 p. (7) RELATÓRIO ANUAL DA COMISSÃO CENTRAL DE STATÍSTICA DA PROVÍNCIA DE SÃO PAULO. Tomo 21, 405 p. (8) EGAS, Eugênio. Os Municípios Paulistas. Publicação Official, São Paulo. Secção de Obras d'O Estado de São Paulo, 1.925. 1013 p.
|
| |||||||||||||||||||||||||||