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VITA MIA
Da Colônia ao Império

Como a República era bela sob o Império!

Alphonse Aulard (1849 - 1928)

HOLANDESES BATEM EM RETIRADA
A história do Brasil colonial pode ser dividida cronologicamente em três períodos muito desiguais entre si: o primeiro vai do descobrimento, da chegada de Cabral, à instalação do governo geral, em 1549; o segundo é um longo lapso de tempo entre a instalação do governo geral e as últimas décadas do sécolo XVIII; e o terceiro, dessa época à Independência do país, em 1822. Foi no segundo período que se registraram as tentativas, às vezes sangrentas, da consolidação do sistema colonizador.

Segundo os historiadores, ao lado de embates costumeiros com os "donos da terra"- os indígenas - , é nesse período, mais precisamente no século XVII, que aconteceram os maiores conflitos político-militares da Colônia: as invasões holandesas. Embora concentradas no Nordeste - notadamente na Bahia e Pernambuco - , a posse da terra não se resumia a um mero episódio regional. Ao contrário, fizeram parte do quadro de relações internacionais entre os países europeus. Por trás da luta havia uma acirrada disputa econômica, a luta pelo controle do açúcar e das fontes de suprimento de escravos.

Como resultante da crise sucessória entre as coroas portuguesa e espanhola e que pôs fim à dinastia dos Avis, em 1580, o Brasil estava sob o jogo da Espanha, quando os holandeses se aventuraram em ocupar parte da colônia. Na reação à ocupação, além de gente da terra, estavam engajados na linha de frente homens e recursos bélicos portugueses e espanhóis. É nesse cenário de guerra que aparecem como aliados os italianos.

A brava gente não se intimidou e participou da maioria dos combates aos invasores. Na esquadra composta por sessenta navios (alguns historiadores registram 52 barcos) que viera auxiliar o bispo D. Marcos Teixeira na sua resistência aos holandeses, havia quatro embarcações napolitanas e um regimento, formado no Vice-Reino de Nápoles, sob o comando de Carlo Andrea Caracciolo. Comandava a esquadra napolitana o Marquês de Creponi, que tinha entre seus chefiados Muzio Oreglia, Michele Di Pontecorvo e Giovanni Vicenzo Sanfelice, mais tarde conde de Bagnuoli.

A Bagnuoli coube, além de atividades guerreiras - chefiar o exército que combatia a invasão dos holandeses - , a tarefa diplomática de concluir as negociações que conduziram ao fim do conflito e à mudança da atitude dos holandeses em entrar no Brasil, desde o começo da invasão sitiados na cidade de Salvador. É o mesmo Conde de Bagnuoli que, posteriormente, assumiu a chefia de um contingente das tropas comandadas pelo Almirante Antônio de Oquenda, encarregadas de desalojar os mesmos holandeses, agora de Pernambuco. Sob seu comando, centenas de soldados e oficiais italianos. Tempos depois, Bagnuoli foi nomeado comandante-chefe das forças de expulsão.

No dia 17 de agosto de 1646, após a sua morte, em Saragoza, o Rei da Espanha a agraciaria com o título de Príncipe de Monteverde.

A João Vicente San Felix fiz mercê, sendo mestre de campo general do Exército de Pernambuco, no Brasil, de um título de príncipe e de um feudo neste reino, em consideração aos seus muitos serviços e principalmente por ocasião da vitória que as minhas armas alcançaram na Bahia de Todos os Santos, onde se portou com muito valor e zelo pelo meu serviço; e, morrendo no exercício de dito cargo sem ter-se cumprido esta mercê, tenho por bem que se cumpra na pessoa de seu filho Dom Antônio Felix, Conde de Bagnuoli, seu herdeiro.

Na expulsão definitiva dos holandeses do Brasil, em 1654, as crônicas registram a participação de pelo menos três navios genoveses.

Como ocorrera anteriormente com o francês Villegagnon, que viu naufragar o sonho de anexar o Brasil aos seus domínios, desta vez era Maurício de Nassau que amargara o sabor da derrota. Os italianos, por duas vezes, asseguraram a hegemonia territorial brasileira.

O terceiro período da história do Brasil colonial foi marcado pela tranferência da Família Real portuguesa para o Rio de janeiro, a terra de São Sebastião. A vinda de D. João VI e sua corte à futura capital do país trouxe profundas e extensas transformações na vida da Colônia, principamente nos campo social e cultural áreas até então negligenciadas pela metrópole. Pode-se afirmar que esse foi o período em que se desencadeou um inédito e acelerado processo de refinamento intelectual, econômico, institucional, de que se teve notícia no Brasil.

Compunham aquele processo de refinamento de vida colonial a montagem de todo um aparelhamento burocrático, a criação de academias literárias e cintíficas, a abertura de teatros, a fundação de bibliotecas e museus. Entre essas instituições encarregadas de criar e difundir a cultura sofisticada da época, destacam-se até hoje o Jardim Botânico, a Biblioteca Nacional e o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, No Rio de Janeiro.

Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, uma das instituições criadas para difundir a cultura sofisticada da época do Brasil Colonial.
Obviamente, porém, esse capítulo da história não foi só marcado pelas iniciativas culturais. Pelo menos três eventos mostram o lado bélico do terceiro período colonial: a expedição de tropas portuguesas à Guiana Francesa; a intervenção militar na região do Prata; e a Revolta Pernambucana, em 1817.

Nesses conflitos, pelo menos a história não possui registros, a presença italiana, o lado guerreiro e aventureito do povo da península, está ausente. No entanto, aparece a participação potencial do dublê de cientista e revolucionário Francesco Riccardo Zani. Ele participou, como botânico, de várias expedições que percorreram a Amazônia, a serviço do Museu Nacional, dentro daquele quadro de refinamento intelectual estabelecido por D. João VI. Foi nessa condição que Zani serviu de guia aos famosos naturalistas Spix e Martius, reconhecidamente os grandes exploradores científicos da natureza e das culturas indígenas do Brasil. Além de cientista e pesquisador, Zani foi tenente-coronel do Exército portugês e, depois, do Exército brasileiro. Foi ostentando este posto que esse italiano teve reconhecida participação em acontecimentos político-militares, antes e depois da proclamação da Independência.

A PRINCESA DAS DUAS SICÍLIAS

Imperatriz D. Tereza Cristina.
O Processo de refinamento institucional e cultural inaugurado por D.João VI, impulsionado por um país que dava os primeiros passos rumo à urbanização, prossegiu no período imperial da Corte no Rio de Janeiro, os movimentos nesse sentido contaminavam as várias regiões e processavam mudanças radicais na vida nacional. Foi durante o Segundo Império que esse processo se acentuou e ganhou maior visibilidade.

O Imperador D. Pedro II era um homem lúcido, apaixonado e - segundo registra a história - com extraordinária vocação para a difusão e estímulo às artes e ciências. Isso o tornaria um monarca com olhos e atenção permanentemente voltados para os grandes centros de saber da Europa e suas personalidades. A extensa correspondência do imperador atesta essa busca de intercâmbio.

Com tal perfil, nada mais natural que a Itália tenha despertado seu interesse e que sábios e artistas italianos, sob seu patrocínio, acabassem atraídos pelo jovem império, como aliás vinha ocorrendo sistematicamente desde a Colônia.

Um fato pessoal, entretanto, tornaria esse laço entre o Brasil e a Itália ainda mais amarrado. Partiu dele a aproximação cultural que se estreitou e ganhou espaço privilegiado. Coisas do coração. Em 1843, D. Pedro II casa-se com a Princesa Teresa Cristina Maria, filha do rei das Duas Sicílias.

Na mesma época, a Princesa Januária, irmã de Pedro II e herdeira presuntiva do trono brasileiro na ausência de herdeiros diretos, também se casou com o Conde d'Áquila, irmão da imperatriz. Esses dois casamentos uniam real e potencialmente o Brasil a uma das mais prestigiosas casas coroadas da Itália.

Essa união foi, sob vários aspectos, muito representativa para o Brasil e desencadeou uma reação espontânea de saudação do casal, por ocasião das bodas reais. Simbolicamente, versos simples pendiam de um arco comemorativo, erguido numa rua do Rio de Janeiro. Uma homenagem de negociantes e proprietários, com dois enormes retratos do casal.

Imperador D. Pedro II
"Quis em Cristina unir a natureza
Régia estirpe, virtude e gentileza.
Se da Itália ao Brasil sulcastes os mares
Em nossos corações terás altares."

O destino, contudo, desfez de forma dolorosa o casamento real, com a morte de D. Teresa Cristina no exílio (cidade do Porto), em 1889. Mas, durante o quase meio século em que a princesa siciliana foi a imperatriz do país, o intercâmbio, sobretudo cultural, entre a Itália e o Brasil desenvolveu-se de maneira notável.

A Corte centralizava todas as atividades intelectuais e à sua volta se moviam pintores, arquitetos, musicistas, escultores, muitos deles italianos.

Entre os ilustres que tinham livre trânsito junto à realeza estavam o médico Ferrari, divulgador e autor de obras científicas e literárias; o arquiteto Lucca, que se projetou por ter sido o construtor da Igreja de S. Fedele; o violinista Cernicchiaro; Briani professor de canto e historiador de arte; Fiorella, compositor e mestre da Capela Imperial; Mazziotti, professor de piano de D. Pedro II ; Giannini, diretor da Academia Imperial de Música e Ópera Nacional e professor de contraponto de Carlos Gomes; além de Bevilácqua, fundador e proprietário de uma das mais renomadas casas de edições musicais do Rio de Janeiro.

Na linhagem dos naturalistas, ao lado do já citado Francesco Zani, aparecem outros nomes ilustres, como os de Radi, Zamith, Casaretto e o do famoso médico e botânico Luigi Vicenzo de Simoni, que estava radicado no Brasil desde o período de D. João VI. De Simoni desempenhou papéis importantes na vida brasileira durante toda a fase imperial. Foi diretor geral dos Hospitais do Estado e da Sociedade de Medicina, que se transformou, com Pedro I, em Academia Imperial de Medicina e, posteriormente, em Academia Nacional. Com o empenho pessoal de De Simoni foi estabelecido o primeiro convênio oficial entre uma instituição italiana, a Universidade de Pávia, e uma brasileira, a Academia Nacional de Medicina do Rio de Janeiro. Por esse acordo técnico-científico, que visava a melhoria da medicina praticada no país, ficou garantida ao Brasil uma quantidade enorme de livros, bibliografia até então inacessível, além de aparelhos, laboratórios e a vinda de professores de renome na Itália, como os doutores Negri e Persiani.

A importância de De Simoni para o progresso da ciência no Brasil não encontra paralelo. Ele teve também seu nome ligado às fundações das faculdades de Direito de São Paulo e de Olinda; de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia; e das Escolas Militares e de Engenharia.

Família Imperial na varanda do Palácio da Princesa, em Petrópolis, Rio de Janeiro (1889).

Além de todas essas iniciativas, que praticamente introduziram o ensino superior no Brasil, De Simoni atuou como tradutor, autor de peças teatrais e, na segunda fase do Império, foi professor de Língua e Literatura Italiana no Colégio Pedro II e professor particular das princesas brasileiras.


CARLOS GOMES, NA CONTRAMÃO

O compositor Carlos Gomes, autor de O Guarani, que foi estudar na Itália por influência da Imperatriz Teresa Cristina.
Assim como italianos vinham ao Brasil dar sua contribuição cultural à vida nacional, brasileiros faziam o inverso: iam à Itália aperfeiçoar seus estudos, sempre com o apoio do monarca e a influência da imperatriz. De novo uma lista de nomes brilhantes aparece entre os mais reverenciados pela memória nacional. Os destaques ficam por conta do compositor Carlos Gomes, dos pintores Pedro Américo, Victor Meirelles e Belmiro Almeida e do escultor Rodolfo Bernardelli. De ascendência italiana, ao que tudo indica, Bernardelli nasceu no México, mas sempre se considerou e foi considerado brasileiro. para alguns críticos, ele foi o maior escultor brasileiro de sua época.

A forte e decisiva influência de D. Teresa Cristina na escolha da Itália para destino desses talentos da Coroa era carregada de uma boa dose de premonição. Um exemplo disso foi a aposta feita com Carlos Gomes. Após o sucesso alcançado por duas de suas óperas na Corte - A noite do castelo e Joana de Flandres -, o imperador concordou em que o jovem compositor campineiro, à época com apenas 23 anos, fosse completar seus estudos na Europa.

Acolhida a idéia de Pedro II, ministros tentaram encaminhar Carlos Gomes à Alemanha. D. Teresa se opôs a esses ministros e insistiu em que fosse para a sua Itália. Venceu a imperatriz. Assim, o consagrado autor de O Guarani e Trenzinho caipira sua formação e seu nome definitivamente ligados à tradição musical italiana.

Ele estudou em Milão, Norte da Itália, na região de Parma. Foi nessa época que conheceu as idéias de liberdade de Giovanni Rossi, o criador, mais tarde, da Colônia Cecília, no norte do Paraná.

Carlos Gomes era amigo do influente maestro Rossi, parente de Giovanni, que o visitava com frequência em Milão. Foi Carlos Gomes quem primeiro falou ao discípulo de Bakunin sobre as belezas do Brasil.



 
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