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O fato não acabou de acontecer a já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia
O remetente chamava-se Francisco Matarazzo, que mais tarde descobriríamos ser mais comumente conhecido como Conde Chiquinho. Ele oferecia a meu pai, um dos mais reputados jornalistas da sua geração, um emprego no diário Folha de S.Paulo, com o salário de dez mil cruzeiros mensais mais umas tantas benesses e ajudas de custo. Mas o telegrama era uma peça complexa. Matarazzo, de saída, cuidava de apresentar-se: condottiero de um vasto império industrial herdado do pai, imigrante de uma das primeiras levas do século passado. Ele pretendia entrar no ramo das comunicações. Reunira em suas mãos algo em torno de 49% das ações da Folha e contava com o apoio de um pequeno grupo que detinha mais 2 ou 3%, de sorte a assegurar-lhe a maioria. A respeito de meu pai, dizia Matarazzo naquele peculiar e fascinante estilo sem artigos e preposições, havia colhido as melhores informações junto às fontes mais confiáveis. Sabia-o jovem - e de talento e caráter. Não podia entregar-lhe formalmente o posto de diretor de redação porque a lei brasileira não permitia, mas na prática tal seria a função, embora camuflada por um nome de ocasião, algo como superintendente, assessor especial, por aí. Meu pai, Giannino, tinha 41 anos e a convicção de que o mundo não escaparia de mais uma guerra mundial, a terceira, possivelmente atômica. Disse: "Vamos lá". Achou ter encontrado o abrigo certo para o futuro dos filhos. Minha avó passou a mão sobre a minha cabeça e sentenciou: "Assim o Brasil vai ganhar mais um Mato Grosso". Matto, em italiano, significa doido. Chegamos a São Paulo em agosto e logo no primeiro encontro com meu pai, o Conde Chiquinho veio com uma surpresa: "Carta, estou desolado, mas nada feito. Os donos daquele pequeno pacote de ações me abandonaram e eu perdi a maioria". Meu pai era muito otimista e generoso. "Bondoso demais, ingênuo mesmo", garantia minha mãe, às vezes num timbre agudo. Ele contou que enquanto falava o Conde Chiquinho olhava fixamente o tapete do escritório. "Ficou arrasado", comentava meu pai como se os problemas do conde fossem maiores do que os seus. De todo modo, o telegrama de abril previa uma indenização se as coisas não corressem a contento ou se meu pai quisesse cair fora lá pelas tantas, e a indenização foi paga. O conde, com quem meu pai manteria boas relações pelo resto da vida, ofereceu também passagens de volta. "Não, obrigado", disse meu pai, "agora estou aqui e vou ficar". Assis Chateaubriand, inventor e manda-chuva dos Diários Associados, logo ofereceu um emprego a meu pai: uma página diária em italiano no Diário de S.Paulo. Já iam longe os tempos em que o Fanfulla, jornal da colônia italiana, era o segundo de maior tiragem da cidade - só perdia para o Estadão. Ainda assim, em fins de 1946, a colônia ainda era bastante numerosa numa cidade em que metade da população tinha origem peninsular. "O conde trouxe o Giannino", repetia Chatô, desafeto tradicional dos Matarazzo, "e quem o aproveita sou eu". Mas Giannino demorou-se bem pouco por lá. Seis meses depois mudava-se para o Estado de S. Paulo, recém-recuperado pela família Mesquita, depois de ter sido encampado por um longo período pela ditadura varguista. Meu pai assumiu o posto de secretário, acumulado, curiosamente, a direção do arquivo. Ninguém sabia como organizar um arquivo e meu pai disse: "Deixe comigo". Muitas aulas de bom jornalismo ele daria no Estadão. Júlio Mesquita Neto e Ruy Mesquita não hesitarão em reconhecer ter aprendido bastante com Giannino, na arte da imprensa e da vida.
Quanto a meu pai, depois de pouco mais de um ano de Estadão passou a tratar o português como se tivesse nascido dentro dele e dispensou tradutores. Ele lidava com o nosso vernáculo com requinte e desvelo, embora ao falá-lo cultivasse um forte sotaque mediterrâneo, muito agradável na sua voz de tenor dramático - voz perfeita para cantar o Otello. Cláudio virou redator na seção de política internacional. Era um fanático da informação honesta, ainda que, nas conversas dos bares, gostasse de galopar pelo paradoxo e de assustar platéias burguesotas com profecias revolucionárias. Giannino Carta e Cláudio Abramo acabariam sendo - este completando e desenvolvendo a obra iniciada por aquele - os responsáveis pela transformação do Estado no melhor jornal do Brasil pós-guerra, o primeiro digno da comtemporaneidade muito antes da reforma do Jornal do Brasil de 1957. Meu pai morreu ao 59 anos, em 1964. Meses antes, Cláudio Abramo deixara o Estado para reaparecer tempos depois na Folha de S.Paulo, onde comandou um novo projeto capaz de tornar o jornal de Octavio Frias, o pai, concorrente eficaz do jornal dos Mesquita, ainda na década de 70. Cláudio - outro falecido antes do tempo, aos 64 anos, em 1987 - usava largas gravatas esvoaçantes e, às vezes, um par de impecáveis sapatos dotados de uma espécie de proteção metálica na ponta, destinada a tilintar sobre as calçadas anunciando-lhe a chegada, não sem provocar desconforto entre os ouvintes que temessem a franqueza e a ironia.
Em Roma recebeu uma proposta de Adolpho Bloch para um posta de chefia na Manchete, ficou no Rio uns pouco meses e foi finalmente arrematado por Victor Civita, que lhe entregou a direção editorial da Editora Abril, em 1959. Luís tinha 23 anos. Por doze anos, Luís ficou na Abril e neste período foram lançadas Manequim, Claudia, Quatro Rodas, Realidade, Exame, Veja, revistas de fotonovelas, infantis, fascículos e tudo o mais que fez da editora dos Civita a maior da América Latina. Luís deixou a Abril em 1972 para fundar, juntamente com Domingo Alzugaray e Fabrízio Fasano, a sua própria editora, a Três. Quando menino, mal-alfabetizado, ele costumava traçar sobre qualquer pedaço de papel que lhe caísse nas mãos e, às vezes, sobre as paredes da sala, uma assinatura de pessoa jurídica: Luís Carta e Cia. Um dia perguntei o que queria dizer com aquilo. "Que sou dono de uma firma", respondeu lapidar. Trinta anos depois, entendi que se tratava de um destino antes que de uma vocação. Fabrízio saiu logo da parceria para dedicar-se integralmente à sua empresa de bebidas, mas a Três não mudou de nome, embora passasse a ter dois donos. Lançou fascículos e revistas de rara qualidade, como, por exemplo, Status, a primeira masculina do Brasil, uma Planeta muito requintada, valendo-se dos direitos da francesa Planète, e finalmente a Vogue. Em 1976, Luís e Domingo separaram-se. Tinham idéias diferentes a respeito do futuro da Três. Domingo a queria grande e poderosa, na linha do modelo Abril. Luís a pretendia pequena e refinada. Fundou a editora Carta Editorial e levou para lá a Vogue e os seus subprodutos. A Carta Editorial é a única no mundo que publica a sua própria Vogue; as outras, onde quer que seja, têm dono americano, a Conde Nast. O trabalho de Luís foi tão extraordinário que, ao decidir lançar a Vogue na Espanha, há nove anos, a Conde Nast o chamou para dirigir a empreitada. Luís era um cavalheiro dotado de uma expansiva elegância natural, um refinamento espontâneo presente em todas as suas criações e no exercício cotidiano da existência. Também ele se foi cedo demais, em abril de 1994. Ainda não havia completado 58 anos.
Naquele almoço romano, eu argumentei: "Fico muito lisonjeado com sua oferta, mas o senhor sabe que eu não entendo de carros e nem mesmo sei dirigir?" "Seu irmão me informou", rebateu Civita, "mas também disse que o senhor entende de jornalismo." Ele me queria, de verdade, para outras aventuras. "Esta revista de automóveis", explicou, "tem de ser o ensaio para um semanário que vamos lançar em 61 ou 62 para concorrer com a Manchete e que vai se chamar Veja". A Veja que ele queria então teria de ser mais para se ver do que para ler, donde o seu nome. Oito anos depois, quando ele me convidou para montar finalmente o projeto de Veja, atirei-me a sustentar que o nome já não se justificava. "A revista que a gente vai fazer", eu disse, "inspira-se nos newsmagazines americanos, é mais para ler do que para ver". "Tudo bem", respondeu Civita, "mas Veja agora passa a soar como convocação para a análise, o raciocínio, algo assim como se a gente chegasse aos ouvidos do leitor e dissesse: ora veja, veja bem...". Encarei-o perplexo. Ele encerrou o assunto: "ao lado da palavra Veja vamos escrever também, pequenininha, a palavra leia. Veja grande, leia miúda. O leitor nem vai perceber, mas o senhor pára de procurar pêlo no ovo e me deixa em paz".
Peço desculpas a quem me lê e não é meu neto por ter falado muito a meu respeito. Ocorre que, mais ou menos sem querer e sem especiais méritos para tanto, andei envolvido, bastante envolvido, na história do jornalismo do pós-guerra. Uma história, como se viu, bastante marcada pela presença de italianos, natos e hereditários. E se permitem, vou citar alguns sobrenomes de outros profissionais.
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