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Pátria é todo lugar que o homem forte NAVEGAR É PRECISO, VIVER...
A partir de 1825 o mundo começa a passar por um até então inédito movimento de deslocação em massa de populações de um lado a outro do globo. É a imigração maçiça de grupos e indivíduos que deixam suas pátrias em busca de melhores condições de vida em terras estranhas. Estima-se que, da segunda metade do século XIX até às vésperas da Primeira Guerra Mundial, deflagrada em 1914, cerca de sessenta milhões de pessoas se engajaram nesse processo de transferência populacional. Esse êxodo envolvia pelo menos três continentes: Europa, Ásia e América. Em países europeus e asiáticos, principalmente europeus, situavam-se as frentes de expulsão de tais populações, enquanto nos países americanos, entre os quais o Brasil, ocorria um processo contrário. Constituíam uma espécie de bolsões de abrigo, o que acabou originando as nações hospedeiras, que formaram uma heterogênea massa étnica. Estatísticas nem sempre exatas indicam que, nesse mesmo período, o Brasil teria recebido aproximadamente cinco milhões de imigrantes de diferentes nacionalidades. Trinta por cento desse total, ou seja, um milhão e meio de pessoas, eram italianos, vindos de várias regiões daquele país. Esses números colocam a corrente imigratória italiana, ao lado da portuguesa, em primeiro lugar na relação dos demais fluxos que demandaram as terras brasileiras. Apesar das naturais dificuldades de se obterem números precisos nessa área, todos os autores concordam que no final do século XIX, sobretudo a partir de 1870, registrou-se o maior volume de entrada de italianos no país. A partir dessa constatação pode-se aceitar como legítima, ou defensável, a escolha do ano de 1875 como a data-símbolo do início dessa imigração. Há indiscutivelmente nesses números sinais indisfarçáveis de preferência na aceitação do italiano como imigrante. Esse sinal claro é resultado de duas ordens de fatores. Uma delas, derivada das condições adversas, políticas e econômicas, pelas quais passava a Itália nessa fase da história, estimulando de múltiplas maneiras grupos e indivíduos a abandonar o país. A outra está ligada não apenas à conjuntura política e econômica que marcava a vida brasileira no final do século passado mas também a um aspecto ideológico, nem sempre explicitado. Sobre os motivos políticos e econômicos que estimularam a imigração já se falou bastante e muito se escreveu. Sabe-se, entretanto, que nesse plano procurava-se atingir, pela imigração estrangeira, pelo menos três objetivos:
2. A constituição de uma classe média até então praticamente inexistente no país. 3. A ocupação e a posse de espaços vazios, alargando dessa forma as fronteiras físicas do poder central e os limites da expansão da civilização ocidental. Esses três objetivos se desenhavam num painel histórico ligado:
. À abolição da escravidão, que acabou sendo assinada pela Princesa Isabel, em 13 de maio de 1888.
Criou-se ainda, nesse período, pelo menos dois modelos ou sistemas de fixação dos imigrantes nas áreas rurais: o Sistema de Imigração, que teve como alvo imediato a obtenção de mão-de-obra assalariada ou associada, como ocorreu, por exemplo, em São Paulo, com os núcleos ligados às fazendas de café; e o Sistema de Colonização, que visava ao aumento da população do país com a intenção político-militar de ocupar e defender espaços vazios, como aconteceu com as famosas colônias dos estados meridionais doa país. Como era de se esperar, imigrantes italianos estavam, por assim dizer, encaixados em ambos os sistemas. Grande número, porém, impossível precisar, escapava desses modelos ou sistemas em direção aos centros urbanos. Nas cidades, esses imigrantes italianos desempenharam atividades na indústria e no comércio, constituindo, posteriormente a parte da população de onde sairiam os capitães de indústrias e os assalariados que dariam volume e consciência política ao incipiente proletariado brasileiro, em especial paulista, ou mesmo paulistano. Em 1900, por exemplo, nas fábricas de São Paulo, 81% da mão-de-obra era italiana.
Nessa fase, a participação da comunidade italiana na sociedade já era muito grande e evidenciava a todo instante o sentido da integração. Em 1889, os italianos fundaram, num gesto de benemerência sem precedentes na história brasileira, a Cruz Branca Italiana para socorrer, em Santos as vítimas das febres infecciosas.
Os motivos socioeconômicos e de defesa da soberania não são por si só suficientes para explicar a preferência pelo imigrante italiano. Qualquer corrente migratória poderia satisfazer essas exigências, preencher esses conceitos, corresponder às expectativas. Para entender como o italiano coube como uma luva no perfil do imigrante ideal e desejável é necessário deter-se no componente ideológico da questão. Como se escreveu, esse componente nem sempre é bem explicitado, ou talvez tenha sido eclipsado por razões de natureza social e econômica. Mas é preciso que se diga que se estimulava a imigração estrangeira, sobretudo a européia, visando-se ao branqueamento do Brasil, pois a população branca estava sendo suplantada, numericamente, pelos negros e mulatos. É sabido que os estatutos de pureza de sangue estavam incorporados à história de Portugal e estiveram presentes na vida brasileira, pelo menos em alguns setores, até o final da década de 30 deste século. A Carta Régia de 1830 - a primeira lei que disciplinou o trabalho de nacionais e estrangeiros no Brasil - previa, entre outros itens, que os contratos de prestação de serviços "não poderiam celebrar-se, debaixo de qualquer pretexto que fosse, com os africanos bárbaros, à exceção daqueles que atualmente existem no Brasil".
Portanto, a incorporação de imigrantes brancos nessa fase da vida nacional representa apenas mais uma etapa histórica rumo à aspirada e definitiva europeização do país. Essa política de branqueamento inspirava-se, em última instância, em determinados princípios derivados de um pensamento ocidental a respeito da diversidade humana. Esse pensamento, que se alimentava do biologismo do século XIX, classifica e hierarquiza a variedade humana em raças superiores e inferiores, muito antes da barbárie do hitlerismo. Nessa relação de dominação-subordinação, que flui da própria natureza, o pólo da superioridade estava ocupado ou representado pelos brancos e, dialeticamente, no outro pólo estavam, numa espécie de prisão biológica, os negros e os não-brancos, numa clara demonstração de racismo. compondo esse espectro teórico estavam as escolas criminológicas francesa e italiana, esta última representada por Ferri e Lombroso, que tiveram grande influência no pensamento brasileiro, em especial na Medicina legal. O imigrante italiano, portanto, compunha muito bem o personagem desejado, correspondia plenamente a este perfil: era europeu e branco, latino e católico-romano, o que o tornava compatível com a sociedade e a cultura brasileiras que se desejava implantar. Sob outro ângulo, podem-se ver as coisas da seguinte maneira: o italiano não era uma ameaça aos fundamentos da tradição cultural da nova pátria nem punha em risco a hegemonia da Igreja católica.
Depois de 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, José Artur Rios, estudioso da imigração estrangeira, fez o seguinte comentário em sua obra (aspectos políticos da assimilação do italiano no Brasil) "a esperança agora está numa ampla política imigratória que permita ao Brasil receber o tipo de imigrante mais adequado às suas necessidades, mais adaptado às suas tradições. Só assim o italiano voltará a dar a nosso país, como outrora, o melhor de sua energia e de seu sangue". Essa passagem faz lembrar de novo o artigo de Rubem Braga, citado no começo deste livro, no qual se referia à oportunidade de o Brasil poder "importar" essa "gente ótima", que tanto fazia perguntas sobre o Brasil e demonstrava claramente o desejo de se mudar para cá.
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