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VITA MIA
Esporte

A civilização começa no momento
em que começa o esporte.

Niko Kazantzakis (1885-1957).


Djalminha em Palmeiras X Botafogo, em 19 de maio de 1996.

Juventos X Guarani, na rua Javari, Mooca, em 28 de janeiro de 1995.
PRESENÇA MARCANTE NO FUTEBOL
O futebol não é só esporte de massa, é também o elo de união social entre centenas, milhares de indivíduos, a partir de simbolos comuns, independentemente de classe, sexo e idade. Sempre se soube do processo social e histórico pelo qual o futebol, cultivado como esporte das elites passou para o domínio das massas. No Brasil não ocorreu de forma diferente.

A criação de muitos dos grandes times de futebol foi produto do esforço de determinadas correntes étnicas. Assim o Corinthians foi montado pela colônia espanhola; a Portuguesa de São Paulo e o Vasco da Gama do Rio de Janeiro, pelos portugueses; o Juventus e o Palmeiras, ambos de São Paulo, e o Juventude de Caxias do Sul (RS) pelos italianos.

Moleque travesso
O Juventus foi fundado pelo industrial Rodolpho Crespi. Era um clube para os seus operários. Funciona até hoje no bairro da Mooca, na rua Javari, é e conhecido pelo sua torcida como "Moleque travesso". É considerado, pelo número de sócios e pelas instalações, um dos mais expressivos clubes do país.

O time nasceu em 1924, com o nome de Extra São Paulo. Era um aglomerado operário formado por trabalhadores do Cotonifício Rodolpho Crespi. A família dona da fábrica incentivou a equipe, emprestando a sede da agremiação e dando jogos de camisas brancas, vermelhas e pretas.

Com o passar do tempo, o time passou a se chamar Cotonifício Crespi Futebol Clube e com esse nome conquistou, em 1929, o título da segunda divisão paulista, ganhando direito de disputar, no ano seguinte, a primeira divisão, com os chamados times grandes.

Palmeiras X Juventos, Parque Antártica, em 26 de março de 1995.
Foi nessa fase que o Conde Adriano Crespi sugeriu a alteração do nome para Clube Atlético Juventus, a fim de homenagear o clube italiano de mesmo nome. Os uniformes também tiveram as cores alteradas para grená e branco.

Em 1933, o time entrou em crise, paralisou suas atividades e os jogadores fundaram o Clube Atlético Fiorentina, com camisas lilás e branco, tendo como símbolo a flor-de-lis. A equipe disputou, no ano seguinte, o Campeonato Amador de São Paulo e saiu campeã. O título e a formação da Liga Estadual de Futebol, em 1935, fizeram renascer o " Moleque travesso".

Com dificuldades o time foi mantido e, só na administração de José Ferreira Pinto, atravessou sua fase de crescimento e prosperidade. Em 1961, o clube tinha apenas seiscentos sócios, boa parte inadimplente. O presidente decidiu então lançar títulos patrimoniais para a construção de um complexo esportivo. Com o dinheiro comprou um terreno de 85 mil metros quadrados no alto da Mooca e, depois, o Estádio Rodolpho Crespi, na rua Javari, em 1967.

O Juventus ganhou fama na formação e no lançamento de grandes craques. Sempre foi considerado uma boa escola de goleiros. De lá saíram nomes como Oberdã, que mais tarde brilhou no Palmeiras, Cabeção e o tricampeão mundial Félix. Outros imortais do futebol que passaram pela rua Javari foram - Osvaldo Brandão - que foi técnico do Palmeiras e da Seleção Brasileira - e Hércules. Até o técnico campeão da Argentina na Copa de 1978, Menotti, correu pelos campos da Mooca defendendo oas cores grená e branco

Outro fato marcante relacionado ao clube ocorreu em 1958. Foi nesse ano, na rua Javari, que Pelé fez aquele que é considerado por muitos como o gol mais bonito de sua carreira. Num rol de mais de 1.250 gols, esse mereceu consideração especial da crônica desportiva. Foi num Santos e Juventus, que a falta de videoteipe não permite rever. Há, entretanto, um esforço de se colher entre os que viram essa "pintura" do rei Pelé todos os detalhes para um dia, quem sabe, poder reproduzir como foi a jogada.

MOSQUETEIRO DO PARQUE
Dono da maior torcida de São Paulo, o Sport Club Corinthians nasceu em 1 de setembro de 1910, com o nome de um clube inglês que havia excursionado pelo país naquele ano. No uniforme original, camisas beges e calções pretos; com o passar do tempo, a escassez de verbas e muitas lavagens, o bege ficou branco e, e, sem querer, o Corinthians virou o alvinegro do Parque São Jorge, da Fazendinha - seu estádio -, o time do mosqueteiro.

Praça Marechal Deodora em 1914, onde se localizava a sede do Palmeiras.
A importância do time é tanta no cenário do futebol e também na enigmática atração que sempre exerceu sobre a sua torcida, que o fenômeno mereceu tese de mestrado do historiador Plínio Labriola Negreiros, pela PUC.

Ele conta que, em 1910, havia no bairro do Bom Retiro, reduto de italianos, um time chamado Botafogo. Acontece que prevalecia uma máxima entre os jogadores: partida em casa não se pode perder; se houvesse derrota, tudo acabaria em pancadaria. Com isso, o bairro se virou contra o time e o Botafogo foi desfeito. Mas, no mesmo ano, a equipe inglesa do Corinthians Team veio ao Brasil e encantou pela classe e técnica. Surgiu o Corinthians Paulista, sob essa inspiração. A fundação foi feita com poucos crédulos no futuro do time, entre eles gente simples, barbeiros, donos de mercearias, imigrantes italianos, portugueses e espanhóis. Desde cedo, o Corinthians carregava a marca de ser popular.

ALVIVERDE IMPONENTE
O Palmeiras, antigo Palestra Itália, tem sua sede no Parque Antártica, num bairro da cidade de São Paulo onde houve grande concentração de imigrantes italianos. Foi fundado, em 1914, por Luigi Cervo, Vicenzo Ragognetti, Luigi Emanuele Marzo e Ezequiel Simone.

O depoimento de Cervo a Walter Pellegrini, a respeito da fundação do clube, ilustra bem a relação entre as famílias, as associações e a busca da preservação da identidade italiana:

"Eu e meus colegas funcionários da Casa Matarazzo faziamos parte da Sociedade Recreativa e Dramática Bela Estrela, onde reuniamos as nossas famílias para eventos lítero-musicais e também para as danças que, naquela época, eram consideradas como novo gênero de esporte. No entanto, as visitas à nossa capital das equipes de futebol do Pro-Vercelli (1913) e Torino F.C. (1914), que aqui realizaram onze partidas, repercutiam em todas as classes, provocando, como era natural, o sentimento patriótico da colônia com momentos de empolgação e de entusiasmo transbordante."

Consultando-se o quadro do Conselho Deliberativo da Sociedade Esportiva Palmeiras, nota-se que há uma predominância absoluta de sobrenomes italianos entre seus membros. Entretanto, a fase dos grupos étnicos no Brasil já está historicamente superada. As massas encarregaram-se de fazer essa desfiguração. Há torcedores de todas as etnias e classes em todos os grandes clubes de futebol no Brasil, embora o Palmeiras ainda simbolize por seus dirigentes, por seus torcedores e pela opinião pública o time dos italianos.

Até 1992, o Palmeiras havia conquistado muitas glórias e títulos, mas nesse ano, especialmente, vinha de um longo período de entresafra. A reviravolta na história do clube, na verdade, que cumulou com o contrato de co-gestão com a Parmalat, começou em 1975, mesmo que ninguém do Palmeiras, nem sequer seu presidente, soubesse. O destino seria encarregado de ajustar as coisas. Naquele ano, Calisto Tanzi, ao assumir a presidência da multinacional italiana, declarou que sua opção seria pelo marketing esportivo. A imagem dos produtos da Parmalat deveria ser vinculada à saúde, à qualidade de vida. No futebol, Tanzi começou comprando ações do Parma, time italiano que margeava a terceira divisão. A equipe recebeu esforços e condicões técnicas e hoje disputa a acirrada primeira divisão do campeonato italiano, um dos mais fortes do mundo.

Cafu em Santos X Palmeiras, Estádio Municipal do Pacaembu, em 24 de março de 1996.
Com o Palmeiras, não foi diferente. Depois da co-gestão com a Parmalat, foi devolvido ao time o seu tempo de glórias e vitórias. Em 1993, venceu o campeonato paulista e o brasileiroe, em 1994, de novo as duas competições, revelando ao mundo craques como Evair, Roberto Carlos, Edmundo, Edílson, Zinho, César Sampaio e Antônio Carlos, apenas para citar alguns. Em 1996 o Palmeiras volta a conquistar o Campeonato Paulista. Comandado pelo técnico Wanderley Luxemburgo, o time de Rivaldo, Cafu, Muller, Luizão e Djalminha alcança a média de 4,07 gols por partida. Hoje a crônica esportiva brasileira reconhece que a empresa não só recuperou o Palmeiras, mas transformou a equipe na mais bem sucedida do futebol brasileiro. A experiência no Palmeiras foi tão satisfatória que a Parmalat ampliou a co-gestão para o Juventude de Caxias do Sul e o Santa Cruz do Recife.

Enquanto o Palmeiras cumprimenta a torcida, o Corinthians sai do túnel de mãos dadas. Estádio do Pacaembu, em 16 de dezembro de 1994.
O clube do Palmeiras fica no bairro de Perdizes, na rua Turiassu. o chamado Parque Antártica foi inaugurado em 1902 pela Companhia Antartica Paulista e o espaço, em pouco tempo, transformou-se numa grande área de lazer dos paulistanos. Como sede do Esporte Clube Palmeiras, esse cenário passou a existir apenas em 1917. O estádio, projetado em 1923, foi o primeiro a usar concreto armado, uma novidade para a época, e sua inauguração se deu somente dez anos mais tarde, em 1933.

O futebol, entretanto, não foi a única grande participação dos italianos no mundo dos esportes. Há a incrível dinastia dos Zumbano a influenciar o boxe e a linhagem dos automobilistas que brilham em pistas internacionais: Chico Landi, os Fittipaldi e Rubens Barrichello.

Para se falar de um esporte de amadores, de passatempo, também não se deve esquecer da bocha, um jogo que definitivamente se incorporou no Brasil como o esporte dos mais velhos, mas que possui grande número de adeptos de várias idades. Na periferia não é raro encontrar, anexo aos campos de futebol de várzea, espaços destinados à prática da bocha.

O Palmeiras de Cafu, Rivaldo, Luizão e outros grandes craques conquistou o Campeonato Paulista de 1996


Rubens Barrichello

Emerson Fittipaldi



 
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