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VITA MIA
Imprensa

O fato não acabou de acontecer a já a mão nervosa do repórter o transforma em notícia
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).


JORNALISMO AL SUGO

Mino Carta e seu irmão, Luís Carta (junho de 1960)
Um dia de abril de 1946 minha casa foi alcançada por um telegrama que vinha do Brasil. Morávamos do outro lado do mundo, em Gênova, e meu irmão e eu, crianças, ficamos bastante alvoroçados. O entregador da Italcable também estava. "Nunca vi um telegrama deste tamanho", disse. Páginas e páginas redigidas em estilo telegráfico e em lugar dos pontos lia-se stop. "Quantas páginas?", perguntei. "Vinte e seis", anunciou minha mãe em triunfo. A imponência do telegrama foi tomada como prova de grande apreço pela família.

O remetente chamava-se Francisco Matarazzo, que mais tarde descobriríamos ser mais comumente conhecido como Conde Chiquinho. Ele oferecia a meu pai, um dos mais reputados jornalistas da sua geração, um emprego no diário Folha de S.Paulo, com o salário de dez mil cruzeiros mensais mais umas tantas benesses e ajudas de custo. Mas o telegrama era uma peça complexa. Matarazzo, de saída, cuidava de apresentar-se: condottiero de um vasto império industrial herdado do pai, imigrante de uma das primeiras levas do século passado. Ele pretendia entrar no ramo das comunicações. Reunira em suas mãos algo em torno de 49% das ações da Folha e contava com o apoio de um pequeno grupo que detinha mais 2 ou 3%, de sorte a assegurar-lhe a maioria.

A respeito de meu pai, dizia Matarazzo naquele peculiar e fascinante estilo sem artigos e preposições, havia colhido as melhores informações junto às fontes mais confiáveis. Sabia-o jovem - e de talento e caráter. Não podia entregar-lhe formalmente o posto de diretor de redação porque a lei brasileira não permitia, mas na prática tal seria a função, embora camuflada por um nome de ocasião, algo como superintendente, assessor especial, por aí. Meu pai, Giannino, tinha 41 anos e a convicção de que o mundo não escaparia de mais uma guerra mundial, a terceira, possivelmente atômica. Disse: "Vamos lá". Achou ter encontrado o abrigo certo para o futuro dos filhos. Minha avó passou a mão sobre a minha cabeça e sentenciou: "Assim o Brasil vai ganhar mais um Mato Grosso". Matto, em italiano, significa doido.

Chegamos a São Paulo em agosto e logo no primeiro encontro com meu pai, o Conde Chiquinho veio com uma surpresa: "Carta, estou desolado, mas nada feito. Os donos daquele pequeno pacote de ações me abandonaram e eu perdi a maioria". Meu pai era muito otimista e generoso. "Bondoso demais, ingênuo mesmo", garantia minha mãe, às vezes num timbre agudo. Ele contou que enquanto falava o Conde Chiquinho olhava fixamente o tapete do escritório. "Ficou arrasado", comentava meu pai como se os problemas do conde fossem maiores do que os seus. De todo modo, o telegrama de abril previa uma indenização se as coisas não corressem a contento ou se meu pai quisesse cair fora lá pelas tantas, e a indenização foi paga. O conde, com quem meu pai manteria boas relações pelo resto da vida, ofereceu também passagens de volta. "Não, obrigado", disse meu pai, "agora estou aqui e vou ficar".

Assis Chateaubriand, inventor e manda-chuva dos Diários Associados, logo ofereceu um emprego a meu pai: uma página diária em italiano no Diário de S.Paulo. Já iam longe os tempos em que o Fanfulla, jornal da colônia italiana, era o segundo de maior tiragem da cidade - só perdia para o Estadão. Ainda assim, em fins de 1946, a colônia ainda era bastante numerosa numa cidade em que metade da população tinha origem peninsular. "O conde trouxe o Giannino", repetia Chatô, desafeto tradicional dos Matarazzo, "e quem o aproveita sou eu". Mas Giannino demorou-se bem pouco por lá. Seis meses depois mudava-se para o Estado de S. Paulo, recém-recuperado pela família Mesquita, depois de ter sido encampado por um longo período pela ditadura varguista. Meu pai assumiu o posto de secretário, acumulado, curiosamente, a direção do arquivo. Ninguém sabia como organizar um arquivo e meu pai disse: "Deixe comigo". Muitas aulas de bom jornalismo ele daria no Estadão. Júlio Mesquita Neto e Ruy Mesquita não hesitarão em reconhecer ter aprendido bastante com Giannino, na arte da imprensa e da vida.

Francisco Matarazzo Sobrinho, o Conde Chiquinho (à direita), na oficina do Fantulla.
No jornal dos Mesquita meu pai escrevia uma rubrica diária intitulada "De um dia para outro", modelo de um estilo até então não freqüentado e hoje próprio de inúmeras colunas. Tratava-se de uma análise dos principais fatos do dia, condimentada com previsões de curto e longo prazo. Meu pai escrevia em italiano e alguém traduzia, nem sempre com a precisão devida. Até que foi contratado um moço filho de italianos, conhecedor da língua paterna, autodidata culto e espirituoso, chamado Cláudio Abramo. Foi a estréia de um dos maiores jornalistas do Brasil.

Quanto a meu pai, depois de pouco mais de um ano de Estadão passou a tratar o português como se tivesse nascido dentro dele e dispensou tradutores. Ele lidava com o nosso vernáculo com requinte e desvelo, embora ao falá-lo cultivasse um forte sotaque mediterrâneo, muito agradável na sua voz de tenor dramático - voz perfeita para cantar o Otello. Cláudio virou redator na seção de política internacional. Era um fanático da informação honesta, ainda que, nas conversas dos bares, gostasse de galopar pelo paradoxo e de assustar platéias burguesotas com profecias revolucionárias.

Giannino Carta e Cláudio Abramo acabariam sendo - este completando e desenvolvendo a obra iniciada por aquele - os responsáveis pela transformação do Estado no melhor jornal do Brasil pós-guerra, o primeiro digno da comtemporaneidade muito antes da reforma do Jornal do Brasil de 1957. Meu pai morreu ao 59 anos, em 1964. Meses antes, Cláudio Abramo deixara o Estado para reaparecer tempos depois na Folha de S.Paulo, onde comandou um novo projeto capaz de tornar o jornal de Octavio Frias, o pai, concorrente eficaz do jornal dos Mesquita, ainda na década de 70.

Cláudio - outro falecido antes do tempo, aos 64 anos, em 1987 - usava largas gravatas esvoaçantes e, às vezes, um par de impecáveis sapatos dotados de uma espécie de proteção metálica na ponta, destinada a tilintar sobre as calçadas anunciando-lhe a chegada, não sem provocar desconforto entre os ouvintes que temessem a franqueza e a ironia.

Seção internacional de O Estado de São Paulo (1951): Ruy Mesquita (sentado), Cláudio Abramo (atrás); Giannino Carta (primeiro plano à direita), Paulo Mendonça (atrás).
Com os Abramo, os Carta misturaram-se prazerosamente mais de uma vez. Por exemplo, no escritório da agência italiana Associazione Nazionale Stampa Associata (ANSA), estabelecida em São Paulo nos primeiros anos da década de 50, onde começamos meu irmão e eu e por onde passou, por recomendação do irmão Cláudio, Lélia Abramo, depois consagrada como grande atriz. Por termos emprego na agência noticiona ANSA, meu irmão, Luís, e eu fomos registrados como profissionais na Itália e nos mudamos para lá, ele chamado por uma revista e eu por um diário. Luís passou na Itália menos de dois anos.

Em Roma recebeu uma proposta de Adolpho Bloch para um posta de chefia na Manchete, ficou no Rio uns pouco meses e foi finalmente arrematado por Victor Civita, que lhe entregou a direção editorial da Editora Abril, em 1959. Luís tinha 23 anos. Por doze anos, Luís ficou na Abril e neste período foram lançadas Manequim, Claudia, Quatro Rodas, Realidade, Exame, Veja, revistas de fotonovelas, infantis, fascículos e tudo o mais que fez da editora dos Civita a maior da América Latina. Luís deixou a Abril em 1972 para fundar, juntamente com Domingo Alzugaray e Fabrízio Fasano, a sua própria editora, a Três. Quando menino, mal-alfabetizado, ele costumava traçar sobre qualquer pedaço de papel que lhe caísse nas mãos e, às vezes, sobre as paredes da sala, uma assinatura de pessoa jurídica: Luís Carta e Cia. Um dia perguntei o que queria dizer com aquilo. "Que sou dono de uma firma", respondeu lapidar. Trinta anos depois, entendi que se tratava de um destino antes que de uma vocação.

Fabrízio saiu logo da parceria para dedicar-se integralmente à sua empresa de bebidas, mas a Três não mudou de nome, embora passasse a ter dois donos. Lançou fascículos e revistas de rara qualidade, como, por exemplo, Status, a primeira masculina do Brasil, uma Planeta muito requintada, valendo-se dos direitos da francesa Planète, e finalmente a Vogue. Em 1976, Luís e Domingo separaram-se. Tinham idéias diferentes a respeito do futuro da Três. Domingo a queria grande e poderosa, na linha do modelo Abril. Luís a pretendia pequena e refinada. Fundou a editora Carta Editorial e levou para lá a Vogue e os seus subprodutos. A Carta Editorial é a única no mundo que publica a sua própria Vogue; as outras, onde quer que seja, têm dono americano, a Conde Nast. O trabalho de Luís foi tão extraordinário que, ao decidir lançar a Vogue na Espanha, há nove anos, a Conde Nast o chamou para dirigir a empreitada. Luís era um cavalheiro dotado de uma expansiva elegância natural, um refinamento espontâneo presente em todas as suas criações e no exercício cotidiano da existência. Também ele se foi cedo demais, em abril de 1994. Ainda não havia completado 58 anos.

Mino Carta (à esquerda) e o presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Prudente de Moraes, em visita à redação de Veja, sob censura, em 1975.
A meu irmão devo meu primeiro emprego na Abril. Pouco depois de assumir a direção editorial da Abril, Luís meteu na cabeça de Victor Civita que eu seria o diretor ideal de Quatro Rodas. Civita percebia a oportunidade para uma revista de carros no exato instante em que nascia a indústria automobilística brasileira e já tinha nome e modelo prontos: a Quattroruote, mensário de Milão, Luís sabia ser persuasivo e num dia de novembro de 1959 Victor Civita, em visita à Itália, telefona para um movem repórter chamado Mino Carta, então vivendo em Roma. "Carta", diz, "vamos almoçar". Ele tinha idade para ser meu pai, mas ao falar comigo em italiano sempre usou o lei, que equivale ao tratamento de senhor, embora em largas ocasiões com uma simpatia que chegou ao afeto. Pena que a amizade se tenha desfeito em meados da década de 70, em função de irreparáveis desentendimentos políticos fermentados à sombra do regime militar. "Veja" sofreu longos anos de censura, mas quando fui obrigado a deixá-la a censura também foi embora. Mas esta é outra história.

Naquele almoço romano, eu argumentei: "Fico muito lisonjeado com sua oferta, mas o senhor sabe que eu não entendo de carros e nem mesmo sei dirigir?" "Seu irmão me informou", rebateu Civita, "mas também disse que o senhor entende de jornalismo." Ele me queria, de verdade, para outras aventuras. "Esta revista de automóveis", explicou, "tem de ser o ensaio para um semanário que vamos lançar em 61 ou 62 para concorrer com a Manchete e que vai se chamar Veja". A Veja que ele queria então teria de ser mais para se ver do que para ler, donde o seu nome. Oito anos depois, quando ele me convidou para montar finalmente o projeto de Veja, atirei-me a sustentar que o nome já não se justificava. "A revista que a gente vai fazer", eu disse, "inspira-se nos newsmagazines americanos, é mais para ler do que para ver". "Tudo bem", respondeu Civita, "mas Veja agora passa a soar como convocação para a análise, o raciocínio, algo assim como se a gente chegasse aos ouvidos do leitor e dissesse: ora veja, veja bem...". Encarei-o perplexo. Ele encerrou o assunto: "ao lado da palavra Veja vamos escrever também, pequenininha, a palavra leia. Veja grande, leia miúda. O leitor nem vai perceber, mas o senhor pára de procurar pêlo no ovo e me deixa em paz".

Mino Carta (primeiro plano), em reunião de pauta, na Veja (1972).
Conhecera Victor Civita no reveillon de 1952. Ele tinha aportado em São Paulo havia pouco tempo, vindo de Nova Iorque e seguindo o exemplo do irmão Cesare que se instalara na Argentina à testa de uma editora chamada Abril - na crença de que abril fosse mês da primavera, como no hemisfério norte, donde o símbolo da editora, a arvorezinha frondosa. Victor, como Cesare, trazia os direitos de impressão das historinhas de Walt Dinsey. E, além disso, faro apurado para o negócio e muita energia. À festa da minha mocidade ele foi de calça preta justa, camisa de mangas bufantes e sua mulher Silvana, uma senhora muito amável, de sapatos vermelhos e boina. Era um reveillon à fantasia, num casarão da avenida Paulista, e o casal compareceu numa versão dos heróis noturnos da Place Pigalle, gigolo e gigolette, enquanto eu me apresentei como emir, graças ao esmero de minha mãe em conferir a uma velha cortina adamascada a severa suntuosidade de um cafetã. O casal Civita ganhou o concurso de danças exibindo-se num tango floreado que ainda volteia na minha memória. Desde então, ganhei a certeza de que aquele milanês tinha talentos insuspeitáveis.

Na rua São José, no centro de São Paulo, morou e foi assassinado Líbero Badaró, jornalista italiano de idéias liberais. Em sua homenagem, a rua São José ganha seu nome. Na foto, a rua Libero Badaró em 1918.
Cheguei à Abril em março de 1960 e com a ajuda do meu irmão e de Attilio Baschera, um mestre de bom gosto que anos depois plantaria um fantástico empório de decoração, preparei o projeto de Quatro Rodas. Nas bancas em agosto, a revista foi sucesso desde o primeiro número. Em contrapartida, a concorrente de Manchete não saiu da gaveta de Victor Civita. A renúncia do Presidente Jânio Quandros, em agosto de 1961, e a crise aberta pela atribulada ascensão ao poder de Jango Goulart - que desaguaria no golpe de 64 - aconselharam Civita a esperar por tempos melhores. Os meus tempos, de todo modo, não foram ruins. E, de um modo geral, na profissão tive aventura de estar freqüentemente no lugar certo no momento ídem. Assim, dirigi as equipes lançadoras de órgãos de imprensa sempre novos em folha, desde Quatro Rodas até Carta Capital, passando pela Edição de Esportes do Estado de S.Paulo, Jornal da Tarde, Veja, Istoé, Senhor semanal, sem excluir o Jornal da República - que não deu certo. Com tudo isso, não sobraram horas de tédio e recolhi histórias interessantes para contar aos netos.

Peço desculpas a quem me lê e não é meu neto por ter falado muito a meu respeito. Ocorre que, mais ou menos sem querer e sem especiais méritos para tanto, andei envolvido, bastante envolvido, na história do jornalismo do pós-guerra. Uma história, como se viu, bastante marcada pela presença de italianos, natos e hereditários. E se permitem, vou citar alguns sobrenomes de outros profissionais.



 
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