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VITA MIA
Introdução

Portiamo la civiltà nel sangue
(Trazemos a civilização no sangue)

Luigi Pirandello (1867 - 1936)


SIAMO TUTTI ORIUNDI

Trabalhadores italianos embarcando café no porto de Santos, São Paulo (c.1906/1910)
A tarde era de um calor moderado, com um céu limpo e sol forte. No horizonte, um azul mais escuro, quase cinza, anunciava uma pancada de chuva para qualquer hora. Típico dia de dezembro. Esquenta muito e então cai a tempestade. Dura pouco, mas não passa indiferente. Ao longe, um navio dá o sinal da chegada e começam os preparativos para a atracação.

A cidade de Santos, no litoral paulista, mesmo no final do século passado, já era bem movimentada. Para os padrões da época, era talvez a que mais progredia e a que mais movimentava a economia brasileira. No improvisado porto, montanhas de sacas do melhor café do mundo deixavam os armazéns em busca de paladares refinados e de fama.

Capatazes marcavam a carga e negros escravos, parrudos, se entrelaçavam uns aos outros nas escadarias, nos convés, nos porões, no vaivém do cais, exatamente como nas pinturas de Portinari.

O navio deu outro sinal, estava bem perto agora. Da proa algumas pessoas se equilibravam num olhar distante, parado. Eram os italianos que chegavam, depois de uma escala no Rio de Janeiro.

A embarcação atracou na tarde de calor moderado, umedecido pela mata atlântica e pela brisa que soprava. Dia 16 de dezembro de 1877, informava o jornal A Província de São Paulo, numa curta nota, que a embarcação trazia 166 imigrantes, a maioria de nacionalidade italiana.

No dia 2 de fevereiro de 1896, Angelina Bartolomasi escreveu para sua família na Italia: No ce creo piú a Dio ("Eu não creio mais em Deus"), após seu marido e sua filha terem falecido em São Carlos do Pinhal, estado de São Paulo, para onde vieram em busca de uma nova vida. Desiludida, Angelina decidiu voltar à sua pátria, mas uma febre em plena travessia do Atlântico, tirou sua vida
A data não representa o registro oficial do começo da imigração italiana no país, o que aconteceu, segundo historiadores, a partir de um ano antes, em 1876. De qualquer forma, foi uma das primeiras notícias publicadas sobre a presença dos peninsulares pela imprensa do Brasil.

Da tábua estendida do cais ao navio, com sarrafos pregados ao meio, como se fosse uma escada, um a um começou a aventura pelo desconhecido. Olhar desconfiado, um temor indisfarçável, cada qual juntava a tralha e seguia escada abaixo. Quase no final dessa romaria, uma jovem senhora trazia nos braços uma criancinha que visilvelmente respirava com muita dificuldade. Depois de idas em alto mar, não havia saúde que resistisse. Os jornais da época registraram a cena e terminam dizendo "aquele triste espetáculo causou dolorosa emoção aos circunstantes" . As comunicações de então eram precaríssimas e não se soube mais nada sobre a criança e sua mãe.

No final do século passado, quando ainda se escrevia colonisação com "s"e immigrantes co "mm", anúncios nos jornais ofereciam aos fazendeiros brasileiros qualquer número de colonos italianos, com ou sem famílias, para trabalhar. Eram lombardos, vênetos, tiroleses, mantuanos. Na época, os agenciadores de Mão-de-obra vinham antes para cá, estudavam os hábitos e costumes, os métodos do trato com a terra, para informar na Itália como é que se plantava e se colhioa o café, a principal cultura brasileira que, desde 1804, em Santos, tinha as primeiras arrobas exportadas. Para os italianos que se inscreviam com a pretensão de vir para o Brasil era como apostar no desconhecido. Enfrentar um mundo hostil, de pouco ou quase nenhum recurso social, sem leis trabalhistas ou direitos assegurados. Era um tiro no escuro. Só mesmo muita força de vontade e o desejo de "fazer a América" poderiam justificar a ousadia de atravessar o Atlântico em tão frágeis embarcações. Só uma boa dose de obstinação.

Uma situação que marca bem a saga dos italianos que aqui chegaram está ligada à roupagem das meninas e senhoras. Eram longas e pesadas e não permitiam, ainda que com um esforço, um caminhar elegante e suave. Ao contrário do que se imagina, não havia erro de modelagem. É que todas as economias da família eram costuradas nos forros para despistar aventureiros.

Embarque de imigrantes num porto da Itália. Destino: Brasil. Objetivo: "fazer a América"
A imigração nasceu da necessidade dos fazendeiros de repor a mão-de-obra escrava. O movimento abolicionista era crescente, o descontentamento nas senzalas revelava safras cada vez menores e o açoite no pelourinho já não produzia os mesmos efeitos nos negros. Nas arcadas do largo de São Francisco, o abolicionismo e a pressão dos intelectuais que compunham o movimento estabeleceram um divisor de águas. A chegada de italianos e de outros povos, sob o aspecto sociológico, ajudou a pôr fim ao regime escravocrata. Theodoro Sampaio cita uma frase de Eduardo Prado que dava bem a idéias desse momento: "A colonização européia reconhecia-se, de fato, incompatível com a escravidão negra. As duas instituições não podiam coexistir no mesmo solo".

No período que vai de 1870 a 1879, o Brasil recebeu 193.931 estrangeiros, entre os quais a presença de pouco mais de 47 mil italianos. Na década seguinte, por causa do movimento de libertação dos escravos, das altas cotações do café no mercado internacional, da mudança de comportamento de alguns fazendeiros paulistas e mineiros com relação à escravidão e à presença de trabalhadores estrangeiros em suas lavouras, acentuou-se o fluxo de pessoas com destino ao país. A esses fatos foi agregada a fundação, em São Paulo, em 1887, da Sociedade Visconde de Parnaíba, do Dr. Antônio de Queiroz Teles e do Conselheiro Antônio Prado. No mesmo ano foi também inaugurada a Hospedaria dos Imigrantes, que, segundo relato de Theodoro Sampaio, tinha capacidade para atender simultaneamente quatro mil pessoas pelo período de oito dias. Nesse espaço de tempo era feito uma espécie de triagem. Davam-se alimentação e as primeiras informações que os recém-chegados precisavam para seguir para o campo.

Trabalhadores das indústrias Reunidas Francisco Matarazzo em São Paulo
No ano seguinte, em 1888, em 13 de maio, a Princesa Isabel assinaria a Lei Áurea, que determinava o fim da escravidão no Brasil, um marco histórico, e reforçava a necessidade da existência de trabalhadores assalariados. A indignação em relação à escravidão pode ser sintetizada numa frase dita na virada do século por Joaquim Nabuco:"O sentimento de ser a última nação de escravos humilhava nossa altivez e emulação de país novo".

Todos esses acontecimentos precipitaram o movimento de imigração. Entre os anos de 1890 e 1899, os registros oficiais apontavam a entrada de 1,205 milhão de imigrantes no Brasil, sendo 57,2% originários da Itália. Segundo levantamentos da época, 70% de todos os italianos que chegavam ao país tinham como destino São Paulo. O restante seguia para o Rio Grande Do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e Bahia, basicamente.

Entrada do Moinho das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo. Até 1900, 33 indústrias de italianos haviam se estabelecido no Brasil
Esse ar de pioneiro, de desbravador, que compõe o perfil do povo italiano, foi definitivo para o crescimento da economia desse estados. Muito antes, em 1822, foi um italiano, Antônio Sarafana, o responsável pelo surgimento da primeira fábrica paulista de produção de velas de cera, conforme o registro na Real Junta de comércio. Era uma indústria das mais importantes para uma cidade que tinha 22 mil habitantes e iluminação bastante precária. Até 1900, quando foi fundado o Moinho Matarazzo, marco da industrialização paulista, 81% dos operários eram italianos e havia 33 indústrias de italianos estabelecidas no Brasil. Vinte anos mais tarde, esse número saltaria para 1.446, de um total de 4.145 empresas.

A indiscutível vontade para o trabalho e a coragem do povo italiano avançaram no tempo e acabaram forjando siginificativamente o perfil do brasileiro. Os laços se tornaram tão fortes e marcantes que influenciram os vários campos de atividade: a cultura, a política, a própria sociedade, Essa participação positiva chegou a tal ponto que não faltava no Brasil quem estimulasse cada vez mais a presença de italianos aqui.

Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, inaugurado em 1887: acolhida e informações aos imigrantes recém-chegados
O escritor Rubem Braga, como ex-correspondente da Segunda Guerra Mundial, escreveu no Correio da Manhã, em 4 de novembro de 1951: "Quando a última guerra terminava , o consulado brasileiro em Florença abriu uma lista de gente que queria imigrar para o Brasil. O afluxo foi enorme: lavradores, industriais, técnicos, artesãos e professores repetiam o nome de nosso país com a esperança de uma vida melhor . Muitas vezes fui interrogado por italianos que queriam saber como podiam ir para o Brasil. Quando a guerra acabou e troquei o velho e estimado paletó pela minha farda de correspondente, escrevi mais de um artigo chamando a atenção de nosso governo para a excelente oportunidade de importar gente ótima para povoar o Brasil".

O texto mostra claramente a impressão que o caráter italiano causava na sociedade brasileira, muitos anos depois de ter iniciado o movimento de vinda dos peninsulares para o Brasil. Embora se considere oficialmente como marco imigratório o ano de 1876, a presença italiana, no entanto, afirmam historiadores, remontaria a 1499, com a primeira viagem do navegante florentino Americo Vespucci, que retornaria ao país dois anos depois.

O brasil foi descoberto em 1500, convencionou-se considerar ao longo dos tempos. Porém, segundo crônicas da época, a primeira descrição da chegada de pedro Alvares Cabral à Terra de Santa Cruz, isto é, a primeira narrativa da descoberta do Brasil, teria sido publicada em Veneza em 1504. Ninguém sabe quem a escreveu nem como foi obtida. É legítimo, contudo, deduzir que tenha sido um dos numerosos italianos envolvidos nas aventuras dos descobrimentos marítimos, pois nas expedições havia geógrafos, cosmógrafos, membros de equipagens das embarcações, aventureiros e misteriosos espiões a serviço da nobreza e de comerciantes italianos.


Imigrantes recém-chegados
à Hospedaria dos Imigrantes

Foto do passaporte: o documento não era individual;
a família inteira estava nele identificada

Tanto em Vespucci como nos outros imigrantes que posteriormente chegaram ao Brasil, o choque cultural se quebrou diante da magnitude e potencialidade que a nova terra prometia. Prevalesceu a vontade de crescer e ver crescer, de prosperar e enfrentar desafios. Em todos, o sonho e a esperança de uma vida melhor. Esse ideal, que quase meio século depois continuava aceso nos relatos de Rubem Braga - ao se referir ao desejo desenfreado de levas de italianos de se mudarem para o Brasil -, faz parte da bagagem daquele navio com 166 imigrantes que aportou em Santos no final de 1877, perto do Natal. Era o ideal de todos os que deixaram para trás famílias, amigos e uma pátria para se atirar de cabeça no desconhecido, na ventura de descobrir aquilo que inspirava Cristoforo Colombo e Vespucci.


Parreirais em Caxias do Sul (RS)

Família Babielini "de meio luto
por tio que morreu na Itália"

A presença italiana no Brasil se consolidou. Os artigos de intelectuais pedindo ao governo brasileiro que aproveitasse o anseio de tranferência desencadeou a assinatura do acordo de imigração e colonização, selado em dezembro de 1960. No mesmo ano em que inaugurou Brasília, Juscelino Kubitschek, que não pode participar da cerimônia, encarregou sua chancelaria em Roma de entregar uma mensagem pessoal ao presidente da Itália, Giovanni Gronchi. O texto era direto e prático, como JK, e começava assim: "Grande e bom amigo".

As palavras de Juscelino foram simples, mas emocionaram o povo italiano. Traduziam um período e indicavam o futuro. Esse povo de gesto largo, espalhafatoso no falar com mãos e braços, quase passional, ajudou sim a "fazer a América". O dramaturgo Luigi Pirandello disse certa vez: Portiamo la civilità nel sangue ("trazemos a civilização no sangue).

Cidade de Santos, São Paulo. Entre 1890 e 1899 cerca de 650 mil imigrantes italianos entraram no Brasil através do porto de Santos



 
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