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VITA MIA
Educação, Saúde e Religião

A ciência sem religião é falha;
a religião sem ciência é cega.

Albert Einstein (1879-1955)


Em 1934, a Escola Normal de São Paulo cedeu suas instalações recém-fundada Universidade de São Paulo, onde funcionou sua primeira escola: a Faculdade de Filosofia. Hoje no local, que já abrigou o Colégio Caetano de Campos, está a secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

Pensadores e intelectuais italianos influenciaram muito o campo das idéias no Brasil. Alguns tornaram-se nomes universais, como Dante e Galileu, Gramsci e Ungaretti, passando por Lombroso, Croce e Pareto. Quando, porém, o pensamento brasileiro sistematiza-se dentro de um processo acadêmico é que se percebem de forma clara as áreas de conhecimento em que mais contribuíram e contribuem os italianos e seus descendentes.

UMA USP COM MUITOS SPAGHETTI
A Universidade de São Paulo (USP) é um bom exemplo nesse sentido. A presença italiana é vista de forma nítida nos campos da Medicina, do Direito, da Física, da Matemática e Estatística, da Geologia e Mineralogia e da Literatura. A essas áreas estão associados nomes da pesquisa e do ensino superior no país: Alfonso Bovero, Flamínio Fávero, E. Jesus Zerbini, Fúlvio Pileggi, E. Onorato, G. Wataghin, L. Fantappié, Croponi, G. Albanese, S. Galvani, ª Picarollo, G. Mortara, G. Occhialini, Mauro Picone, ª Bassi, G. Gambirasio, G. Ungaretti e Miguel Reale, que chegou a reitor da USP.

A maioria dessa lista está ligada à criação da USP, em 1934. Ao lado das equipes francesa e alemã, os italianos foram grandes responsáveis pela implantação da universidade. Nessa instituição formaram novas gerações de estudiosos, que continuaram seu trabalho pioneiro.

Conde Francisco Matarazzo, o "Capitão da Indústria", nome obrigatório na implantação do ensino superior no Brasil.
No capítulo da instalação de universidades, cabe menção a Francisco Matarazzo, o conhecido "Capitão da Indústria". O Conde Matarazzo contribuiu com metade do patrimônio financeiro para a criação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

E no capítulo do ensino de primeiro e segundo graus, vale mencionar três exemplos marcantes da contribuição italiana: o colégio Dante Alighieri e a Scuola Italiana Eugenio Montale, em São Paulo, e o Instituto Galileo Galilei, em Belo Horizonte.

Um dos mais tradicionais e conceituados colégios de São Paulo, o Dante Alighieri doi fundado em 1911 e funcionou até o final dos anos 30 como uma escola bilíngüe, mantida pelo governo italiano, atendendo com esta estrutura tanto o interesse de brasileiros quanto o de italianos que desejavam educar seus filhos com base na língua e cultura de seu país. Durante a Segunda Guerra Mundial, na primeira metade da década de 40, o Dante Alighieri sofreu hostilidades por parte do governo brasileiro, que tentou desapropriá-lo, pois o Brasil entrou na guerra contra os países do Eixo, do qual a Itália fazia parte. A desapropriação foi frustrada graças à ação de um grupo de ex-alunos, mas o colégio ficou sob intervenção do governo até o final da guerra, período em que funcionou com outro nome: Visconde de São Leopoldo. Hoje o Dante Alighieri é mantido e administrado por uma fundação, a Sociedade Civil Dante Alighieri.

Colégio Dante Alighieri, em São Paulo
Bem mais novos que o Dante Alighieri, os colégios Galileo Galilei e Eugenio Montale são escolas bilíngües, reconhecidas pelos governos do Brasil e da Itália, com o currículo escolar brasileiro e italiano, o que permite ao aluno que concluir o segundo grau o acesso às universidades italianas e também, com o processo de unificação da Europa, às Universidades da Comunidade Européia. Fundado e mantido pela Fiat, o Instituto Galileo Galilei funciona na capital mineira desde 1977. A Scuola Italiana Eugenio Montale, fundada em 1982 por iniciativa de dirigentes de empresas italianas em São Paulo, funciona como uma sociedade sem fins lucrativos e é dirigida por um conselho formado por pais de alunos e sócios contribuintes, fundadores e beneméritos.

Fora dos quadros universitários, idéias e nomes italianos, quase sempre preocupados com os imigrantes, circulavam na imprensa e nas ordens religiosas. Mais de três centenas de periódicos foram criados pelos italianos em diferentes partes do país, alguns com vida efêmera, outros mais duradouros. De todos, nenhum teve vida tão longa e participou tanto dos acontecimentos da época como o "Fanfulla", criado em São Paulo em 1893 e que circulou até o final de 1965.

Instituto Ítalo-Brasileiro Galileo Galilei, em Belo Horizonte.
Os religiosos italianos chegaram ao Brasil a partir do século XVI. De início vieram os jesuítas, os franciscanos e os capuchinhos. Depois chegaram os salesianos, carlistas, barnabistas, carmelitas, entre outros. As ordens religiosas tinham vários objetivos: evangelizar os índios pagãos (como no caso dos salesianos e dos capuchinhos), assistir os imigrantes e "romanizar" o clero e os costumes brasileiros, o que as transformou em importantes colaboradoras no já citado processo de europeização e modernização do Brasil.

Fora do catolicismo, muitos italianos e descendentes aderiram ao protestantismo. Entre esses, os nomes mais expressivos foram o do professor Flamínio Fávero, presbítero e pregador; o jornalista Sabatini Lalli, responsável pelas revistas pedagógicas presbiterianas; e o Reverendo Jorge Bertolazzo Stella, que, ao falecer, era pastor emérito da Catedral Evangélica de São Paulo e grande participante na vida acadêmica paulistana, em sua área de especialização: o sânscrito.


Projeto da Scuola Italiana Eugenio Montale no Morumbi, São Paulo

Igreja de Sant' Antonio do Forromeco (RS). Os religiosos italianos chegaram ao Brasil a partir do século XVI e foram peças importantes no processo de europeização do país

VOTOS PELOS ENFERMOS

Saguão de entrada do Hospital Humberto I, em São Paulo.
A Cruz Branca Italiana surgiu no final do Século passado (1889), em Santos, como sociedade de benemerência, voltada às vítimas de febres infecciosas. Era formada por imigrantes italianos e talvez tenha sido o primeiro sinal concreto da colaboração ítala no campo da Medicina. Naqueles tempos não havia leis que regulassem esse setor. Populações rurais e operárias trabalhavam em condições precárias e o atendimento à saúde era feito pelos chamados médicos da roça, verdadeiros heróis, muitos dos quais italianos, que tinham pela profissão uma vocação enorme, já que os pagamentos eram raros. Ficou no anonimato um exército desses profissionais. Mas houve os que se destacaram, tiveram intensa vida social, se envolveram em grandes projetos, tornaram-se públicos a ponto de serem incontestáveis as suas participações na formação da moderna Medicina do país.

Um desses nomes tornou-se conhecido dos paulistanos por nomear uma rua: Alfonso Bovero. Aliás, um defeito grave na formação dos brasileiros é esse desconhecimento da origem e do valor de seus homens públicos. Bovero, que morreu em Turim, em 1937, é uma das figuras mais representativas na implantação do estudo da Medicina no Brasil.


Em 1916 foi inaugurado, por iniciativa dos italianos, o Hospital de Caridade do Brás. Era mais um exemplo, outro embrião que, mais tarde, viria a compor o cenário da cidade.


Enrico Caruso (centro) nas festividades comemorativas da ampliação do Hospital Umberto I.

Washington Luís (à esquerda) e Altino Arantes (ao centro), em primeiro plano, visitam as ampliações do Hospital Humberto I.

Pode-se dizer que a Medicina só prosperou graças a uma colméia de investidores e intelectuais italianos da época. Quando se fala da Cruz Branca, fala-as de um primeiro e espontâneo momento, mas já em 1878, com a criação da Società Italiana di Beneficenza in San Paolo, se davam os primeiros passos, de forma mais organizada, para o progresso da ciência e da Medicina. Antes do hospital do Brás, por exemplo, havia sido fundado o Hospital Humberto I, precisamente em 14 de agosto de 1904. Os dirigentes e o corpo clínico tinham à frente pessoas como Alessandro Sicillianoi e Luigi Chiaffarelli, que se destacavam na indústria e na música, respectivamente; Felice Buscaglia, parteiro das elites e cirurgião renomado; Giovanni Priori e Giacomo Define, clínicos; além de um jovem que se mostrava promissor, Celestino Bourroul, que acabou ocupando lugar de destaque na Faculdade de Medicina.

Alfonso Bovero.
Em 1928, Alfonso Bovero deixou a presidência da instituição, entregando-a ao Conde Francisco Matarazzo. Nesse período houve grande expansão do hospital, com apoio financeiro dos Matarazzo.

A benemerência italiana estava presente em todos esses capítulos. Em 1881, Attilio Bucci fundou em campinas o Circolo Italiani Uniti di Campinas.

Eram, todas, iniciativas maiores, com forte aparato e apoio financeiro da sociedade que compunha as camadas mais ricas da população, embora os serviços estivessem direcionados a todos, sem distinção. Ficou contudo a imagem de um grupo mais simples, como prova da abnegação dessa gente - a Cruz Branca - , um marco, ainda que pouco divulgado, da preocupação do italiano com o bem comum.

Circolo Italiani Uniti di Campinas, fundado por Attilio Bucci em 1981.
A partir da imigração em massa, famílias passaram a conviver e a formar pequenas comunidades. Logo essas áreas cresceram. Em outros casos, os centros mais adensados, como São Paulo, receberam grande parte dos italianos. Todo esse cenário e evolução da presença italiana fizeram florescer os primeiros grupos de atividades em vários segmentos. Eram instituições de caráter beneficente, político, regional e cultural.



 
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