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VITA MIA
Arquitetura, Paisagem e Urbanismo

Cada homem é filho de seu tempo e a sua expressão é a expressão desse tempo
Lasar Segall (1890 - 1957).

CONSTRUINDO A PAISAGEM


Moinho com roda d'água

Região colonial italiana do Rio Grande do Sul.

A influência dos italianos transformou-se no marco cultural que delimitou algumas fronteiras no Brasil. Quem viaja pelas áreas rurais dos estados meridionais do país, principalmente do rio Grande do Sul, percebe o delineamento de autênticos territórios étnicos. São espaços ligados à ocupação de extensas pradarias pelas diferentes correntes Imigratórias, das quais se destacam a alemã e a italiana.

O imigrante italiano chegou àquelas paragens depois do alemão. Por isso, teve de enfrentar regiões onde a natureza era mais hostil e a terra menos fértil. O italiano começou exatamente onde os alemães pararam sua marcha de povoamento. Assim, em condições muito adversas, os italianos ocuparam as terras e as defenderam de tudo. Lá deixaram as marcas de suas tradições culturais tanto nos sítios cultivados como na paisagem arquitetônica.

Família Postali inaugurando sua casa em São Martinho, no Sul, em 1920.
O espaço que antes era da natureza foi conquistado pelo imigrante e passou a ser cultivado com a videira, o trigo e o vime. Da uva e do trigo fizeram o pão e o vinho, binômio indispensável na mesa do italiano. Do vime fabricaram, de início, os utensílios domésticos, depois, o artesanato e, finalmente, os produtos na linha industrial e comercial.

A paisagem construída por esse tipo de agricultura, ainda que seja mais nítida naquelas áreas, a elas não se limitou. Em São Paulo, mais especificamente no oeste paulista, o horizonte do campo foi alterado com o cultivo do trigo, introduzido por imigrantes vindos após a Segunda Guerra Mundial. O trigo era de tal forma associado à Itália, que um agricultor descreveu certa vez: "Eu espero chegar a época do frio, para ver o trigo nascer e crescer. Aqui do espigão de cima, olho o vento que ondula o trigo, no fim da tarde. Tenho a impressão de que estou na minha terra, nem parece que estou aqui na Pedrinhas (núcleo de colônia italiana). Gosto mais da Pedrinhas depois que comecei a plantar trigo e a ver o trigo daqui".

Antes, no século anterior, nas lavouras de café, o colono limitava-se a cuidar da rubiácea e de uma essencial agricultura de subsistência. Nesse esquema, não havia lugar para o trigo nem para a vinha, só para o milho, com o qual famílias do Norte da Itália preparavam a polenta. O imigrante italiano libertou-se da estrutura colonial e, em vez do trigo, passou a dedicar-se à produção da uva e do vinho. Isso se deu por exemplo em áreas próximas de São Paulo, na região de Jundiaí e de São Roque, e também nas fronteiras de São Paulo com Minas Gerais (região de Andradas).

Imigrantes italianos exibindo a farta safra de uvas. Caxias do Sul (RS).
Os costumes de todos os cantos da península eram transplantados para o Brasil. Na construção de moradias, nas colônias do Sul, os imigrantes usavam modelos de casas da Itália, utilizando, porém, o pinho - a madeira da região - , pintado de várias cores. Os telhados eram bastante inclinados, como se aguardassem uma nevasca. A precaução do colono com a neve - uma velha conhecida - revelou-se desnecessária num país tropical como o Brasil.

O estilo das casas também pôde ser visto na nova paisagem urbana que se formou. Os operários, sobretudo de São Paulo, fizeram construções e casas simples, modificando o cenário de vários bairros paulistanos. Os locais eram pouco valorizados na época e formavam aglomerações que ficariam conhecidas como "bairros italianos" de São Paulo: Pari, Bom Retiro, Barra Funda, Bexiga, Cambuci, Moóca e o mais italiano de todos, o Brás, mais tarde quase completamente descaracterizado com a construção da linha do metrô. Em 1975 foram demolidas 944 casas, eliminando 28 ruas do bairro.

O velho bairro, porém, ainda guarda traços importantes da cultura italiana, apesar de muito ter perdido ao longo do tempo. "Era uma casa velha, um palacete assobradado / Veio os homens com as ferramenta, / o dono mandou derrubar" - como na letra de Adoniran, o bairro, aos poucos, perdeu muito de suas características.

Visto do Brás; ao fundo, prédio do Moinho Matarazzo.
A identidade, ou marca italiana desses bairros, é reforçada por uma infinidade de logradouros públicos que evocam o imigrante e seu país de origem. As ruas foram sendo abertas e, em várias delas, o reconhecimento à presença da península, como as ruas dos Italianos, Passalacqua, Veneza, dos Alpes, Príncipe de Nápoles, Nova Trento, Lombardi, etc. Esses e outros logradouros - por exemplo, a rua Barra Funda - foram abertos pelos próprios imigrantes. E nesse redesenhar urbanístico, quase indisciplinado, tem papel de relevo o italiano que, de mestre e pedreiro, se transforma em construtor profissional.

Esses construtores encheram de casas quilômetros de ruas em poucos anos. Na rua Barra Funda, somente em 1895, Tellini, Marzo, Milanese, Pietro de Lorenzi, Antônio Reggio, Domênico Sordini, Giuseppe Rinato, Gorgatti e Salvatore Giacomo construíram várias casas. Sordini construiu quase toda a rua Adolfo Gordo. O mesmo ocorreu com muitas outras ruas, até mesmo fora dos bairros italianos.

O Arquivo Histórico da Prefeitura de São Paulo documenta, entre 1888 e 1897, o grande aumento de pedidos de permissão para novas construções. Do total, que perfaz quase cinqüenta volumes, mais de dois terços são assinados pelos italianos.

Rua João Alfredo, no bairro italiano da Mooca, São Paulo, s/d.
A nova cara da cidade, esse novo mapeamento do país, encontra-se também nas áreas meridionais do Brasil. Um cronista da época comentou: "Não é de admirar, assim, que, ao lado de Nova Milano (atual distrito de Farroupilha), surgissem Vicenza Velha (zona de Farroupilha); Monte Vêneto (atual Cotiporã); Nova Bassano (distrito de Nova Prata); Nova Belluno (município de São Francisco de Assis); Nova Bérgamo (povoado de Alfredo Chaves); Nova Bréscia (povoado de Lajeado); Nova Itália (povoado de Lagoa Vermelha); Nova Trípoli (povoado de Carazinho); Nova Pádua (distrito de Caxias); Nova Pompéia (distrito de Bento Gonçalves); Nova Sardenha (estação e povoado em Caxias); Nova Roma (povoado de Antônio Prado); Nova Trento (distrito e povoado em Caxias); Nova Udine (vila de Júlio de Castilhos); Nova Treviso (povoado de Antônio Prado); Nova Torino (município de Caxias); Novo Tirol (município de Taquara); Nova Veneza (município de Caxias); Nova Vicenza (antigo povoado em Caxias)".

A maioria dos nomes dos povoados, que evocavam antigas cidades da Itália, foi mudada com o decorrer do tempo, enquanto permaneciam intactos alguns nomes que lembram povoadores italianos: Pertile (povoado e estação em Cachoeira); Meneguetti (povoado e estação em Passo Fundo); Vanini (povoado em Guaporé); Langaro (colônia em Passo Fundo). No município de Farroupilha se situam os povoados de Nossa Senhora de Monte Berico e Nossa Senhora de Caravaggio.

As edificações da zona rural da serra gaúcha foram construídas em harmonia com a paisagem e refletem uma tecnologia européia, trazida pelos imigrantes


POUCO ESTILO E LINHAS TORTAS

Ruínas de São Miguel, em Sete Povos da Missões, no Rio Grande do Sul.
A presença italiana no Brasil teve seu início no século XVII. Brazanelli e Promoli seriam os responsáveis pelos primeiros sinais da presença de construtores de origem italiana em terras brasileiras. Esses sinais estão representados pelas ruínas das chamadas "reduções" jesuíticas em várias áreas e municípios do Rio Grande do Sul. Nesse quadro, destaca-se as grande Catedral de São Miguel, na capital dos sete povos.

A partir dos sec. XVIII, a arte e artistas italianos estiveram, também , ligados às atividades guerreiras da colônia. A Fortaleza do Príncipe de Beira, no Rio Guaporé, divisa com a Bolívia, capitania de Mato Grosso, foi construída por Domingos Samboceti e projetada por Giovanni Gallucci. O mesmo Gallucci dirigiu a construção da Fortaleza de São José do Macapá, às margens do rio Amazonas.

Em Belém, o arquiteto Antônio Giuseppe Landi desenhou e construiu as igrejas Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora de Santana e a de São João Batista, bem como o Palácio do Governo.

Nesse mesmo século, Jacomé Antônio Barca contribuía com a arquitetura da Bahia.

No século seguinte, porém, é que arquitetos, engenheiros, construtores, mestres e pedreiros entraram em grande escala na cena Brasileira.

A verdade é que havia tudo por fazer, por isso toda iniciativa era muito bem vinda. A Princesa Isabel captou muito bem essa realidade e registrou em seu diário. Depois de uma viagem que fez a São Paulo, em 1884, apurou a pena para descrever a impressão que teve: "Nenhuma arquitetura e muita linha torta".

Chácara do Carvalho, da família Prado, em São Paulo. Construída no ano de 1891, com projeto de Luigi Ducci.
Quase dez anos antes, o Código de Postura, de 1875, tentava impor uma disciplina às construções da cidade. Com isso, naturalmente, o objetivo era reorganizar um pouco a sinuos do traçado urbano. Pelo que se deduz do diário da princesa, o código não tivera grande êxito. Mas também não se pode afirmar que foram os imigrantes italianos os únicos responsáveis pelo pouco que se conseguiu.

Melhor que isso, não pode negar o papel que desempenharam, até mesmo nos arruamentos de bairros que então surgiam. Este é apenas um lado da moeda: o lado da paisagem construída pelos menos afortunados. O outro lado dessa mesma história mostra o vigor de construções bem elaboradas, feitas por arquitetos, engenheiros, construtores, mestres de obra. Tornava-se nítida a colocação do conhecimento, da arte e da técnica a serviço da grande remodelação urbanística da cidade de São Paulo e até do interior do estado.


Palacete de 1910 nos Campos Elíseos, bairro de São Paulo que já foi exemplo da remodulação urbanista da cidade no início do século.

Palácio do Governo do Estado de São Paulo (c. 1900), também conhecido como Palácio dos Campos Elíseos.

Chácara Dona Veridiana, no bairro de Higienópolis, em São Paulo (1910).
Esse contingente de especialistas atuava a serviço da alta burguesia, representada por famílias imigrantes enriquecidas, os novos-ricos da época, e famílias tradicionais brasileiras. Exemplos dessa fase áurea da produção arquitetônica não faltam. A Chácara do Carvalho e palacetes nas ruas Dona Veridiana e Antônio Prado, da Família Prado; a residência dos Matarazzo, no ponto mais nobre da cidade, a avenida Paulista; prédios nas então elegantes ruas Florêncio de abreu e Brigadeiro Tobias; as mansões e as fábricas no bairro da Moóca, da família Crespi; o velho, porém famoso, edifício Martinelli, que na época (1929) desafiou os padrões da construção vigentes no país.

O monumental prédio Martinelli, no centro velho da capital paulista, é considerado um dos marcos da arquitetura de São Paulo. Em sua época foi uma prova de ostentação, digna apenas de um apaixonado pela construção, Giuseppe Martinelli. Um amigo disse certa vez: "Ele tinha vocação para pedreiro ou arquiteto". O certo é que Martinelli, destacado nome na área imobiliária paulista de então, ergue o prédio e depois se mudou para o Rio de janeiro. Lá, misturando linhas da arquitetura florentina e mourística, enriquecida por um toque dos palazzi de sua terra natal, Lucca, ele fez sua casa. Havia uma lenda de que uma cigana teria previsto certa vez que, quando terminasse a obra, Martinelli morreria. Talvez por isso, talvez pela pura paixão pelos tijolos, Martinelli entrava e saía de reformas contentemente. Pareceria levar a sério a tal profecia. Ele morreu aos 77 anos de idade e ainda havia pedreiros em sua casa.


Interior da Chácara Dona Veridiana, atualmente onde se vê uma escultura de Brecheret.

Edifício Martinelli, visto da rua Formosa, São Paulo, 1933.

A essa lista deve-se acrescentar o prédio construído pelos Matarazzo na praça do Patriarca, assinado por Marcello Piacentini, o arquiteto "oficial" do fascismo de Benito Mussolini.

CONSTRUÇÃO COM INDEPENDÊNCIA
Tommaso Gaudenzio Bezzi, auotr do projeto do Museu do Ipiranga (c.1890), atual Museu Paulista.
Tommaso Gaudenzio Bezzi, Luigi Pucci, Giulio Saltini, Giulio Micheli, Bianchi Bertoldi, Bertolotti, Giuseppe Chiappori, Cláudio Rossi, Domiziano Rossi, Giovanni Battista Bianchi. São esses, entre dezenas, os principais nomes que marcam a fase tradicional da arquitetura italiana no Brasil. Alguns desses arquitetos e construtores têm seus nomes ligados a construções que se tornaram autênticos na paisagem urbana de São Paulo:

- Museu do Ipiranga, o símbolo da brasilidade (Bezzi e Pucci).
- Teatro Municipal, oficialmente construído sob a responsabilidade do escritório de Ramos de Azevedo (Domiziano Rossi e Claúdio Rossi, este o mesmo que anos mais tarde, por encomenda do Rei de Portugal, iria construir o Teatro Dona Amélia, em Lisboa, hoje Teatro da República.
- Pavilhão Central e Capela de Santa Casa de Misericórdia (PUC e Micheli).
- Viaduto Santa Efigênia (Giuseppe Chiappori) e Igreja de Santa Cecília (Micheli).
- Banco Francês e Italiano para a América do Sul, cópia do Palazzo Strozzi, de Firenze (Micheli e Chiappori).
- Hospital Humberto I (Sattini e Binchi).
- Palácio da Justiça, cópia do Palácio da Justiça de Calderini, em Roma (Ranzini e Domizizno Rossi).
- Palácio das Indústrias - antiga Assembléia Legislativa do Estado e hoje sede da Prefeitura Municipal, inspirado no Castello Sforzesco, com ascentos mouriscos (Domiziano Rossi).

Nessa expressiva relação de edifícios públicos, que deixa clara a notável contribuição italiana para o desenvolvimento e valorização da cidade, cabe destacar o Liceu de Artes e Ofícios, de São Paulo. A instituição foi fundada em 1873, por Leôncio de Carvalho, como Sociedade Propagadora da Instução Popular. Em 1895, o famoso arquiteto Ramos de Azevedo foi eleito diretor do já chamado Liceu das Artes de Ofícios. Além de transformá-lo em instituição-mestra da instrução pública profissional e enriquecê-lo com inclusão de novas disciplinas, Ramos de Azevedo tomou a iniciativa de construir um grande prédio próprio, em 1900. A tarefa coube a Domiziano Rossi que, juntamente com Claudio Rossi, passou a sócio do conceituado Escritório Ramos de Azevedo, cuja marca perdura de foram expressiva na história da arquitetura da capital paulista.

Palácio das Indústrias, em São Paulo, ainda em construção (1922): projetado para abrigar as exposições da indústria paulista. Projeto de Domiziano Rossi.
Durante um quarto de século, Domiziano Rossi foi professor do Liceu de Artes e Ofícios e grande incentivador de vocações. De Rossi sairia a influência italiana sobre numerosos projetos de edifícios particulares e públicos que foram surgindo durante quase todo o período que engloba as primeiras três décadas deste século. Por sua vez, o Liceu preparava a mão-de-obra especializada que iria erguer e decorar essas construções, interna e externamente. O Teatro Municipal de São Paulo expressa de maneira eloquente essa associação de arquitetos, artífices e operários, só possível com o concurso do Liceu e dos italianos.

A Participação e a importância de artistas e técnicos italianos, imigrantes ou não, era tão acentuada que Ramos de Azevedo, em 1921, declarou: "Revelarei o concurso de italianos, cuja imigração para o nosso estado tem sido mais numerosa e porque constituem a maior comunidade de artistas de todas as artes. Entre eles e seus descendentes tenho encontrado os meus melhores auxiliares de todos os misteres; e seria injusto se não salientasse a sua notável colaboração no desenvolvimento e aperfeiçoamento dos processos e artes de construção".

A arte de construir dos italianos ia além de projetar edifícios. Assim, Puzzi traçou e construiu ruas, galerias e canais no centro e na outra periferia da cidade. Bianchi Bertoldi, que participou em 1885 do concurso para a construção do Monumento da Independência - vencido por Bezzi, foi nomeado diretor, por concurso, da seção de obras da Prefeitura de São Paulo. É de sua autoria, por exemplo, o projeto de sistematização da atual Vila Romana.

Palácio das Indústrias, já finalizado: antiga Assembléia Legislativa do estado e hoje sede da Prefeitura Municipal.
Bertolotti, engenheiro italiano exilado, sucedeu a Bertoldi nessa função. Contratado pela família Pugliesi, construiu na fazenda do contratante, em Piracicaba, fábrica de cerâmica, casas, escolas e até estradas de ferro.

Ainda em São Paulo, os arquitetos e engenheiros italianos estiveram bastante ligados a um projeto educacional popular da Primeira República. A idéia previa a construção de prédios escolares na capital e interior. Cerca de 170 edifícios foram erguidos entre 1890 e 1920. De uma relação de 123 prédios, sessenta foram assinados por profissionais italianos. Nesse período, que se convencionou chamar de tradicional, italianos e seus descendentes foram retocando a paisagem brasileira em várias regiões: Amazonas, Pará, Ceará, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo e, principalmente, Rio de Janeiro.

Desde meados do século XIX havia na capital do Império, depois da República, uma pequena colônia de italianos, com expressivo número de artífices e artistas ligados à construção. Eram pedreiros a e carpinteiros, pintores, escultores e arquitetos. Essa gente representava o que havia de mais refinado nesse campo e isso se irradiava na Corte imperial. Foi desse reduto que saíram os arquitetos Farani, Fagliani, Rebecchi, Janusi e Fratelli, Santoro, Ballarini, Bosisio, encarregados de dar um toque de renovação ao já esplendoroso cenário carioca. Eles foram os responsáveis pela abertura dos bairros do Catumbi, pelo arruamento do então aristócratico bairro do Botafogo; pela abertura das grandes avenidas da cidade, como a avenida Central. Além de inúmeras escolas, construíram o matadouro de Santa Cruz, o Clube de Engenharia, o Campanário da Catedral, o, Edifício Garnier, os chamados palácios Guinle, Madame Simonard e José Paranaguá. No Estado de São Paulo, construíram a Companhia Docas de Santos.

Inauguração, em 1895, do Museu do Ipiranga, atual Museu Paulista (São Paulo).

Compunha esse grupo Tommaso Gaudenzio Bezzi, que projetou a sede do Banco do Comércio, o Clube Naval e novas alas do edifício Itamarati. Por reconhecer os méritos de seus trabalhos no Rio, Bezzi foi qualificado em 1882 pela comissão para o Monumento à Independência Brasileira como "arquiteto residente na Corte de reconhecido merecimento artístico". E nessa condição se viu encarregado de projetar o futuro Museu do Ipiranga, atualmente Museu Paulista, da Universidade de São Paulo.


O LEGADO DE LINA BO BARDI

Lina Bo Bardi no jardim da casa de vidro.

Quando se fala em arquitetura moderna no Brasil, não se pode falar de "arquitetura italiana", mas de "arquitetura de italianos". Nessa fase não há mais uma linguagem arquitetônica comum a todos os países, expressa por italianos. Três nomes pelo menos se destacam nessa linguagem universal: Gregori Warchavchik, Rino Levi e Lina Bo Bardi.

Warchavchik é o nome símbolo, com sua casa símbolo a casa modernista, que inaugura a presença italiana na moderna arquitetura abrasileira. Russo de nascimento, radicou-se no Brasil depois de concluir os estudos em Roma, onde foi aluno e depois assistente de Marcello Peiacentini e de Giovannoni. Paiacentini, vale recordar, é o mesmo que projetou a sede das Indústrias Matarazzo e influenciou a arquitetura monumentalista, característica de muitas obras em São Paulo, da qual é exemplo o Palácio dos Bandeirantes, no Morumbi. Warchachivk, além de arquiteto, encarregou-se, na década de 20, de divulgar no país os princípios da nova arquitetura. Nesse trabalho de convencimento e de autêntica catequese causou grande polêmica. Certamente foi este o seu grande papel, o que ligou, embora com alguns anos de atraso, ao movimento renovador da cultura brasileira, expresso simbolicamente pela Semana de Arte Moderna , em 1922, na capital paulista. Em 1972, o primeiro curso de férias da Universidade de São Paulo, ministrado no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), foi decicado às comemorações do cinquentenário da Semana. Dando seus depoimentos, participaram do evento os remanescentes desse movimento: o educador Fernando de azevedo, o irreverente arquiteto Flávio de Carvalho, o poeta Menotti del Picchia, o pintor Di Cavalcanti e o pioneiro Warchavchik.

Pietro Maria Bardi (à direita), em visita às obras do MASP.
A narrativa de sua luta pela renovação da arquitetura está nos arquivos do IEB. Para os que viram e ouviram a figura simultaneamente enérgica e doce de um octogenário que ao concluir a sua história de dedicação à arquitetura e às suas idéias, deixou a última frase dirigida especialmente aos jovens: "Lembrem-se de que o que vale, acima de tudo, é o amor ao que se faz".

Como Warchavchik, Rino Levi - filho de italianos nascido no Brasil - foi aluno de Piacentini e também de Del Debbio e Foschini. Ainda como Warchavchik, participou ativamente da divulgação e defesa da arquitetura moderna no país. Entre suas obras mais conhecidas estão o prédio Columbus, o cinema Art Palácio, o Edifício Sarti, o Instituto Sedes Sapientiae, a Casa do Arquiteto e o famoso Teatro Cultura Artística, em São Paulo. Pelo menos nessas três últimas criações pode-se surpreender uma espécie de "clima italiano". O Sedes Sapientae, já demolido, fazia lembrar, em seus interiores, claustros, aldeias e fundos de casa das pinturas do Quattrocento. A casa do arquiteto ostenta atrás de muros contínuos sois pátios de influência mediterrênea. A sala principal do Teatro Cultura Artística reproduz, nos lugares dispostos em amplos semicírculos, na ausência de elementos decorativos ou cromáticos, nas escadarias de acesso, a severidade dos antigos teatros romanos.

Casa Modernista, na Rua Santa Cruz, Vila Mariana, São Paulo. Projetada por Warchavchik em 1927, inaugura a presença italiana na arquitetura moderna brasileira.
Lina Bo Bardi ao chegar no Brasil em 1946 trouxe, além do diploma de arquiteta, obtido em Roma, recheado currículo, ligado principalmente à editoração e decoração. Em sua pátria co-editou a revista Domus, fundou e dirigiu os Quaderni di domus e e revista Architettura A. A última juntamente com os colegas Bruno Zevi e Mário Pagano.

No Brasil Lina dirigiu a revista Habitat e fundou, com o arquiteto Giancarlo Palanti, o Estúdio de Arte Palama, dedicado a projetar e a produzir design dentro de uma tradição arte-utilidade, que a Itália tanto cultiva e da qual se orgulha.

No campo específico da arquitetura de edifícios, Lina deixou suas contribuições às paisagens paulistanas com casa residenciais no Pacaembu e Morumbi, além de projetos de duas obras não executadas: um edifício que abrigaria as Emissoras Associadas e um conjunto popular, formada de 1500 células-apartamento.

Lina Bo Bardi tem, porém, seu nome definitivamente associado ao projeto e à refinada decoração de interiores do Museu de Arte de São Paulo (MASP), do qual seu marido, Pietro Maria Bardi, foi idealizador e diretor. Erguido no topo da avenida Paulista, sobre o túnel 9 de Julho, o museu é conhecido como o "maior vão livre de cimento armado da América Latina". No projeto, a arquiteta preservou o belvedere Trianon, de onde se contemplam retoques que italianos e seus descendentes deram à paisagem de são Paulo.

Museu de Arte de São Paulo: o "maior vão livre da América Latina".



 
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