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"Este jovem começa por onde eu acabo"
A influência da música na formação brasileira é soberba. Concertistas, compositores, instrumentistas e professores, todos foram atraídos pelo Brasil por causa da Corte Portuguesa. Eles atuaram no ensino, na propagação e institucionalização de suas tradições musicais. Com isso, ajudaram a criar na sensibilidade brasileira um padrão de técnica e estética que, reforçado pela influência dos imigrantes, perdura até hoje. Levado por esse clima e pela pressão da Imperatriz Teresa Cristina, Carlos Gomes completou seus estudos na Itália e de lá trouxe, entre outras composições O Guarani, espécie de hino nacional brasileiro no campo operístico. A presença de músicos italianos e da música italiana, popular e erudita, era tão forte que Mário de Andrade via nesse fato o caminho para descaracterizar a identidade do povo brasileiro. Em sua denúncia, o consagrado autor de Macunaíma propunha contra-ofensiva a essa invasão musiacal tendo como o rádio, que ainda engatinhava no Brasil.
Ao lado de Mignone aparecem, entre outros a, os compositores e maestros Radamés Gnatalli, Gabriel Migliori e Camargo Guarnieri. Durante anos, até sua morte, Guarnieri foi maestro da Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo. A música "pegou" definitivamente o brasileiro, eo sobrenome italiano sempre esteve atrelado, eo sobrenome italiano sempre esteve atrelado às manifestações musicais do país. Na música popular brasileira aparece uma relação infinda de compositores oriundos da Itália ou descendentes daquele país. Entre eles, Adoniran Barbosa, cuja principal característica é registrar nas letras de suas canções vícios de linguagem ligados ao falar popular e italianizado de São Paulo, e Paulo Vanzolini, autor de músicas inesquecíveis como o samba Ronda e o samba Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. Vanzolini é uma personalidade interessante: além de sambista consagrado pela crítica e pelo povo, é doutor em Zoologia, pela Harvard University. Foi nessa condição que chegou ao posto de pesquisador, professor e diretor do Museu de Zoologia, da Universidade de São Paulo.
Bidu tem sua história intimamente ligada à Itália e sua cultura. Seja pela condução musical do apadrinhamento de Toscanini, seja pelos dois casamentos de sua vida, com italianos ligados à música. A franzina moça fascinava pela beleza e voz e cantou pela primeira vez em 7 de julho de 1926, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, no papel de Rosina, da ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini. Desde então, foi como se tivesse sido descoberta pelo mundo da música. Ela se casou muito cedo, como era costume em seu tempo. Tinha 19 anos de idade e seu marido, o italiano Walter Mocchi, era à época o maior empresário da América Latina. Quarenta anos mais velho, Mocchi foi talvez o maior entusiasta da carreira de Bidu Sayão. Anos mais tarde, os dois se separaram e, pouco tempo depois, ela conheceu na Itália um dos tenores de maior expressão de seu tempo, Giuseppe Danise. Cantou com ele O Rigoletto, em 1935, e tornou-se sua mulher. Danise, assim como Mocchi, guiou a carreira de Bidu. Ela nunca se cansou de dizer que Giuseppe a conduziu ao canto lírico. O próprio Danise fez carreira por quinze anos no Metropolitam, de Nova York.
Bidu Sayão cantou em várias partes da Europa e se encantava de poder divulgar o nome do Brasil. Seu orgulho de ser brasileira se acentuava à medida que sua nacionalidade era destacada nos cartazes que anunciavam seus espetáculos. Certa vez, quando ainda era uma menina, com 17 anos, cantou para o Imperador Hiroito, do Japão. Ao final, o monarca lhe rotulou de "o rouxinol do Brasil", um título que ela ostenta como uma comenda das mais significativas. Misto de erudito e popular, o pensamento de Bidu pode ser traduzido em suas personalidades preferidas, como a admiração que tem por Pelé, segundo ela "o Caruso do Futebol". MASCARADOS E COMILÕES
Quem poderia imaginar que até no Carnaval o italiano colocou a mão? O evento, embora considerado a grande festa popular do Brasil, com características regionais, é sempre associado ao Rio de Janeiro e ao famoso desfile das escolas de samba. Na passarela pública do samba, todos se equivalem, a desigualdade desaparece e todo mundo vive seu dia de artista. O negro, com a sua música, seu ritmo e seus instrumentos, é a inconfundível marca étnica. Na avenida desfilam alas de homens e mulheres de todas as idades e etnias, ao som de instrumentos de percussão. Esse quadro, quase impressionista, dá o retrato do carnaval estilo carioca, festa e modelo exportados para o mundo. mas esse Carnaval, que começou a ganhar expressão no início da década de 30, na verdade representa terceira e mais recente fase da folia de Momo. Tropicalizou-se de vez e torno-se um dos símbolos da identidade da cultura nacional. Antes, porém, passou por duas fases, pelo menos em São Paulo: a primeira, do entrudo, de tradições portuguesas, e a segunda, a do Carnaval veneziano, em que compareciam as camadas mais favorecidas. O Carnaval veneziano teve como símbolo, em seu apogeu, o corso (palavra de origem italiana) de carros desfilando pelas principais avenidas da capital paulista. Brincava-se o Carnaval também nos clubes fechados, nos famosos bailes de máscaras. Esse Carnaval não produzia nem consumia, como hoje, músicas específicas. As orquestras tocavam músicas de todos os gêneros, em especial as "marchas de óperas que andavam na moda", como a marcha triunfal da Aida, de Verdi. Ao lado do Carnaval veneziano, denominado o Grande Carnaval por alguns estudiosos, desenvolvia-se o Pequeno Carnaval, das camadas mais pobres, do proletariado. Mesmo o Pequeno Carnaval era socialmente estratificado. Havia o dos negros e o dos brancos. O dos negros, num processo histórico de evolução, acabou virando sinônimo do Carnaval brasileiro. O dos brancos, de pobres e imigrantes no seu início, também evoluiu, procurando seguir o modelo do Grande Carnaval.
Miguel Dellerba, Olímpio Perrone, Ado Benatti, Luiz Mazoleni e Mário Cristiani. Grupos filodramáticos como o Arte e Labor e Musitália. Clubes Ruggerone e Roma. Estes são alguns dos nomes que evocavam a presença de imigrantes e seus descendentes nos carnavais da Lapa e da Água Branca. O lado lúdico que não distingue entre o profano e o sagrado está, em São Paulo, representado pelas festa de rua - no Brás, no Bexiga, na Mooca, no Pari. No Bexiga dá-se a grande festa, durante noites seguidas, em homenagem a Nossa Senhora Aquiropita. ou Achiropita. Na Moóca, é a ruidosa festa de San Genaro. no Pari, antiga várzea, hoje bairro central, italianos e seus descendentes oriundos de Polignano a Mare promovem festas dedicadas a São Vito Mártir. A rua era e ainda é o palco dessas festas, onde se misturam a fé e a comilança, tudo regado com muito vinho e bom humor. O programa que comemorou os 69 anos da festa de Achiropita previa "cantina, quermesse, procissão e música italiana". Verdadeira multidão acotovela-se, todos os anos, pelas ruas dos bairros - menos pela procissão e muito mais pelas guloseimas preparadas pelas mamas italianas. Pizzas, lasanhas, massas (taglierini, spaghetti, fusilli) compõem, invariavelmente, o cardápio, sempre feito às toneladas. Essas comidas são italianas, mas já fazem parte da mesa dos brasileiros. As pizzarias e cantinas contaminaram a cidade: quase sempre decoradas com motivos italianos, nas cores vermelho e verde da bandeira da Itália, saíram das fronteiras dos bairros italianizados, refinaram-se e espalharam-se por todos recantos. A culinária, assim, contribuiu para mais um retoque na formação da cultura brasileira, ao lado de casa, palacetes, edifícios públicos e esculturas. Antes que o comércio se apossasse dessa culinária, parte dela já havia sido incorporada pela cozinha brasileira, em especial a macarronada e a polenta. Ignorando toda a variedade de pratos, as massas foram simplificadas no léxico brasileiro como "macarronada" e ganharam status elevado no cardápio da população, mesmo na de baixa renda. Transformou-se em prato da comida do dia-dia, do popular feijão com arroz. As datas especiais, como batizado, casamento e outras comemorações, passaram a ter também a macarronada como prato principal. A polenta, prato do norte da Itália, sempre foi vista com certa ambiguidade e nunca valorizada como a macarronada. Serviu até para designar pejorativamente o italiano que, em certo momento da história, era chamado de "polenteiro", mas foi resgatada em combinações de pratos nobres nos restaurantes de primeira linha, como o Massimo e o Fasano. Ainda hoje é consumida em sua forma mais conhecida: frango com polenta. O vinho, ao lado dessa culinária, marca, junto com o pão italiano, as festas da colônia peninsular no Brasil. São famosas as festas do vinho de Caxias do Sul (RS), de São Roque e Jundiaí(SP). MANGIARE
Bonachão, Massimo costuma encher os bolsos de seus fregueses com balas coloridas e oferece um dos melhores cardápios da cozinha italiana que se pode encontrar na gastronômica São Paulo. Formado em economia, ele tem berço na cozinha. Seu pai, o italiano Felice Ferrari, inaugurou em 1949 a churrascaria Pampas, em seguida transformada em Farroupilha e depois em A Cabana, que até poucos anos funcionava na velha avenida Rio Branco, sob a batuta de sua mãe, Maria Ferrari. No Massimo se podem ver verdadeiras proezas, como Omar Fontana, presidente da Transbrasil, uma das mais importantes empresas aéreas do Brasil, dedilhando o piano. Fontana conhece a família Ferrari desde os tempos em que a Sadia chegava a São Paulo com seus aviões para fornir, com a melhor carne, a casa de Felice Ferrari. A importância de Massimo o fez assumir um papel relevante no roteiro gastronômico e turístico da cidade, atividade que divide, entre outras, com o cargo de delegado no país da Ordine Ristoranti Professionisti Italiani, que em todo o mundo conta com trezentos associados na chamada culinária de primeira instância. Outros nomes italianos se destacam nesse cenário. Os Fasano certamente dividem o pódio da preferência. Servindo comida com um cardápio da região do Vêneto, a história dos Fasano começa no longínquo 1903, quando o patriarca Vittorio aportou no brasil com algum dinheiro para também tentar "fazer a América". Ele conseguiu. Na praça Antonio Prado, hoje centro velho de São Paulo, Vittorio montou a Brasserie paulista. Era uma São Paulo bem diferente da atual, sem arranha-céus, sem poluição. Mas poucos anos depois, Vittorio morreu e os irmãos mais velhos, encarregados de cuidar da família, decidiram mandar o mais novo, Ruggero, para estudar na Itália. Ruggero ficou num internato em Turim, casou-se na Itália e, depois de dois filhos, resolveu voltar ao Brasil, em 1938. Dez anos depois montou o primeiro restaurante Fasano, na rua Vieira de Carvalho. Era o retorno à velha tradição gastronômica da família. Mais um ano e outra unidade do Fasano era erguida na rua Barão de Itapetininga. Virou point para o chá das cinco entre as socialites da época, que hesitavam entre o Fasano e o Mappin Store, dois dos mais elegantes endereços na São Paulo da década de 50. Em 1952, o endereço da Brasserie Paulista era recuperado pelos Fasano; e, seis anos mais tarde, o recém inaugurado Conjunto Nacional, na avenida Paulista, recebia a quarta casa.
Outros nomes fazem lembrar a Itália mais próxima do brasileiro, transformam poucos metros quadrados em um pedaço do país da bota. Lembrar de todos ou da maioria é tarefa praticamente impossível e que certamente exigiria um novo livro. Mas ninguém desconhece nomes como Gigetto, Giovanni Bruno, Mancini, Giordano, e tantos outros, que formam esse cenário de paladar apurado pelos anos. A própria pizza, incorporada ao dia-a-dia do brasileiro. é a mais viva lembrança da influência italiana na gastronomia. "Ciao, uma belíssima noite", costuma dizer Massimo Ferrari ao se despedir dos clientes. O sorriso largo é a estampa do melhor formato do otimismo italiano, da alegria de um povo. O gesto é repetido centenas, milhares de vezes, todos os dias, por um exército de italianos de várias gerações que respondem por um percentual considerável da melhor cozinha que o Brasil reserva a seu povo e a seus turistas.
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