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VITA MIA
Revolucionários

Onde há trevas, és luzeiro;
Onde há livres, cidadão;
Contra os déspotas, soldado;
Onde há povo escravizado,
És anjo da salvação

Versos de Félix da Cunha (1838-1865) a Garibaldi.

HERÓIS DOS DOIS MUNDOS

Estátua de Anita e Garibaldi na praça Garibaldi, em Porto Alegre (RS)
A Itália, historicamente contemporânea do Brasil imperial, não é apenas a terra que produz e exporta príncipes e princesas, sábios e letrados, artistas e cientistas. A península itálica também ganhou fama como mãe de grandes ideólogos, pensadores, revolucionários de diversas tendências.

Esses homens e suas idéias, que à época faziam subir a temperatura política dos principais centros italianos, defendiam ardorosamente a unificação político-administrativa de uma pátria comum e uma busca frenética da independência dos países e da liberdade para os cidadãos de todas as pátrias. O simbolo dessa luta, que tinha em Giuseppe Mazzini seu grande artífice, embora não o único, era a fundação da chamada "Giovane Italia ". Em torno desse slogan se buscava unificar a aurora de uma nova era e uma rica tradição histórica que se perdia no tempo.

Essa luta que empolgou toda uma geração de intelectuais e artistas italianos terminou, como se sabe, com a reunificação do país, em 1861, sob o governo de Victório Emanuelle II. Mas é preciso explicar que, até isso ocorrer, até se chegar a esse consenso político, a repressão contra os revolucionários e os inconformados foi implacável. Alguns foram mortos, outros presos, muitos acabaram exilados ou se exilando em outras terras. O Brasil foi o destino de muitos deles.

Como a Itália, o Brasil passava por momentos de grande agitação politico-militar. A unidade do país estava no centro dos debates e no calor das idéias. Na fase da Regência, que vai de 1831 a 1840, período reconhecida e historicamente crucial quanto às tentativas de consolidação do Império Brasileiro, estouraram vários focos de rebelião.

Começou com a dos cabanos, em Pernambuco (1832-1835); a da cabanagem, no Pará (1835-1840), na qual o botânico italiano Francesco Zani teve grande participação; a da Sabinada, na Bahia (1837-1838); a da Balaiada, no Maranhão (1838-1841); e finalmente, talvez a mais significativa do ponto de vista político e militar, a Guerra dos Farrapos, ou Farroupilha, no Rio Grande do Sul (1835-1845), chefiada por Bento Gonçalves.

No ideário farroupilha fundiam-se num mesmo projeto político, a emancipação da Província em relação ao poder central, que vinha do Rio de janeiro, e a implantação da República de Piratini, que deveria se estender de imediato à vizinha Santa catarina. Se se incluírem nessa região de conflito áreas do extremo sul do continente, em especial o Uruguai, se terá desenhado o palco da Revolução ou a Guerra dos Farrapos. É nesse cenário que, ao lado de brasileiros da região e de revolucionários de outras nacionalidades, aparecem como grandes protagonistas sociais os italianos, temperados pelas idéias libertárias que tiveram origem na Itália.

Não há dados estatísticos confiáveis para se dizer, com exatidão, o número desses personagens, mas se sabe que foram muitos e que a história da época não chegou a registrar os seus nomes. Ao lado de insurretos anônimos, destacaram-se Tito Lívio Zambeccari, o célebre Giuseppe Garibaldi e seu amigo e braço direito Luigi Rosetti e Giambattista Cuneo, que em 1833, num ponto do Mar Negro, convertera Garibaldi às doutrinas de Mazzini.

Zambeccari-guerreiro, idealizador da bandeira e do emblema da República de Piratini, proclamada por Sousa Neto - chegou ao Brasil depois de lutar na Itália, Espanha, Argentina e Uruguai. Além de participar dessas lutas armadas, dedicava-se aos estudos de geografia e história natural, sendo de sua autoria o mapa geral da Província do Rio Grande do Sul.

Preso, juntamente com Bento Gonçalves, no cerco à Ilha de Fanfa, somente em 1839 foi expulso do território nacional, para prosseguir nas lutas pela libertação da Itália. Durante sua prisão traduziu Lamennais para o português (Palavras de um crente) e os famosos " Ensaios da Economia Política", de Sismondo Sismondi. Enquanto traduzia, escrevia, sob pseudônimo, textos na incipiente imprensa oposicionista do Rio de Janeiro.

Giuseppe Garibaldi chegou ao Brasil fugido da Itália. Havia sido condenado à morte, após o fracasso da revolta contra o governo, em Gênova, quando Zambeccari já estava preso na Fortaleza de Santa Cruz. Foi lá que Garibaldi o visitou e o encontrou na companhia de Rosetti. E foi nesse encontro que Zambeccari o convenceu a participar da Guerra dos Farrapos a serviço da República de Piratini.

Antes de tomar a decisão, Garibaldi e Rosetti estabeleceram um novo serviço de cabotagem no Rio de Janeiro, com duas lanchas significativamente denominadas " Giovane Italia " e "Mazzini ". Na verdade, o objetivo de Garibaldi era a atividade corseira, tendo como alvo navios da Sardenha e da Áustria fundeados ou navegando nas costas brasileiras.

Segundo alguns autores, Garibaldi chegou a pedir a Mazzini autorização por escrito para isso. Essa autorização, não escrita, lhe foi dada por Bento Gonçalves, mas para fazer pirataria em navios brasileiros ou imperiais nas partes meridionais do país. O que foi feito.
Mas essas ações já eram tidas como parte de sua participação na Guerra dos Farrapos, na qual ficou responsável pela reorganização da frota republicana, como comandante-chefe da Marinha da República de Piratini.

No calor da luta armada, revelaram-se em Garibaldi duas paixões: uma pelo ideal libertário, outra pela brasileira Anita (Ana Maria Ribeiro da Silva). O guerreiro mostrou-se incansável, admirável lutador e estrategista, perdeu amigos, mas encontrou a compensação no casamento com Anita e ao seu lado viu nascer seu primeiro filho, a quem deu o nome de Menotti, em homenagem a um dos mártires da independência italiana-Ciro Menotti.

Revolução Farroupilha: esquadra imperial ataca Laguna (SC), em poder dos rebeldes, 1839. Desenho de Rafael Mendes de Carvalho.
Em 1845, após vários acordos com o governo imperial e várias concessões, a revolução chegou ao fim. Como parte dos acertos, todos os revoltosos foram beneficiados com uma anistia geral. Antes disso, porém Garibaldi, companhia de Anita, havia deixado o Brasil rumo à Itália.

Em sua terra, como se sabe, foi um dos grandes heróis da unificação da pátria. Garibaldi passou então a ser conhecido como "O herói dos dois mundos". Esse título carrega mais do que suas vitórias revolucionárias; marca a união entre o Brasil e a Itália.

Anos após sua partida do Brasil, Garibaldi fez questão de rememorar as suas atividades e emoções na guerra dos Farrapos. Em uma carta endereçada a Domingos José de Almeida, que exerceu o cargo de secretário da Fazenda da República de Piratini, o herói não conseguiu esconder o mar de saudades que sentia da sua pátria brasileira, os amigos que aqui havia deixado e daqueles que partiram no infortúnio que rodeia toda revolução. Era uma carta de exaltação `a coragem, ao destemor dos infantes que campeavam pelos prados gaúchos em nome da República de Piratini. Garibaldi enaltece a tropa, diz jamais ter visto gente tão valente e determinada e que sente, na Europa, a vontade de olhar para o lado e rever, na luta, homens como Bento Gonçalves.

Giuseppe Garibaldi
Modena, 10 de setembro de 1859.

Meu prezado amigo, Sr. Almeida.
Quando eu penso no Rio Grande, nessa bela e cara província, quando penso no acolhimento com que fui recebido no grêmio de suas famílias, onde fui considerado filho; quando lembro das minhas primeiras campanhas entre vossos valorosos cidadãos e os sublimes exemplos de amor pátrio e abnegação que deles recebi, eu fico verdadeiramente comovido . E esse passado da minha vida se imprime em minha memória como alguma cousa de sobrenatural, de mágico, de verdadeiramente romântico.
Eu vi corpos de tropas mais numerosos, batalhas mais disputadas, mas nunca vi, em nenhuma parte, homens mais valentes, que os da bela Cavalaria Riograndense, em cujas filas principiei a desprezar o perigo e combater dignamente pela causa sagrada das Nações.
Quantas vezes tenho tentado patentear ao mundo os feitos assombrosos que vi realizar por essa viril destemida gente, que sustentou por mais de nove anos contra um poderoso império a mais encarniçada e gloriosa luta.
Não tenho escrito semelhante prodígio por falta de habilitação, porém a meus companheiros de armas mais uma vez tenho relatado tanta bravura nos combates, tanta generosidade na vitória, tanta hospitalidade, tanto afago aos estrangeiros, e a emoção que minha alma então jovem ainda sentia na presença e na majestade de vossas florestas, da formosura de vossas campinas, dos viris e cavalheirescos exercícios de vossa juventude corajosa; e, repassando pela memória as vicissitudes de minha vida entre vós em seis anos de ativíssima guerra e da prática constante de ações magnânimas, como em delírio brado:
- Onde estão esses belicosos filhos do continente, tão majestosamente terríveis nos combates! Onde estão Bento Gonçalves, Neto, Canabarro, Teixeira e tantos outros valorosos que não lembro! Oh! quantas vezes tenho desejado nestes campos italianos um só esquadrão dos vossos centauros avezados a carregar uma massa de infantaria com o mesmo desembaraço como se fosse uma ponta de gado.

Comemoração de imigrantes italianos garibaldinos
Que o Rio Grande ateste com uma modesta lápide os sítios em que descansam seus ossos. E que vossas belíssimas patrícias cubram de flores esses santuários de vossas glórias é o que ardentemente desejo.

Eu muito me lembro, meu digno e caro amigo, da bondade generosa com que fui honrado por vós, no tempo em que dignamente ocupastes umas das pastas do Ministério da República, e tenho verdadeira saudade, como gratidão dos benefícios recebidos de vós e de vossos companheiros e concidadãos na minha estada no Rio Grande.

Por mim abraçai a todos esses amigos e mandai em toda a ocasião ao vosso verdadeiro amigo.

Outro nome que marca o fervor italiano na busca por ideais é o de Libero Badaró. Cinco anos antes da chegada de Garibaldi às cenas da guera no Sul do país, os jornais da época noticiavam o assassinato em São Paulo, por adversários políticos que se identificavam com o governo imperial, de Giovanni Battista Libero Badaró.

Diferentemente de Garibaldi, que agia com as armas, Badaró usava a argumentação, seu incrível poder de retórica. Era de fato um grande agitador de idéias republicanas e liberais. Sua arma, portanto, era a palavra. Médico, botânico, professor de matemática nos cursos jurídicos dos quais sairia a tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco, Badaró foi também o fundador do segundo jornal da província, "O Observador Constitucional", em 1830.

Líbero Badaró em seu leito de morte. Aquarela de Hércules Florença.
No primeiro número, Badaró declara: "Não devia vegetar no Brasil a planta do despotismo". Foi assassinado brutalmente em 20 de novembro do mesmo ano e, no leito de morte, teria pronunciado uma frase que se tornou uma espécie de ícone do liberalismo : Morre um liberal, mas não morre a liberdade".

Embora sua morte, tenha produzido grande comoção na sociedade, somente quase sessenta anos depois é que seu nome foi reconhecido pela importância histórica que exerceu. Dias após a proclamação da República, por Deodoro da Fonseca, seus restos mortais foram, com grande ritual trasladados para o Cemitério da Consolação. E a rua São José, no centro de São Paulo, onde badaró morava e fora assassinado, recebeu o nome de Libero Badaró.

Atrás da recuperção e consagração da memória desse liberal estavam dois jornalistas italianos que se radicaram e constituíram família no Brasil: Domênico Rangone e Nicola Ancona Lopes.



 
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