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VITA MIA
Indústria Cultural

A crítica é fácil,
mas a arte é difícil.

Philippe Destouches (1680-1754)


Guianfrancesco Guarnieri (Tião) e Miriam Mehler (Maria)em "Eles não usam black tie", de Guarnieri, sob a direção de José Renato e Música de Adoniran Barbosa. Teatro de Arena, 22-02-1958.
ELES NÃO USAM BLACK TIE
Assim como as instituições acadêmicas e beneficentes, foi nesses centros de convivência étnica que teve início o movimento teatral amador, de preferência de repertório italiano, em sua língua de origem: o filodramático. Na platéia, a representação proletária de operários, artesãos, pequenos assalariados. Depois de longas jornadas de trabalho, os italianos passaram a ter um lugar comum para se encontrar, matar saudades, lembrar de amigos e saber notícias de seu país, sem perder de vista o sonho que acalentavam de grandeza, de conquista, de se dar bem e fazer valer a esperança que trouxeram na bagagem. Era, portanto, muito mais um ambiente de recreio e sociabilidade entre fraternos. A Società Filodramàtica Ermete Novelle e a Paolo Ferrari iniciaram esse movimento, em 1895. Depois dessa data, dezenas e dezenas de sociedades foram surgindo até pouco antes da Primeira Guerra Mundial. Algumas tiveram curto ciclo de vida.

Os filodramáticos inspiravam-se nos "filodrammatici" italianos e nas numerosas companhias teatrais que vinham da Itália para os escassos palcos brasileiros para mostrar suas "divas" e seus "divos", que deslumbravam críticos e encantavam a platéia brasileira. Muitas dessas companhias dedicavam-se ao gênero operístico, considerado o suprasumo da arte pelas elites da época e pelas incipientes média e pequena burguesias, que ficavam com as melhores acomodações das salas de espetáculo. Ao operariado italiano sempre se garantiam as "torrinhas" e os "poleiros". Verdi, Bellini, Puccini e Mascagni eram os autores mais encenados.

Mas no Brasil não havia um cenário tão fértil para a sofisticação cultural. Os saraus, as peças e a ópera não encontravam disposição, tempo nem recurso dos assalariados, e a classe dominante acabava sendo a maior beneficiária desse tipo de lazer. Os espetáculos e a participação nos mesmos também exigiam muito preparo: antes de mais nada, estudo apurado da teoria musical e de solfejo, da colocação, do desenvolvimento e da expressividade da voz. Não havia condições ideais para que se transformassem em atividade habitual dos imigrantes italianos, ocupados em suas tarefas de garantir subsistência e enraizamento econômico e social.

Teatro São José, São Paulo
As condições para a divulgação das artes no Brasil eram de fato incipientes à época. Em São Paulo, por exemplo, havia uma única casa de teatro que atraía atenção e onde algumas famílias de italianos puderam voltar a assistir a um espetáculo. Era o Teatro São José, que estava localizado no antigo largo Municipal, hoje praça João Mendes, bem atrás da Catedral da Sé. Inaugurado em 4 de setembro de 1864, com a peça A túnica de Nessus, de Sizenando Nabuco, irmão mais novo de Joaquim Nabuco, o Teatro São José durou até a madrugada de 15 de fevereiro de 1898. Ele for destruído por um dos maiores incêndios de que se tem notícia naqueles tempos. Curiosamente, a mão-de-obra que fazia o teatro funcionar no dia-a-dia era italiana. O maquinista Celestino Facchini e o encarregado da portaria Vicente Paolucci são personagens quase anônimos que brotam para a história em meio a recortes amarelecidos de jornais da época.

Foi o teatro declamado, relativamente mais fácil, que pôde então canalizar o interesse e a possibilidade de atuação artística desse segmento étnico. Muitas foram as companhias que visitaram o país, a partir de 1895. Na década de 1920 chegou a Companhia Itália Almirante, tendo entre seus obscuros atores um nome que, duas décadas depois, iria ser aclamado mundialmente como a grande expressão do cinema neo-realista italiano: Vittorio de Sica.

Itália Fausta, em Antígona, de Sófocles.
Assim como surgiram sociedades que congregavam imigrantes italianos, de tais sociedades surgiram os grupos teatrais filodramáticos. Dos nomes que se destacaram, dois marcaram a história da cena brasileira: Itália Fausta e Nino Nelo, nome artístico de Giovanni Vianello. A atriz, mais voltada à linha clássica e dramática teatral, e o ator, mais peso à comédia e à sátira de costumes ligados ao imigrante. Itália Fausta, além de atriz foi estimuladora e inspiradora de movimentos que levaram à criação do Teatro de Brinquedo; do Teatro do Estudante, pertencente a Pascoal Carlos Magno, também de ascendência italiana; e do Teatro Popular de Arte, de seu sobrinho Sandro Polloni.

Foi através desse movimento italianístico, no qual a contribuição da atriz Itália Fausta ficou patente, que se chegou ao Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC. Com o TBC, criou-se no campo teatral mais um forte reduto de artistas italianos, entre os quais atores e atrizes, diretores e encenadores, cenógrafos e figurinistas, como Nídia Lícia, Franco Zampari, Adolfo Celi, Luciano Salce, Flamínio Bollini, Ruggero Jacobbi, Alfo Calvo, Bassano Vaccarini, Tullio Costa, Gianni Ratto e Alberto d’Aversa.

Sentados, vêem-se: Nathália Timberg, Armando Paschoal e Carminha Brandão: em pé, Guilherme Figueiredo, Leonardo Villar, Franco Zampari, Francisco Cuoco, Fernanda Montenegro e Alberto d'Aversa, no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC).
A esses nomes se somariam, anos mais tarde, no Teatro de Arena, Gianfrancesco Guarnieri, com sua peça clássica "Eles não usam black tie", que retratava a luta operária por melhores condições de trabalho no Brasil, a divisão de classes e os conflitos sociais inerentes ao proletariado: o problema de moradia e a falta de dinheiro para se chegar com dignidade até o final de cada mês. "Eles não usam black tie" era um retrato tão fiel dessa situação que se transformou em filme, em que atuaram, além do próprio Guarnieri, Bete Mendes e Carlos Alberto Riccelli.

Gianfrancesco Guarnieri
Nascido em Milão em 1934, Gianfrancesco Guarnieri veio para o Brasil três anos depois, junto com sua família. Que fugia da perseguição do nazi-facismo. Morou no Rio de Janeiro até 1953, quando decidiu mudar-se para São Paulo, onde participaria da encenação de "está lá fora um inspetor, de Priestley" no Teatro Paulista do Estudante. A atuação lhe valeu o Prêmio Arlequim, do Festival de Teatro Amador. Gianfrancesco Guarnieri atuou profissionalmente pela primeira vez em "Escola de maridos", de Molière, no Teatro de Arena. Pouco tempo depois, notícia publicada nos jornais de 22 de fevereiro de 1958 indicava a estréia, no mesmo Teatro de Arena, da peça "Eles não usam black tie", do jovem autor Gianfrancesco Guarnieri, à época com somente 23 anos de idade. Era o início da carreira de dramaturgo.

No cinema, seu primeiro trabalho como ator foi em "O grande momento". Além do teatro e do cinema, Guarnieri tem destaque em papéis nas telenovelas. Ele diz que, como autor, prefere o teatro, pois a TV acaba criando um roteiro ritmado pela opinião pública. O domínio total sobre o texto sempre foi a tônica de seu trabalho. Entre as peças que escreveu estão: Gimba, A semente, Arena conta Zumbi, Um grito parado no ar, O filho do Cão e Marta Saré. Como ator, Gianfrancesco Guarnieri recebeu o Prêmio Molière pela atuação em "Castro Alves pede passagem".

Maria Della Costa, Edmundo Lopes e Eugênio Kusnet na peça O canto da cotovia, na inauguração do teatro Maria Della Costa, em São Paulo, 1954.

NAS ONDAS DE MARCONI
O italiano Guglielmo Marconi, cientista e inventor do rádio.
As transmissões radiofônicas começaram no Brasil em 1922, com o apoio e o entusiasmo de dois grandes cientistas da época, Henry Morize e Roquete Pinto, ligados ao Museu Nacional do Rio de Janeiro. Começava no país a grande era da comunicação de massa, ou da indústria cultural, que revolucionou e marcou a entrada do Brasil na chamada "aldeia global". Por trás do rádio, que tornou passível essa revolução, estava o cientista e inventor italiano Guglielmo Marconi, muito reverenciado na época pela colônia italiana no Brasil. Um grupo filodramático chegou a homenageá-lo, batizando-se com o nome do ilustre patrício.

Tão logo o sistema da radiodifusão publicitária ganhou impulso, o lado comercial fez ruir o modelo inicial - o rádio como veículo dedicado à educação sistemática. Isso, no entanto, permitiu que o meio se transformasse num veículo de comunicação e entretenimento, transformando também parte da estrutura ocupacional na sociedade brasileira. O rádio, pouco a pouco, começou a recrutar pessoas para fazê-lo funcionar e compor os seus elencos artísticos. O pessoal que liderou essa direção era natural e preferencialmente dos meios teatrais. Para o rádio foram os negros e os brancos de quase todas as origens étnicas, entre eles, obviamente, os italianos. Eram maestros e músicos, como Radamés Gnatalli, Gabriel Migliori, Francisco Mignoni; locutores, como Oduvaldo Cozzi; atores, como Adoniran Barbosa (nome artístico abrasileirado), mais tarde imortalizado como o maior sambista que São Paulo produziu.

O compositor Adoniran Barbosa nas ruas do Bexiga, em 1978. De origem italiana, Adoniran tornou-se um símbolo da música popular brasileira.
Adoniran, mesmo sem saber música e sem tocar instrumento algum, criou clássicos populares como "Trem das onze, Samba do Arnesto e Saudosa Maloca". Homem simples, do povo, para ele tudo era motivo de irreverência. A namorada atropelada, em "Iracema", ou a falta de lembrança e de dinheiro para a compra das alianças, nos versos "Com a corda mi, do meu cavaquinho, / fiz uma aliança pra ela, / prova de carinho, em Prova de Carinho". A corda mi desse cavaquinho de fato existe e ganhou formato de aliança improvisada. Assim como várias coisas da vida de Adoniran, ela está no museu que leva seu nome, no bairro do Bexiga (Bela Vista), um dos maiores redutos italianos de São Paulo.

Um detalhe, de extrema importância nesse contexto, merece ser lembrado. "Adoniran Barbosa" nunca existiu. Esse era o personagem criado pelo cidadão João Rubinato, filho de italianos e criado na "malandragem" de bairros como Brás e Bexiga. João tomou emprestado de dois amigos esses nomes e montou tão bem sua nova identidade que se tornou imortal.

Nesse grupo de pioneiros do rádio estavam ainda o instrumentista Antônio Raggo, o cantores Carlos Galhardo, irmãos Chiozzo e Wilma Bentivegna, entre tantos outros.

NINO O ITALIANINHO
Juca de Oliveira e Aracy Balabanian em Nino, o Italianinho.
Durante algum tempo, até que conseguisse adquirir e aprimorar uma linguagem própria, a televisão no Brasil, baseada em São Paulo e no Rio de Janeiro, transformou-se numa espécie de extensão do rádio e dos palcos. As velhas caixas de válvulas transmitiam em preto e branco, mas coloriam e entretiam amigos e vizinhos que se reuniam para ver a novidade. Programas humorísticos e musicais ou então as famosas e sempre aplaudidas novelas (radionovelas e telenovelas) repetiam sucessos radiofônicos e teatrais, onde não estavam ausentes nem as personagens nem os intérpretes de origem italiana. Marcaram época na linha presença-italiana-no-Brasil novelas como "Nino, o Italianinho, Vittoria Bonelli e Os ossos do Barão", famosa peça teatral de Jorge Andrade, em que se focaliza a ascensão de imigrantes italianos. Foi em "Nino, o Italianinho" que se popularizou a imagem do ator Juca de Oliveira.

Além de colocar em enredos de suas novelas o cotidiano da colônia italiana no país, a televisão, juntamente com o rádio e o teatro, propagou músicas italianas de diferentes gêneros.

A primeira transmissão de TV no hall dos Diários Associados (1950).
Relacionar os nomes de italianos e seus descendentes que atuaram ou ainda atuam na televisão brasileira seria um exercício hercúleo, mas, ente os muitos, é possível a qualquer pessoas lembrar nomes como Amácio Mazzaropi, os irmãos Migliaccio, Ítalo Rossi, Carlos Ricceli, Paulo Betti, Humberto Magnani, Fúlvio Stefanini, Renata Fronzi, Otelo Zeloni, Ney Latorraca, Marco Nanini, Carlos Zara (na verdade Zaratini) e Bruna Lombardi.

Atriz, poetisa, jornalista, Bruna Lombardi participou de grande número de acontecimentos culturais do Brasil nos últimos tempos. Filha de estrangeiros, cresceu em meio a histórias, adereços, fantasias, cenários e roteiros. A mãe, Yvone Sandner, nascida em Istambul, era atriz, e o pai, o italiano Ugo Lombardi, um dos nomes mais importantes da história do cinema brasileiro, foi, ao lado de Franco Zampari, um dos incentivadores da Vera Cruz, companhia responsável pela alavancagem do cinema nos anos 50 e 60 no Brasil.

Foi na esteira das relações do pai que a menina Bruna entrou "no ritmo dessa festa" (título de seu primeiro livro de poesias) da cultura e das artes. De classe média, ela estudou no colégio Dante Alighieri, um dos mais tradicionais de São Paulo. Já em 1960, com apenas sete anos de idade, sua foto aparecia num comercial. O Brasil tomava ali conhecimento de um dos rostos mais bonitos que já se tinha visto. Mas Bruna prefere ser lembrada muito mais pelos papéis de Diadorim, em "Grande Sertão: Veredas", de João Guimarães Rosa, ou pela inspiração que tem em seus livros. Bruna se destacou no cinema, nas telenovelas e hoje se dedica também à apresentação, na televisão, do programa "Gente de Expressão", que revela a vida e a intimidade de gente famosa.

SUCESSO DE BILHETERIA
Consta ter sido a família de Paschoal Segreto a primeira a rodar um filme no Brasil. Afonso Segreto, irmão de Paschoal.
Os historiadores do cinema registram os imigrantes italianos como os principais responsáveis por essa fase heróica de implantação da sétima arte no Brasil. Essa participação teve início no final do século XIX, quando a família de Paschoal Segreto teria rodado o primeiro filme no país.

Depois de viver de surtos intermitentes, a produção cinematográfica procurou se institucionalizar. Foi criada então em 1949, a Vera Cruz, companhia que procurava, ambiciosamente, seguir o modelo capitalista de fazer cinema e conquistar bilheterias recordes de países mais adiantados ou mais experientes na produção e exploração do ramo. Mais uma vez os italianos e seus descendentes desempenharam papéis de destaque. Diretores italianos, alguns vindos do TBC, como Franco Zampari e Adolfo Celi, dirigiram uma série de filmes, entre os quais "Tico-tico no fubá, Uma pulga na camisola e Esquina da ilusão".

Franco Zampari, diretor do TBC (1955)

Nessa época surgiu em cena o cômico Mazzaropi, filho de imigrantes, que fez muito sucesso representando o matuto, um caipira típico do Brasil rústico. Acrescidas de outras estilizações, esse personagem era a encarnação, no cinema, do anti-herói Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Mazzaropi foi descoberto em um circo no interior de São Paulo por Nino Nelo e levado ao cinema pelas mãos do diretor Franco Zampari. Apesar de negligenciado por uma crítica pedante, Mazzaropi foi de longe o maior sucesso de público do cinema brasileiro.

Ao lado de atores, encenadores e diretores, o cinema contava também com o talento de músicos de origem italiana, como a figura do maestro Gabriel Migliori, que fez a trilha sonora de um dos maiores clássicos do cinema nacional, "O cangaceiro", dirigido por Lima Barreto. Migliori, que transitava pelo teatro, cinema, rádio e televisão,foi maestro da orquestra da TV Record.


Franco Zampari (à esquerda) no interior da Companhia Cinematográfica Vera Cruz (1954).

Cartaz do filme de Mazzaropi Uma pistola para Jeca, São Paulo (1970).

Vários cineastas brasileiros, como José Medina, Roberto Santos e, principalmente, Nélson Pereira dos Santos, foram muito influenciados pelo cinema italiano, sobretudo pelo movimento neo-realista surgido logo após a Segunda Guerra Mundial.

NAS TELAS COM MASSAÍNI
O pagador de promessas, Palma de Ouro, em 1962, no Festival de Cannes (França), foi produzido por Massaíni e dirigido por Anselmo Duarte, com Leonardo Villar (foto) e Glória Menezes no elenco.
Seria injusto falar do cinema nacional sem lembrar de Oswaldo Massaíni. Filho de imigrantes, Aníbal e Geni, Massaíni nasceu paulista, em 1919. Desde muito jovem, trabalhou em funções ligadas à produção cinematográfica. Passou pelo "bureau" da Columbia Pictures of Brasil, na Cinédia, acumulou experiência e alçou vôo próprio na Cinedistri. Até sua morte (1994), produziu cerca de 65 filmes. O mais famoso e de maior repercussão foi "O pagador de promessas" (1962), ganhador da Palma de Ouro no Festival Internacional de Cannes, na França.

Até então, só faziam sucesso de bilheteria as comédias e as fitas pouco densas. A estratégia de Massaíni foi "segurar" a exibição da fita até o resultado de Cannes: "Sabia que o público ainda não confiava naquele tipo de cinema que abordava assuntos sérios". "O pagador de promessas", por isso, é responsável pelo novo rumo que se deu à produção cinematográfica brasileira. A partir dele, outros passaram a se dedicar a roteiros com interesse nos festivais, o que resultou em qualidade.

Seu projeto mais ambicioso, contudo, foi "O caçador de esmeraldas" (1978). Era um filme que contava a saga dos bandeirantes, mais precisamente a epopéia de Fernão Dias Paes. Foram gastos CR$ 10 milhões, na época uma fortuna para os padrões do país. Tinha quinhentos figurantes e um elenco de peso, com Tarcísio Meira, Glória Menezes, Jofre Soares e Roberto Bonfim. Essa aposta em filmes a partir da história do Brasil não era nova para Massaíni. Nos anos 70, ele produziu o recordista nacional de bilheteria para uma fita brasileira, "Independência ou morte", visto por três milhões de pessoas. Enfocava o período em que o Brasil deixa de ser colônia. O maior orgulho de Massaíni: nunca haver produzido ou distribuído filmes estrangeiros. Era, para ele, ponto de honra fazer coisas de qualidade e também obter lucro com roteiros genuinamente nacionais. Sócio-fundador da Embrafilme, morreu aos 74 anos e estava para o Brasil como uma espécie de Carlo Ponti tupiniquim. Na sua trilha está seu filho Aníbal que, junto com o pai, produziu "O santo milagroso, O anjo assassino e Cangaceiros de Lampião".

O QUATRILHO


Indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1996, O Quatrilho conta a saga de duas famílias de imigrantes italianos.

Bruno Campos (Massimo) e
Patrícia Pillar (Teresa)

Mais uma vez a história da imigração italiana virou enredo de filme no Brasil. Dessa vez, contudo, o autor não quis enfocar a influência cultural ou trabalhista. Preferiu contar enredo de duas famílias que ruborizaram a sociedade conservadora do início do século. Trata-se de "O Quatrilho" que, de livro, virou peça de teatro, clip musical e CD, com músicas interpretadas por uma das maiores expressões da música popular brasileira, Caetano Veloso. O autor e professor gaúcho José Clemente Pozanato queria apenas fazer uma narrativa da história da entrada dos italianos no contexto do Sul do Brasil, a partir de 1875, mas acabou se encantando com o fato que um amigo lhe contara. Era o gancho de que precisava para a obra e que acabou pondo de lado o objetivo primeiro, mudando a trama central.

Bruno Campos (Massimo Boschini) e Alexandre Paternost (Angelo Gardone), numa cena de O Quatrilho.
O cenário é a cidade de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul; o ano, 1910. Portanto, uma geração depois da primeira leva de italianos àquele Estado. Nesse tempo, os principais obstáculos de colonização já haviam sido superados, já se podia produzir na terra em volume suficiente pelo menos para a subsistência. Os protagonistas do romance são Angelo Gardone e sua mulher Teresa, Massimo Boschini e Pierina, dois jovens casais. Os quatro, em vez de partirem em busca do desbravamento de novas áreas, dão preferência ao aproveitamento das oportunidades que começam a surgir. Angelo muda-se para Caxias, à época a principal cidade da colônia italiana, com cerca de dez mil habitantes. Ele trabalha na abertura de ruas e quer comprar terras na vizinhança. Como, porém, o preço era alto demais, Angelo convida o casal Massimo Boschini para uma sociedade. Começa então o jogo que lavaria à troca, o quatrilho.

Dividendo a mesma casa, parceiros no mesmo moinho e numa pequena casa de comércio, os quatro percebem com a convivência que as afinidades entre eles estão trocadas. Teresa encontra em Massimo um homem voltado às emoções, recebe dele a atenção que não tinha do marido Angelo. Massimo, influenciado pelos ideais de um outro amigo, Sacariot, um anarquista na acepção da palavra, não concorda com os métodos excessivamente capitalistas do sócio. Está criada a situação ideal para um "racha" de opiniões. O trem é o caminho final dessa relação, levando Teresa e Massimo para uma viagem sem retorno.

Glória Pires (Pierina): atuação magnífica em um dos papéis principais de O Quatrilho.
Os dois remanescentes, Angelo e Pierina, ficam perplexos. A sociedade em volta também se escandaliza. Não era usual para a tradição italiana da época a separação de casais, tampouco a união de uma jovem senhora casada com um outro homem, igualmente ligado pelos laços da Santa Igreja Católica. Aos poucos, entretanto, os dois superam essa fase, descobrem também afinidades e decidem, para desespero geral, que devem juntos reconstruir uma relação.

Essa troca de parceiros revela no romance de Pozenato o jogo do quatrilho. O fogo em si é marcado justamente por essa característica - os parceiros não são fixos. Do jogo de cartas ao enredo da trama, contudo, o autor mostra toda a cena do começo do século, as relações econômicas, sociais, religiosas e culturais das colônias italianas. O filme, dirigido pelo cineasta Fábio Barreto, mostra os costumes daquele tempo e é, por isso, um pedaço de saudade para toda a comunidade italiana, de segunda, terceira e quarta gerações que vivem no Brasil.

O autor, professor de Literatura na Universidade de Caxias do Sul, tomou conhecimento dessa história por acaso, em 1982, numa conversa com um colega de faculdade. Pozenato havia reunido, em pesquisa, farto material para um livro sobre italianos, mas a tarefa de partir para a redação final era constantemente postergada. Mais tarde, ele diria que considerava o material bom, mas faltava algo humano, uma história de vida, o que os escritores e jornalistas chamam de "gancho". Esse gancho veio da conversa com o professor Ari Trentin, que lhe narrou a incrível história de seus avós.

Morador de uma vila chamada Tapera, no município de Gramado, o imigrante Nicodemo Trentin, avô de Ari, se apaixonara pela vizinha, Maria Baretta, que era casada e tinha filhos, assim como ele. Nicodemo e Maria eram os verdadeiros nomes dos personagens, que no filme passaram a se chamar ficticiamente de Massimo e Teresa. Ficou o casal Dairi, a identidade real de Angelo e Pierina. As pesquisas de Pozenato foram totalmente redirecionadas para essa história de amor entre italianos e originou "O Quatrilho". Numa sessão de autógrafos, o autor conta que se espantou quando uma senhora se aproximou com um punhado de livros e lhe pediu a assinatura na primeira página. Era um número grande demais de exemplares para uma só pessoa comprar. A explicação animou e desconcertou a muitos: era uma das descendentes da família Dairi, que queria presentear os membros do clã com a história de seus antepassados.

Sob a direção de Fábio Barreto, O Quatrilho representa a nova geração do cinema brasileiro
O quatrilho é um jogo de cartas tradicional nas colônias de origem italiana, no Vêneto, e envolve a troca constante dos quatro parceiros que disputam. "As circunstâncias da vida, por vezes, também podem levar a essa troca", afirma o autor, que diz ter aprendido o jogo em Caxias do Sul, ainda menino, quando deixou sua cidade natal, São Francisco de Paula. O Quatrilho, o filme, foi distribuído por todo o mundo, depois de lançado no Festival de Gramado, um dos mais importantes do cinema nacional. O livro já vendeu mais de 100 mil exemplares. Agora, Pozenato pretende dar seqüência à trama e enfocar, da forma como pretendia originalmente, a chegada e a influência da comunidade italiana no Rio Grande do Sul.



 
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