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VITA MIA
Navegadores

Unus erat mundus.
Duo sunt, ait ille. Fuere
(O mundo era um só. Que sejam dois, disse ele. E foram.)

Inscrição na porta de uma casa de Gênova, onde supostamente nasceu Colombo

DESCOBRIDOR DE TODOS OS SANTOS
O descobrimento do Brasil, como se sabe, é fruto dessa fase heróica, como fora o descobrimento da América, anos antes, pelo genovês Cristoforo Colombo. Na esquadra de Colombo, como figura exponencial, estava Americo Vespucci - definitivamnete imortalizado na história por haver batizado com seu nome um novo e grande continente. Sábio , aventureiro, comerciante e navegador, quase sempre serviço da Coroa Portuguesa, Vespucci participaria, depois do feito de Colombo, de outras expedições às costas de Santa Cruz. Além de instalar colônias para explorar as riquesas da terra, ele ia batizando ou rebatizando os locais pelos quais passava. Por exemplo: a baía de Todos os Santos, na Bahia, e aldeia de São Vicente, no litoral de São Paulo. Vespucci adotou um critério rigoroso e sistemático para nominar acidentes geográficos e localidades, baseando-se no calendário da Igreja: o nome seria, sempre, o do santo do dia da descoberta. Em 1502 vinha a lume o primeiro mapa desse novo mundo, com a toponímia escolhida por Vespucci.

Como na reportagem de Rubem Braga, escrita em primeira pessoa, Vespucci, em carta a Lorenzo di Pietro De'Medici, publicada em Lisboa somente em 1538, descreve as impressões que tivera daquelas terras que futuramente seriam chamadas de Brasil:

Caravela de Cristoforo Colombo, xilogravura (1493)
O país é muito temperado fértil e suavemente agradável; e embora tenha muitas colinas é, não obstante, irrigado por infinitas fontes e rios, e possui bosques tão cerrados que por eles não se pode passar, pelo impedimento das espessas árvores, e neste vão vagando animais ferocíssimos e de diversas espécies. As árvores e os frutos, sem obra dos trabalhadores, nascem da própria natureza, e têm ótimas frutas e em grandíssima fartura, nem às pessoas são prejudiciais e são também muito dessemelhantes das nossas; igualmente a terra produz infinitas ervas e raízes, com as quais se fazem pão e outra comida; sementes há de muitas espécies, mas não absolutamente iguais às nossas. O país não produz metal algum, salvo o ouro, que existe em grandíssima quantidade, embora nós, nesta primeira viagem, não tenhamos levado nada, mas disto tivemos a afirmaçãpo de todos os indígenas, os quais afirmam que esta parte abunda em ouro, e com frequência diziam que entre eles é de pouca estimação e de quase nenhum valor... E principalmete causam muitíssima admiração as muitas espécies de papagaios de variadas e diferentes cores. As árvores todas têm um perfume tão suave que não se pode imaginar; e de todos os lados mandam fora gomos e sumos, e se conhecêssemos as suas virtudes, penso que nenhuma coisa faltaria, não quanto aos prazeres, mas a conservar-nos sãos e a readquirir a perdida saúde; e se no mundo algum paraíso terrestre, sem dúvida deve ficar não muito distante destes lugares... O céu é indeterminadamente adornado de algumas estrelas que não são conhecidas entre nós.

Muitas lendas e verdades se misturam à história de Cristoforo Colombo e Americo Vespucci. como a de que fora Colombo responsável por "colocar um ovo em pé". A primeira referência a esse fato foi publicada em 1565 po Benzoni, em História del Mondo Nuovo. Mas, quinze anos antes, a mesma narrativa foi contada em Le Vite, de Giorgio Vasaari. Só que essa versão mais antiga o pitoresco feito foi atribuído a Brunelleschi.

A mais emblemática das mentiras, entretanto, diz respeito ao relacionamento arredio entre os dois navegadores italianos. Americo Vespucci seria um rival de Colombo, o que tornaria o batismo do Novo Mundo com o nome "América" uma enorme injustiça com o navegante genovês. Na verdade, apontam os livros antigos de história das expedições, os dois compartilhavam de preocupações no campo finaceiro e da mesma vontade de descobrir terras novas durante a terceira viagem ao Novo Mundo. Segundo escreveu Colombo em 5 de feveriro de 1505, numa carta endereçada a seu filho Diego: "Americo Vespucci tem sempre agido direito comigo; ele é um autêntico cavalheirio".

Mapa das Américas ou Novo Mundo, de Ortelius (1587)
Além de Americo Vespucci, outros italianos vieram às terras de Santa Cruz nos primórdios so século XVI, ajudando, cada qual a seu modo, a construir a futura nação brasileira. Alguns, como o famoso e experimentado sebastião Caboto, aqui aportavam como navegadores. Outros instalaram-se provisória ou definitivamnete na nova terra, como Beneditto Morelli e os irmãosa Adorno, que pertenciam à nobreza italiana e fizeram literalmente um pedaço da história da América.

De linguagem nobre, Paolo, Francesco e Giuseppe Adorno assumiram papel fundamental na história que, mais tarde, seria escrita nos livros. em se tratando de "fazer a América", poucos como eles mostraram tanto empenho.

Giuseppe tornou-se o interlocutor predileto dos jesuítas José de Anchieta e Manuel da Nóbrega. os três perdiam horas falando dos clásicos literários em latim e italiano. A Divina Comédia também foi um grande companheiro de Brás Cubas, Pascoal Fernandes e outros, com os quais participou da fundação da cidade de Santos. Mais tarde também teria presença marcante na fundação do Rio de Janeiro. Homem rico, Giuseppe tornou-se uma das figuras mais abastadas de São Vicente e Santos. Anchieta refere-se a ele várias vezes em suas cartas, destacando, além dos laços de amizade, a grande contribuição do fidalgo como construtor de igrejas, conventos e engenhos de açúcar. Lutou contra os índios e participou da guerra contra Villegagnon, na baía da Guanabara, ajudando a desfazer o sonho dos franceses de implantar a "França Antártica" na nova terra. Giuseppe morreu no Brasil com mais de 100 anos de idade, lúcido, como descreve Frei Gaspar da Madre de Deus, no livro Memórias para a história de São Vicente, de 1797.

Gravura de Theodor de Bry (c. 1550), registrando a chegada dos navegadores à Ilha de Santa Catarina
Entre esse nobres e plebeus, aventureiros e guerreiros, mas, acima de tudo, comerciantes de pau-brasil, alguns se uniram a descendentes da terra, formando os embriões de grandes troncos familiares, como Paolo Adorno, que desposou Felipa Álvares, filha de Diogo Álvares, o legendário Caramuru. Foi o primeiro cruzamento, de que se tem notícia, de sangue italiano com o indígina. Mais tarde tornou-se um dos mais eficientes aliados de Mém de Sá e Estácio de Sá, tendo participado de várias guerras contra os nativos.

O terceiro nobre da família Adorno, Francesco, também teve grande destaque. Construiu um grande engenho de açúcar e nele trabalhou arduamente, até 1572, quando foi para Portugal.

Navegadores, comerciantes, heróis da nova civilização. Alguns tiveram seus nomes registrados pela história. Outros, entretanto, permaneceram no limbo do anonimato eterno. Cada qual, porém, contribuiu como agente social no processo histórico de expansão da cultura ocidental nessa parte do hemisfério.

Americo Vespucci



 
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