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VITA MIA
Prefácio


LOUVE-SE QUEM DEVE SER LOUVADO
Jorge Amado

Louve-se quem deve ser louvado. Assim sendo, quero louvar a idéia da Parmalat de comemorar seus vinte anos de sucesso empresarial em nosso país com a publicação de um livro sobre os italianos no Brasil: a vitoriosa empresa é de origem italiana. O livro que se vai ler, planejado e redigido por intelectuais brasileiros, ressalta a importância da presença dos italianos entre nós, sua contribuição para nosso desenvolvimento, para nossa cultura, para nossa vida. A presença dos italianos no Brasil, uma saga de amor.

Sou um velho brasileiro, de antigas idades, o que significa ter no sangue a mistura de muitos sangues, tantos que nem mesmo eu saberia dizer quais exatamente. Com certeza sangue indígena, sangue negro, sangue branco. Minha mãe, dona Lalu, era uma pequena índia, a relembrar no físico e em circunstâncias de caráter aquela sua avó capturada na selva pelo avô caçador - ao que me contaram, um português um tanto quanto aventureiro. Sangue indígena bem próximo, como se vê, não mais distante o sangue negro.

Meu pai, João amado de Faria, coronel de cacau, conquistador de terras, plantador de fazendas, ria a morrer quando parentes nossos, atarracados mulatos sergipanos, se gabavam de sangue holandês. Os Amado teriam vindo na comitiva do Príncipe Nassau, governador da província holandesa do Brasil.

O coronel João Amado amava alardear fatos acontecidos no passado, sobre os quais os parentes preferiam guardar silêncio. Tais fatos contavam detalhes dos amores da filha do patrão de um comércio de secos e molhados, moça branca que, tendo se apaixonado por um negro que fazia as contar das vendas e dos lucros, a ele se entregou e dele engravidou. Diante da gravidez patente, o comerciante não teve outro jeito, para salvar a honra da família, senão permitir o casamento, aceitar um negro como genro. Aliás, acrescentava meu pai, nas mãos do negro o armazém conheceu a prosperidade, a fortuna da família cresceu.

Quanto ao propalado sangue holandês, a chegada dos Amado em Pernambuco com Nassau, existem certa razão de ser e dúvidas de origem. A razão de ser baseia-se no fato de que Nassau trouxe para o Brasil muitos daqueles cristãos novos que se haviam exilado na Holanda. Judeus convertidos e nem assim perdoados pela Inquisição, abandonaram a península Ibérica, Espanha e Portugal, em busca de liberdade e de paz. Alguns historiadores consideram que esses cristãos novos eram os cidadãos mais cultos não só da colônia holandesa mas de todo o Brasil. Para decepção de certos parentes nossos, o sangue holandês virava sangue judeu. Na melhor das hipóteses, sangue árabe, dos mouros que haviam invadido e ocupado a península.

Galeões e caravela redonda do século XVI
Abandonemos, porém, tais contradições familiares para louvar a presença criadora dos italianos no Brasil. Muitos chegaram trazidos pela necessidade, outros escapavam da perseguição política. Os primeiros vieram substituir os escravos, recém-libertados, no árduo trabalho nas fazendas de café no Sul do país, sobretudo em São Paulo. Os segundos fugiam às limitações políticas, anarquistas contestatários. Uns e outros ajudaram a construir a pátria brasileira. O bom sangue italiano misturou-se aos demais, tantos outros, nas veias dos mestiços brasileiros.

Vale salientar dois aspectos importantes da contribuição dos italianos para nosso desenvolvimento. Aspectos referentes às áreas da cultura e da vida política. Num e noutro caso, essa contribuição foi fundamental.

No que se refere à cultura, deve-se logo constatar a atividade no Brasil de importantes intelectuais vindos da Itália que aqui estiveram, atuaram e conosco colaboraram. Alguns viveram entre nós durante certo tempo; outros, a maioria, vieram e permaneceram, ficaram aqui para sempre, fizeram-se brasileiros, dos melhores.

Cafezal da Fazenda Santa Genebra, retratado por A. Ferrigno, na tela A colheita (1903). Os imigrantes italianos vieram para substituir a recém-libertada mão-de-obra escrava
Entre os que aqui estiveram e depois regressaram à Itália, desejo citar pelo menos os nomes de Ruggero Jacobbi e de Adolfo Celi. Ruggero Jacobbi teve destacada atuação na vida literária dos país e Adolfo Celi, na vida teatral. Quando já os julgávamos integrados de todo na sociedade brasileira, retornaram à Itália, onde desenvolveram atividade não menos importatnes na literatura, no teatro e no cinema.

Inúmeros foram os que vieram e ficaram, citarei apenas alguns nomes, aqueles que ocorrem à minha memória falha. Decerto cometerei injustiças ao não fazer referência a outras personalidades ilustres e importantes. Que elas me perdoem, os leitores também.

Entre os que vieram e os que aqui ficaram, quero logo falar de um casal de eminentes italianos, de presença e atuação extremamente fecundas. Ao escrever aqui os nomes de Bardi - Pietro Maria Bardi, crítico de arte, e Lina Bo Bardi, arquiteta - estou prestando homenagem a todos os demais. Pietro Maria Bardi criou o Museu de Arte de São Paulo, nosso grande museu, o museu de Bardi, cuja sede magnífica Lina projetou e construiu.

Razões de baiano fazem-me dedicar algumas linhas a mais à figura inesquecível de Lina, pois ela estava ligada, de forma definitiva, à Bahia. Fundou e foi a primeira diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia e influenciou de maneira incontestável a criação artística em nosso estado.

Melhor do que eu, podem dar testemunho os pintores e escultores, os gravadores e os desenhistas. Mário Cravo, Carlos Bastos, Jenner Augusto, Carybé, Calasans Neto. Lina foi uma espécie de figura tutelar das artes baianas. A ditadura militar, reacionária e obscurantista, obrigou-a a ir-se da Bahia. Ela voltou alguns anos depois para restaurar uma das mais belas casas da cidade, situada na Ladeira da Misericórdia.

Rainha Elizabeth II e Pietro Maria Bardi na inauguração da sede do MASP na avenida Paulista, em 7 de novembro de 1968
Citei os Bardi, deveria citar tantos outros, da mesma altura intelectual. Pintores, escultores, gente de teatro e de cinema. Chamaram-se Volpi, Brecheret, Gianni Ratto, Alberto d'Aversa, Paulo Rossi, tantos e tantos outro - sei que estou esquecendo nomes que deveria nomear para a cada um agradecer. Não quero, contudo, que falte o nome de Ciccillo Matarazzo - a família Matarazzo construiu a grande indústria paulista; Ciccillo era o amigo dos artistas.

Quando aos descendentes dos italianos, nem se fala! Foram brasileiros por excelência, brasileiros principais. Menotti del Picchia é o exemplo maior da poesia romântica no movimento modernista brasileiro. Cândido Portinari é o mais nacional de nossos artistas, pintor dos heróis e da gente anônima do povo. Nosso teatro se afirma com Itália Fausta e não podemos esquecer que Maria Della Costa é oriunda de mãe vêneta.

Os italianos estão presentes em todos os aspectos de nossa cultura, em todos eles, da língua que falamos ao futebol tetracampeão do mundo, estão presentes nos manjares que comemos.

Ciccillo Matarazzo, ao centro, com Getúlio Vargas na II Bienal, em São Paulo
A língua portuguesa que falamos e escrevemos no Brasil começou a modificar-se, a enriquecer-se e a ter caráter próprio quando os navegadores portugueses entraram em contato com os indígenas, depois de cruzar os "mares nunca d'antes navegados". Expressões de línguas indígenas infiltraram-se na língua de Camões, ampliando-lhe o vocabulário. Os negros, vindos da África nos navios de escravos, não se contentaram com o enriquecimento do vocabulário, fizeram bem mais, fizeram uma revolução na gramática da língua portuguesa. Puseram abaixo, na fala e na escrita brasileiras, as regras mais sagradas, ensinadas nas escolas às crianças. No colégio dos jesuítas aprendi ser erro imperdoável, crime contra a boa redação, iniciar-se a frase com pronome oblíquo. Mas os negros recusaram-se a dizer e a escrever "dê-me", "faça-me", "ame-me", e ao recusá-lo fizeram muito bem. dizemos e escrevemos nos começos das frases: "me dê", "me faça", "me ame", mais fácil, mais doce, mais bonito.

Também os italianos nos ajudaram nessa recriação da língua herdada de Portugal, para fazê-la língua portuguesa do Brasil. Em determinada época, em bairros de São Paulo, centro maior da imigração italiana, falou-se o "ítalo-paulista", espécie de curioso dialeto, cuja memória permanece no divertido livro de Juó Bananeri. Os italianos marcaram também nosso futebol, tão belo e tão inventivo. Muitos dos maiores jogadores quatro vezes campeões do mundo traziam no sangue a paixão futebolística dos italianos. Ao escrever sobre a presença italiana no Brasil, não quero deixar de citar o clube de futebol Palestra Itália, o atual Palmeiras, ontem reduto da torcida italiana, hoje dono de uma das maiores torcidas brasileiras.

Zélia Gattai, filha de imigrantes italianos
Igualmente de maior importância a influência dos italianos sobre a nossa vida política, o desenvolvimento das idéias, seu debate e sua expansão. Pode-se dizer, sem faltar à verdade, que a esquerda brasileira nasceu dos anarquistas italianos e espanhóis que criaram no Brasil centros operários, centros de cultura política. Hoje seus descendentes são militantes e dirigentes dos mais importantes partidos nacionais, atuam nos parlamentos, no federal e nos estaduais, assim como no poder Executivo e no Judiciário.

Para se determinar a importância da presença dos italianos no Brasil, não bastam umas poucas páginas, exige-se pelo menos um livro. Um livro como este que a Parmalat realiza e publica e que louvo neste arrevesado prefácio - deve-se louvar o que merece ser louvado.

Jorge Amado, casado há cinquenta anos com Zélia Gattai
Para terminar, volto a me referir novamente aos muitos sangues que, misturados, correm nas minhas veias de brasileiro, velho de muitas e muitas gerações. Para constatar, com alegria e orgulho, que nas veias de meus filhos João Jorge e Paloma corre também sangue italiano. Sangue italiano de mãe Zélia, nascida na capital de São Paulo, na alameda Santos, onde se sucediam residências de carcamanos e turcos - uma brasileira de quatro costados. Eu a conheci em 1945, ou seja, há cinquenta anos. Há cinquenta anos somos marido e mulher, compartimos o mesmo leito, as mesmas tristezas, idênticas alegrias. Tive alguns privilégios em minha vida. O maior deles foi ter conhecido Zélia e tê-la tido como companheira, como mulher, como namorada. Vivo há meio século com uma filha de imigrantes italianos, bela, ardente e doce criatura.



 
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