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VITA MIA
Indústria

O trabalho só assusta as almas fracas.
Luís XIV (1638-1715).


Inauguração do Pavilhão das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Exposição do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, em 1922.


OS CAPITÃES DA INDÚSTRIA
O Salto da indústria paulista não ocorreu por acaso, mas há histórias que acidentalmente levaram a essa impulsão. O jornalista, pintor e advogado João Chiarini, que advogou em favor dos Dedini por muitos anos, conta que Mário Dedini ia viajar para buscar a mãe na Itália quando, de passagem pela Rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, viu numa loja um torno que há tempos queria comprar para sua oficina. Consultou o bolso - tinha doze contos de réis. Não era muito para a viagem e para as encomendas que recebera, mas ainda assim arriscou: comprou o equipamento, que custava sete contos de réis. Por conta desse aperto de caixa tornou-se um dos maiores industriais do país.

Dedini começou fabricando peças e reformando velhos engenhos, que comprava por uma ninharia. Desse modo atravessou a crise econômica de 1930 e, dez anos depois, já se permitia produzir usinas para moer cana. Seu sócio, o imigrante Pedro Ometto, também enriqueceu, podendo se dar o luxo de viajar todos os anos para a Europa, o que não era pouco para a época. Hoje, com suas usinas localizadas no interior do Estado de São Paulo, a família Ometto é a maior produtora de álcool e açucar do país.

Outro empresário de origem peninsular que fez a América foi Emílio Romi. Nascido no Brasil, aprendeu o trabalho de mecânico em Milão. Mais tarde abriu uma oficina em Santa Bárbara d'Oeste, interior de São Paulo. A família Romi prosperou e decidiu se arriscar na fabricação dos pequenos e de pouco estilo carros Isetta, que no Brasil passaram a se chamar Romi-Isetta. Considerado o carro popular da época, carregava apenas duas pessoas e atingia a velocidade máxima de 85 quilômetros. O projeto ganhou força em 1958, chegou a ter uma prova automobilística exclusiva, mas perdeu terreno para os importados e para a indústria automobilística estrangeira, que a partir de 1959-60 se estabelecia no país.

A família Romi, com o carro popular de 1958: o Romi-Isetta.
Muitos foram os ramos de atividade e os empresários italianos que aqui se destacaram no começo deste século, como Ramenzoni, que fundou a maior e mais tradicional fábrica de chapéus, hábito que se perdeu com o tempo, assim como o poderio da produção do industrial; Donato Scatamacchia, que obteve êxito com os sapatos, mas problemas administrativos acabaram derrotando seus descendentes.

O playboy Francisco Pignatari, conhecido como "Baby" , que ganhou fama na noite, fazia parte da confraria Clube dos Cafajestes e fabricava os famosos aviões Paulistinha ,ainda hoje sucesso no aprendizado de quem deseja voar. "Baby" foi também um dos idealizadores da Caraíbas Metais, projeto que acabou sendo bancado pelo governo em 1960.

Mas um dos nomes de maior destaque foi mesmo o do Conde Francisco Matarazzo. Em 1900, ele fundou as Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo, transformou-se num dos homens mais poderosos do país e ganhou o título de "Capitão da Indústria ". Sua importância e participação no PIB era tão grande que, em 1934, a Light se dispunha a oferecer transporte gratuito aos empregados da Matarazzo nos bondes especiais que circulavam pela cidade. Era uma homenagem da Tramway Light and Power Co. a um de seus maiores consumidores de eletricidade e ao mesmo tempo uma espécie de beija-mão.

A imponência dos Matarazzo era patente e ostensiva. O Edifício Matarazzo, no viaduto do Chá, vendido em 1972, demonstrava esse poderio econômico. Foram usadas 170 mil toneladas de mármore importado na obra.

Segundo Luiz Carlos Bresser Pereira , docente da USP e ministro nos governos Sarney e Fernando Henrique, já em 1980 quase 35% dos empresários paulistas eram de origem italiana, o que lhes conferia o primeiro lugar no total dos empresários de São Paulo. Como em qualquer parte do mundo, o grupo empresarial é internamente estratificado: hás os pequenos, os médios e os grandes empresários. Ficou, contudo, o destaque que grandes nomes de indústrias e empresários paulistas conquistaram no correr da história: Matarazzo, Crespi, Ramenzoni, Lunardelli (que aos 30 anos era chamado de " O Rei do Café ", tamanha sua ascensão na agricultura), Eberle, Fontana, Fracalanza, Filizolla, Battistela. O pioneiro, entretanto , segundo os registros oficiais, foi Antônio Sarafana que, em 1822, numa São Paulo carente de eletricidade, fundou a Fábrica de Velas de Cera Brasil China.

Operários da olaria das famílias Moretti e Martorelli, em São Caetano do Sul, São Paulo (1912).
Hoje o cenário é bem mais moderno e disputado. A competividade de empresas como Parmalat, Campari Fiat, Olivetti, Lunardelli, Eberle , Fracalanza , Battistela, Filizolla e Prada , entre muitas outras, tornou-se sinônimo de como administrar uma indústria no Brasil e no mundo.

Teóricos sustentam a tese de estreita correlação entre agricultura cafeeira, capitalização e industrialização no Brasil. Com relação ao italiano deve-se acrescentar mais um elemento que explicaria o rápido acúmulo de capital e que permitiu a um simples imigrante tornar-se o grande "capo" de um vasto complexo industrial em São Paulo, como foi o caso de Matarazzo, Esse elemento é a constituição familiar, que faz do grupo doméstico uma unidade de produção e consumo, sob o controle do "capo". Esse modelo familiar, ao disciplinar ganhos e despesas, cria um mecanismo que favorece a poupança e com esta a acumulação do capital.

Do lado do trabalho, embora o alvo da política imigratória brasileira tenha sido trazer para o país trabalhadores rurais, muitos imigrantes escaparam do esquema e foram diretamente para as cidades.

Fora da lavoura dedicavam-se a diferentes trabalhos, desde mascatear pelo interior, ser artífice de várias naturezas até se empregarem como operários nas indústrias em expansão. Como operários, os italianos deixaram sua marca inconfundível na disputa capital e trabalho. Foram os grandes responsáveis pela concientização política da classe obreira dentro de princípios que repudiavam a exploração do trabalhador. O cimento ideológico - o anarquismo- filiava-se a uma tendência libertária que comportava inúmeras nuances encaixadas no conceito rotulado de esquerda.

Aos operários italianos atribui-se a responsabilidade pela eclosão, já na década de 1910, das primeiras e grandes greves em São Paulo, comandadas pelo Círculo Socialista. Essa organização teve origem na transformação da Liga Democrática Italiana, criada em 1900 e que reunia anarquistas, socialistas e republicanos. De seus quadros dirigentes participava até mesmo o futuro industrial Dante Ramenzoni. O porta voz do Círculo era o jornal Avanti.


Fachada do Moinho Matarazzo

Operários da fábrica de fósforos Sol Levante,
outro setor do império Matarazzo (c. 1900).



 
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