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VITA MIA
Gran Finale

"Cosa fatta capo fa"
(o que tem começo tem fim).
Machiavelli (1469-1527).


CARTOLINE POSTALI, O AFETO DE DOIS POVOS

A alfaiate Primo Maffei (primeiro à direita com amigos, em Franca (SP).

Talvez se possa afirmar que a identidade italiana no brasil tenha passado por três etapas. A primeira se caracterizou pela busca de preservação de uma identidade ameaçada em país estranho; a segunda, pela adesão ao novo país; e a terceira, que ocorre nos dias atuais, se caracteriza pelo resgate dessa identidade italiana que se supunha já perdida.

Na terceira etapa situa-se o que se pode chamar de "Nova Itália", um país moderno, pós industrial. O avesso da Itália pobre, que se viu compelida a drenar sua população para outros países. E essa "Nova Itália" quer resgatar sua italianidade.

Esse discurso nasceu do governo italiano, mas deriva também da imagem propagada pelos produtos italianos. No brasil ele é reforçado pelas instituições culturais que historicamente se encarregam da difusão da cultura erudita italiana, como a Fundação Dante Alighieri e o Instituto italiano de Cultura. Além disso, criou-se uma nova categoria de italianos fora da Itália pós-período-migratório: os italiani all' stero (italianos no exterior).

O caminhão da balas Protti, no início de século, em Ribeirão Preto (SP).
Na representação do descendente de italiano, a política governamental, os produtos sofisticados, o aspecto erudito da cultura e a categoria italiani all'stero formam esse novo conceito. Transformou-se num anseio de identificação, que no Brasil é expresso claramente nos adesivos em automóveis do Rio Grande do Sul e Santa Catarina: Graças a Deus sou italiano!

No início deste livro, um dos maiores escritores do Brasil, Jorge Amado, cuja obra é reconhecida em todo o mundo - não sem motivo é o estrangeiro mais lido na Itália -, lembra bem a saga de famílias que deixaram para trás uma história para mergulhar no desconhecido. "Muitos chegaram trazidos pela necessidade, outros escapavam da perseguição política", descreve Jorge Amado, um conhecedor da cultura italiana como poucos, muito pela convivência de meio século com a mulher Zélia Gattai, uma italiana de segunda geração.

Este livro é sobretudo isso, um passeio pela história de gerações e gerações de italianos que vieram para o Brasil em busca de aventura, de asilo político, de trabalho, de riqueza, em busca de amigos e parentes, na tentativa às vezes de apenas matar a saudade.

É para esse exército de anônimos que a Parmalat se curva sempre. Por isso, vez por outra, buscou-se citar nomes de famílias, histórias ao acaso, pois foram essas personagens que fizeram a história do Brasil, que ajudaram junto com imigrantes de outras nacionalidades, a construir uma das maiores economias do mundo.


Ferdinando Magnani e Stella Casadei

A família Magnani envia foto
da primogênita Ada para a Itália.

São histórias como a de Ferdinando Magnani, que chegou ao Brasil em 1888, ainda um adolescente, para trabalhar numa fazenda em Ribeirão Preto, interior Paulista. Ele virou um colono como tantos outros. Um belo dia, quando visitava com seu pai amigos que vieram de Rímini, Ferdinando apaixonou-se perdidamente por uma jovem de beleza impressionante, Stella Casadei, que para seu infortúnio era noiva de seu primo. Com apenas 14 anos, Stella, afoita pela intempestiva precocidade, completamente apaixonada por Ferdinando, convenceu os pais de que o noivo ideal não era o escolhido.

Os dois casaram e tiveram filhos. Os laços com a Itália, no entanto, foram mantidos. Era através do que se chamava Cartoline postali que se mantinha a correspondência entre o Brasil e o "país da bota", como popularmente se conhece a Itália, devido ao seu formato no mapa da Europa. As cartoline eram cartões postais que traiam a foto dos familiares. Era a forma de apresentar a prole, lembrar rostos, ver como estavam os parentes. Melhor que palavras, imagens.

Família Protti posa para enviar a foto para parentes na Itália.
Naquele tempo, Stella e Ferdinando enviaram as cartoline da filha mais velha, Ada. Os parentes, com mais recursos, mandavam Cartoline de parentes e amigos, como os da signorina Ida di Anni, Maria Magnani e seu marido Pietro, Luigi Magnani, a prima Clementina, Hernesto Casadei, Júlia Casadei e suas filhas, Anna Magnani e netas, Quinto Casadei com a mulher e os filhos. Eram imagens que traziam sobretudo o orgulho a quem as enviava para lugar tão incerto e distante.

Stella Casadei Magnani morreu em Ribeirão Preto, em 10 de março de 1957. Sete dias depois, mesmo sem nunca ter ficado doente, Ferdinando fez a mesma trajetória. Sem explicação, a não ser o amor que sentia pela mulher, Ferdinando se recusou a comer e dia e noite chamava por Stella, a jovenzinha de 14 anos de cujo coração se tornou prisioneiro eterno.

Duas das filhas, Albina e Quinta, se casaram com os irmãos Claúdio e Alberto Proti, da família Bartolomeo Protti, que veio para o Brasil com apenas cinco anos de idade, em 1887, no navio Sempioni. Bartolomeo se casou em 1903 com Maria Gaioto e abriu uma casa de comércio especializada em selas. Em 1940, numa das raras fotos da época, ele posa em Ribeirão Preto como dono da Balas e Panificação Protti, uma empresa que seria continuada pelo filho Claúdio, que se casou com Albina Magnani.

Bartolomeu Protti, então um próspero empresário estabelecido em Ribeirão Preto (SP).
Claúdio e Albina tiveram seus filhos e a primogênita se casou com Benedicto, neto do alfaiate Primo Maffei, nascido em Bérgamo e que igualmente chegou a São Paulo, mais precisamente em Franca, no final do século passado.

As três famílias hoje somam mais de cem pessoas, entre netos, bisnetos e tataranetos. Não são sobrenomes famosos, com certeza, mas se espalharam pelo Brasil. Uma de suas ramificações chegou ao Paraná, pela união com a família Valente, de Santa Felicidade, Curitiba. Há descendentes até no extremo norte, em Rondônia. Essa gente representa muito do exército de anônimos que este livro objetiva homenagear. Essa gente que só em São Paulo representa três milhões de pessoas, segundo a Embaixada da Itália no Brasil, supera em número comunidades de Nova Iorque, onde se estima haver um milhão de imigrantes e seus descendentes, até o total de habitantes de Roma, em torno de 2,7 milhões. Em todo o Estado de São Paulo, acredita-se que esse total chegue a cinco milhões.

Essa gente veio nos navios sem asseio, foi maltratada pelos capatazes das fazendas, viu a chibata de perto no trato trabalhista sem leis que substituía a recém extirpada escravidão. Essa multidão buscou o refúgio, a paz, o trabalho e lutou muito. Essa gente, brava gente, fez a América, fez o Brasil. Por isso merece nosso reconhecimento com a edição deste livro.


Júlia Casadei e filhas
e Maria Magnani enviam cartoline postali
da Itália para o Brasil

Ângelo Valente e Guilhermina Zarvo



 
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